praia do futuro

Surfe nas ondas do amor

Projeto social na Capital cearense inclui, no esporte, pessoas com deficiência através da prática do surfe

Medo e as muletas ficam presos à areia, enquanto a liberdade é encontrada no mar ( Foto: Natinho Rodrigues )
00:00 · 07.10.2017
Jordenia Custódio é uma das integrantes do projeto e fala com entusiasmo sobre a sua atividade esportiva dentro do mar da Praia do Futuro ( Foto: Natinho Rodrigues )

Jordenia Custódio tinha onze anos quando perdeu parte do corpo num acidente de trânsito. Era 1978 e a adolescente estava esperando por um ônibus em uma parada, na BR-116, em Fortaleza, quando um motorista alcoolizado subiu a calçada e a atingiu. “Filha do Juarez”, como era chamada, foi socorrida por um casal e levada ao Instituto Dr. José Frota (IJF).

A primeira coisa de que se lembra depois do acidente é o amor dos familiares e profissionais no hospital, quando acordou. “A equipe médica passou 12 dias tentando salvar a minha perna. Quando viram que não tinha mais jeito, lembro que a enfermeira e os médicos contavam a história da mulher biônica. Diziam que eu iria ter uma prótese linda. Por esse apoio que recebi, não sofri tanto”, diz.

 

Projeto 'Amar é Vida' dá aulas de surfe a pessoas com deficiência

 

Passaram-se 39 anos e Jordenia brinca com sua muleta na Praia do Futuro. No mar, seus companheiros treinam. Todos são como ela. Têm alguma “deficiência”. Exercitam-se para começar a aula. A fotógrafa é aluna do projeto 'A maré Vida', idealizado por Luís Gustavo, 'Gustavim', de 40 anos, dono da escolinha PF Surf School; Camila Lima, 30, médica; e Raíssa Forte, 29, educadora física.

O primeiro passo aconteceu quando Gustavim, ainda na década de 1990, apoiou um rapaz tetraplégico. Era seu amigo. Emerson Martins, 'Mecim', que o assistia a pegar ondas na Praia do Futuro. “Ele era cadeirante e gostava de estar próximo da gente e queria vivenciar o esporte. Vi naquela cena um negócio teoricamente tão absurdo que era até difícil imaginar. Mas achei fascinante. O colocamos na água e hoje ele pega ondas nos grandes mares”, fala o professor. Em 2016, o 'A maré Vida' se tornou realidade, oferecendo a qualquer pessoa com alguma deficiência física ou mental, limitação ou dificuldade de aprendizado a prática do surfe. 

Independente 

Luís Gustavim pede aos alunos que remem depressa na piscina natural que se formou após a maré baixar. Os alunos fazem isso com alegria. Toda a força reside no único joelho e nos braços. Para aumentar a rapidez, um 'empurrão' do treinador. Nas aulas, exercitam corpo e mente. As muletas, ficam na areia, afundando o medo e equilibrando sonhos.

Durante os treinos as sensações de liberdade, superação e independência são promovidas. A ansiedade e o nervosismo atrapalham nas primeiras ondas, entretanto, depois de algumas tentativas dos alunos, a euforia toma conta e, ficar de pé, é a maior vitória. 

“Eu achava que praticar surfe era algo impossível. Ele supera todos os esportes que pratiquei. Sou apaixonada pelo mar e isso facilitou”, relata Jordenia, que já foi campeã cearense e Open de natação. Ela é uma mulher de sonhos e o último deles seria pular de paraquedas. 

Em 2017, seus braços que carregam todo o peso da sua vida, começam a falhar. Se não tivesse eles em forma, ela acha que deixaria de ser essa mulher biônica – como na série de sucesso nos anos 1970 – que se transformou.

Inter-relação

'A maré Vida' se difere dos demais projetos pela estimulação da participação dos pais e cuidadores que recebem sessões de acupuntura, reiki (técnica japonesa para redução do estresse e relaxamento que promove a cura através da energia vital) e liberação muscular. A intenção é promover relações interpessoais, garantindo a emancipação e inclusão. Rafael Saraiva, de 32 anos, também é aluno do projeto, e já surfava antes mesmo de sofrer um acidente de moto, enquanto subia a serra de Guaramiranga. Para o auxiliar administrativo, essa participação conjunta facilita a permanência no projeto. “Aqui o apoio é para todo mundo. Essa interação entre família, cuidadores e nós alunos, propicia um espaço privilegiado que promove a cidadania”, declara o aluno e surfista. 

O atendimento acontece nas terças-feiras em uma barraca da Praia do Futuro no período da tarde, de forma gratuita. Além disso, o projeto promove aulas de capacitação para graduandos de Educação Física. (Colaborou Ideídes Guedes).

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