Brasileiros jihadistas

Acatada denúncia contra nove por ligação com EI

Investigação da Polícia Federal interceptou conversas do grupo planejando atentados no território brasileiro

Recrutamento de brasileiros para as fileiras do Estado Islâmico foi denunciado em 2015 durante audiência pública em comissão na Câmara dos Deputados ( Foto: ABR )
00:00 · 18.05.2018

Brasília/Goiânia. O Ministério Público Federal (MPF) acusou 11 pessoas de tentarem formar uma organização criminosa para promover no Brasil a facção terrorista Estado Islâmico (EI) e de recrutarem um menor de idade para a participação em ataques terroristas. No final de abril, a denúncia foi aceita, e nove deles se tornaram réus –os outros dois foram diagnosticados com distúrbios mentais.

Segundo a denúncia, datada do dia 20 de abril, os acusados são investigados desde 2016 pelas equipes da Polícia Federal (PF) e chegaram a debater a possibilidade de cometer atentados em território brasileiro. 

A investigação começou a partir de um comunicado enviado pela Guarda Civil espanhola dando conta de que números de telefones brasileiros estavam em três grupos do aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp que seriam responsáveis pela promoção do Estado Islâmico. 

Neles, havia troca de imagens e vídeos de atentados e crimes cometidos pela facção. A acusação se baseou principalmente em interceptações telefônicas, postagens no Facebook e conversas de WhatsApp. 

A denúncia foi feita pelo procurador Divino Donizette da Silva em Goiás. Procurada, a defesa dos suspeitos disse que as provas são frágeis. 

A partir da informação que veio da Espanha, os policiais chegaram ao nome de Weverton Costa do Nascimento, que administrava dois grupos de WhatsApp suspeitos de terem atividade ligada ao Estado Islâmico.

Segundo a denúncia apresentada pelo procurador, ele teria confirmado em depoimento que a possibilidade de criação de uma célula do Estado Islâmico no Brasil foi debatida no grupo virtual. Também teria afirmado que estava em contato com uma pessoa chamada Walter para a realização de um atentado com explosivos no país. 

A partir de dados encontrados no celular de Weverton, a PF chegou ao nome dos outros acusados, entre eles Welington Moreira de Carvalho, que se autointitulava líder da rede terrorista Al Qaeda no Brasil –uma organização que não tem ligação com o Estado Islâmico.

Segundo o MPF, Welington disse em conversas interceptadas que queria criar um califado islâmico no território brasileiro e, para isso, desejava fundar um grupo paramilitar. A denúncia diz ainda que a PF encontrou indícios de que ele se preparava para realizar um ataque terrorista. Welington guardava em seu telefone celular informações sobre a fabricação de explosivos. 

Ele também teria sugerido a outro dos réus, Harisson de Souza Andrade, que o grupo recorresse a crimes como tráfico de drogas, prostituição e sequestros a fim de conseguir dinheiro para financiar suas atividades. 

Welington teve a prisão preventiva decretada e está detido, assim como outro dos acusados, Jhonathan Sentinelli Ramos. Outro réu é Jonatan da Silva Barbosa, que também teve o celular analisado pela PF. Já um outro acusado, Kleiton Franca Nogueira, diz em uma conversa que estaria disposto a ajudar na primeira ação do grupo, o sequestro de turistas, que seriam trocados por membros da rede Al Qaeda hoje presos. Além de Weverton, Welington, Harisson, Jonatan, Jhonathan e Kleiton, também são réus no caso Thiago da Silma Ramos Benedito, Matheus Santos Pinaffo, e Antonio Marcos Souza Nascimento.

A maioria do grupo é representada pelos defensores públicos Mariana Costa Guimarães e Carlos de Almeida Sales Macedo. Em nota, eles disseram que não há vínculo permanente entre os acusados e que as provas de acusação “basicamente se limitam a trocas de mensagens de WhatsApp, o que não configura ato concreto de promoção ao terrorismo”. Eles afirmaram ainda que os réus vão provar sua inocência ao longo do processo.

Denúncia desde 2015

De acordo com a denúncia, não há ligação entre os acusados neste caso e os presos na Operação Hashtag, desencadeada em julho de 2016, pouco antes do início da Olimpíada do Rio. Na ocasião, 13 pessoas foram detidas acusadas de promoção de organização terrorista e de associação criminosa. Os crimes são os mesmos pelos quais é acusado o grupo denunciado em Goiás. 

Não é de hoje que as autoridades brasileiras recebem denúncias de recrutamento de brasileiros pelo Estado Islâmico. Em maio de 2015, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados promoveu uma audiência pública para tratar do tema. O sheik Jihad Hassan Hammadeh, presidente do Conselho de Ética da União Nacional Islâmica, foi um dos participantes do debate sobre o assunto.

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