ENTREVISTA - EDSON PALOMARES

‘‘O meio do futebol é cheio de vaidade e de inveja’’

17:21 · 02.08.2008
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Contratado pelo até então presidente do Fortaleza, Marcello Desidério, no ano passado, Edson Palomares chegou ao Pici com um projeto de longo prazo para levantar o clube. Porém, apesar do título estadual, não agradava à patrocinadora e acabou deixando o Tricolor, após o ex-treinador Heriberto da Cunha exigir sua saída.

Por que você saiu do Fortaleza?

Até certo ponto, para mim foi uma surpresa. Mas acredito que tenha sido pela forma como nós conduzimos o trabalho. Nós tínhamos uma proposta de longo prazo e não gostamos de trabalhar com imediatismo. Daí, tivemos resistência de alguns setores do clube e isso foi prejudicando nosso trabalho, que culminou com o desentendimento com o treinador, que acabou conversando com o patrocinador inviabilizando minha permanência no Fortaleza.

Quais eram os setores no clube que mantinham essa resistência?

O meu maior problema foi ter sido contratado diretamente pelo presidente do clube, sem uma referência do diretor de futebol e isso não é muito comum. Eu até entendo a posição do Dr. Edilson. Nós não tivemos uma aproximação muito grande e quando o coordenador de futebol não vai muito bem com o diretor de futebol a coisa não caminha como deveria. Talvez isso tenha sido o grande problema. E eu não sabia, quando fui contratado, que havia um pequeno desentendimento entre a presidência e a Santana Textiles. Pensei que isso não atrapalharia, mas acabou atrapalhando. Então, fica difícil trabalhar ali dentro. Você fica num oceano à deriva.

Então, quando você chegou (24 de novembro de 2007), já havia uma rusga entre a presidência do clube e a patrocinadora?

Já existia sim, algumas arestas e isso foi se agravando com o tempo. E eu fiquei no meio dessa luta com esse fogo cruzado.

O que foi que houve entre você e o Heriberto da Cunha?

Em nenhum momento eu cheguei a discutir com o Heriberto ou o Dr. Edilson José. O que houve foi que o Heriberto procurou nosso patrocinador e solicitou a minha saída. Isso devido ao fato de que o Erandir tinha que assinar um contrato de prorrogação do seu vínculo com o Atlético/PR, que ameaçou tirar o jogador do Fortaleza, assim como fez com o Rogerinho, caso ele não assinasse. Então, eu liguei ao presidente Marcelo Desidério, ele estava ciente disso. O representante do Atlético foi ao hotel, na véspera de um jogo importante, mas nós tínhamos de prever o futuro, se nós não deixássemos o representante ir lá, poderíamos ter problemas no futuro. Ele foi até lá, o Erandir acabou não assinando. O Heriberto se reuniu com os dois, ficaram até altas horas conversando. No outro dia, o Heriberto venho me dizer que eu tinha autorizado aquilo tudo, mas o presidente estava ciente dos acontecimentos.

O presidente do Uniclinic e conselheiro do Fortaleza, Dr.Vanor Cruz, disse que você é o principal responsável pela crise no Fortaleza?

O Dr. Vanor é uma ótima pessoa e de um bom coração. Infelizmente, ele tem uma passionalidade muito grande e isso acaba prejudicando no meio do futebol. O interessante é que durante o tempo em que estive no Fortaleza eu nunca o vi por lá. Mas nós já conversamos e chegamos a um consenso de que não adianta ele ficar me atacando pela imprensa. E ele me fez uma promessa por telefone e disse que encerrou este assunto e virou algo do passado.

Por que você acha que o Desidério renunciou ao cargo de presidente?

O presidente Marcello é um ótimo articulador, dinâmico, é um político do futebol. Porém, o maior desgaste dentro do Fortaleza foi não ter uma proximidade maior com o seu patrocinador. Por divergências ideológicas. Eu não posso falar muito, porque tive no máximo dois contatos com o Seu Raimundo Delfino, por isso não o conheço. Então, eu acho que o Desidério estava cansado das críticas, desgastado, atado, as dívidas se somando, algumas rendas que eles esperavam e não aconteceram, venda de jogadores que não se concretizaram e isso foi desgastando muito. E ele tinha um grande aliado lá dentro, que era o Armando (Júnior, seu assessor). Com a saída do Armando, ele se sentiu sozinho e acabou por sair.

Então, quem manda no clube é a patrocinadora?

Quem detém o dinheiro é o chefe. No caso do Fortaleza, agora com o Lúcio Bonfim, um bom dirigente, sério, um articulador, um político do futebol, eu acredito que ele faça um grande trabalho. Só que existe no Fortaleza e em clubes, que ficam agregados muito tempo a um só patrocinador, cerca de dois três anos, acabam que recebendo opiniões e são influenciados por essa parceria.

Quando o atual presidente do Fortaleza, Lúcio Bonfim, assumiu, ele disse que um dos principais problemas no Pici era a gestão no clube, ou seja a administração. Você concorda com isso?

O Fortaleza tem um dos elencos mais fortes da Série B, mesmo com saída do Márcio Azevedo e do Rômulo, ele ainda tem reais chances de se reerguer. A gestão é composta de vários fatores. O primeiro é a união entre os seus gestores, isso não existia. Existiam quebras e segmentos no Fortaleza. E isso é importante que seja recuperado pelo Lúcio. Ele vai ter de unir o clube para que o torcedor possa perceber que existe um só Fortaleza, e não dois, três gestores falando uma linguagem diferente.

