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Torcedoras do Fortaleza lançam campanha para incentivar mulheres nos estádios

Organizadoras coordenam questões nos bairros a fim de viabilizar caronas amigas e divisão de transportes individuais pagos

13:11 · 13.01.2018 / atualizado às 13:44
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Grupo surgiu no ano passado com a intenção de participar das ações coletivas e sociais do clube ( Divulgação / Torcedoras do Leão )

O medo faz parte do cotidiano de cidadãos que vivem em grandes centros urbanos mundiais. Em Fortaleza, não seria diferente. O receio se estende, inclusive, aos espaços de lazer, conhecidos pela grande maioria como locais de descanso e diversão nas horas vagas. 

Por causa do amor pelo futebol, os estádios reservam a alegria e a paixão de diversos brasileiros, sedentos pelo momento no qual o apito do juiz inicia a partida. No entanto, nem todos os grupos sociais frequentam esses espaços da mesma forma; algumas mulheres pensam duas vezes antes de ir prestigiar o clube do coração. 

Mas, no que depender de um grupo de torcedoras do Fortaleza Esporte Clube, esse medo está com os dias contados. O "Torcedoras do Leão" é um agrupamento formado por mulheres de várias torcidas organizadas do time e surgiu no ano passado.

Tudo começou com a execução de atividades sociais na Praça do Ferreira, na qual mulheres torcedoras de clubes cearenses promoveram um almoço para pessoas em situação de rua. Lá, as tricolores perceberam que houve forte adesão de garotas do Leão, o que as levou a criar um grupo feminino e uma fanpage no Facebook.

Estádio sem medo

Após a criação das redes sociais, porém, algo chamou atenção: "uma moça fez um comentário na nossa página, dizendo que gostaria muito de ir aos jogos, só tinha ido duas vezes e, em virtude de os amigos não irem mais, não se sentia à vontade de ir sozinha", conta a microempreendedora Deseree Martins, integrante do Torcedoras do Leão. 

De acordo com Deseree, foi a partir desse momento que elas resolveram iniciar o projeto #estadiosemmedo, com a proposta de convidar mulheres a frequentarem esses espaços, ainda que haja receios frente ao machismo, ao assédio e à violência. 

"Várias torcedoras entraram em contato conosco e a gente organiza a questão nos bairros para oferecer carona, dividir um Uber, para elas poderem frequentar o estádio", relata Deseree ao explicar que, em menos de 24h, 78 mulheres já demonstraram interesse em irem juntas ver os próximos jogos.

Insultos durante as partida

Nos 17 anos de torcida organizada, Deseree pode até não ter passado por nenhuma situação do tipo, mas a amiga Clézia Lima, 29, já ouviu absurdos durante uma partida. "A bandeirinha era uma mulher e eu estava próxima a ela. Todas as vezes que ela levantava a bandeira, os homens usavam palavras de baixo calão. Para mim, como mulher, era como se fosse diretamente comigo", narra Clézia.

Segundo ela, porém, o medo também é fruto de uma cultura midiática de criminalização do torcedor. "O que a gente vê na mídia é que somos vândalos e a quantidade de policiais no estádio reforça isso. Com o tempo e o hábito, todas essas questões foram se desfazendo e agora não me sinto mais insegura", afirma a professora.

A campanha das torcedoras do Leão já está se organizando para os próximos jogos. No dia 17, em confronto com o Uniclic, no Estádio Presidente Vargas, e no dia 21, contra o Maranguape, no Castelão, elas já pretendem formar um agrupamento feminino na torcida.

"Vira e mexe, somos questionadas sobre as regras do jogo, mas nós entendemos, sim, das regras e há uma parcela que nos apoia e acha que o nosso local é onde queremos estar", defende Clézia.

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