Você é empresário de algum jogador?

Não, não sou. Jamais ganhei um real de um jogador. Até hoje jamais ganhei um par de meia com venda de jogadores.

Então, essa história de que você ganhou dinheiro com a vinda de jogadores do Atlético/PR e saída de jogadores do Fortaleza, no caso o Rogerinho, é mentira?

Nenhum centavo. Isso você poder ter certeza, pode perguntar ao Atlético paranaense ou aos jogadores, se eu recebi algum valor. De forma alguma.

Você era espião do Atlético no Fortaleza?

Eu não tenho mais nenhum vínculo com Atlético Paranaense. Eu criei um ciclo muito bom de amizades no Atlético, mas eu fui dispensado e recebi um convite para trabalhar aqui no Uniclinic.

Por que você saiu do Uniclinic?

Foi o convite feito pelo presidente Marcelo Desidério. E eu sou sincero hoje em admitir, que se eu soubesse que minha estadia no Fortaleza seria muito curta, eu não teria saído do Uniclinic, onde eu tinha um projeto de longo prazo. E me foi prometido isso também no Fortaleza, de um projeto em desenvolvimento de cinco, seis, dez anos, até com o Centro de Treinamento funcionando, vários convênios, várias parcerias, mas isso não aconteceu.

Você se arrependeu de ter ido para o Fortaleza?

É claro que depois de tudo que aconteceu, você pode dizer que se arrependeu. Mas para mim foi uma grande experiência esses seis meses de trabalho. Eu sempre tive vontade de trabalhar no futebol nordestino e vim com grande satisfação tanto para o Uniclinic como para o Fortaleza. Eu fico frustrado, não vou dizer arrependido, fico frustrado por não ter desenvolvido meu projeto, nem no Uniclinic e nem no Fortaleza. Gostaria muito de realizar o trabalho que o Atlético Paranaense, o Figueirense, o Cruzeiro e o Atlético Mineiro estão desenvolvendo. Projetos de dez anos lá na frente, porque quem não se organizar hoje corre o risco de estar fadado a terceira, quarta divisão.

Você acha que o Fortaleza vai lutar para não cair ou para subir nesta Série B?

Se o Dr. Lúcio Bonfim conseguir unir, agregar todos os setores do Fortaleza, acho que o time tem condições de ficar num setor intermediário. Quanto a classificação, vai depender de vários outros fatores: arbitragem, lesões, adversários, momento e assim por diante. Agora, pelo elenco que o Fortaleza tem, não é para estar vivendo essa situação.

E por que chegou nessa situação?

Talvez pela saída do treinador e a chegada de um treinador, que não conhecia toda a estrutura e os atletas que tinha para trabalhar. Mas os jogadores imaginam, sentem, ouvem. Eles criam as suas hipótese e sentem uma certa instabilidade, quando o clube não vem bem. Porém, agora é a hora de os jogadores mais experientes colocarem a bola no chão, chamarem a responsabilidade para si e conversarem com os mais novos. A aposta no Jorge Veras foi uma boa, porque ele conhece o grupo e isso é muito importante neste momento.

E sobre as contratações que foram feitas no Fortaleza?

Elas têm de ser muito discutidas, porque você tem de ver se elas se encaixam no grupo que está ali naquele momento. Não adianta você trazer de um outro clube um jogador muito bom se ele não atende às características do grupo. E essa era uma das minhas brigas lá. Discussões em cima de contratações, que aconteciam da noite para o dia. E isso tem de ser mais discutida. Daí, talvez tenha sido principal o argumento do Heriberto, que queria algumas contratações, que eu discordava.

Quais eram essas contratações: o Mazinho Lima, o Arlindo Maracanã...?

O Luiz Carlos ele também pediu. E nós entendíamos que nos tínhamos o material humano de igual ou até melhor do que ele pretendia trazer e não haveria espaço, nós íamos inchar o elenco, que já estava inchado e não era o momento de trazer aquela gama de jogadores. No entanto, ele entendeu de outra forma. Eu entendo que o treinador pode sugerir, mas ele não pode impor. Quem contrata é o presidente, é o diretor de futebol, e a coordenação de futebol. O treinador é um auxiliar do clube e tem de ser assim.

No fim do ano teremos eleições no Fortaleza, se o próximo presidente lhe fizer um convite para que você volte ao clube, para tocar seu projeto você aceitaria retornar?

Eu não briguei com ninguém no Fortaleza, durante o período em estive trabalhando por lá. Tenho alguns desafetos, têm pessoas que não gostam do Edson Palomares. Mas eu tenho um ditado de que para cada amigo real que você faz no futebol, você cria nove inimigos. O meio do futebol é cheio de vaidade, de inveja, de ego. Até quando eu dava entrevistas, pessoas ficavam se achando que estavam delegadas a um segundo plano. Então, isso é muito complicado, mas minha cara é limpa. Eu quando saí do Fortaleza, deixei tudo documentado, relatado com os altos escalões do clube, então não tenho o porque de não trabalhar. Quem eu tiver de olhar, eu vou olhar de frente, sempre. Dessa forma, eu não sei o que vai acontecer no futuro.

FIQUE POR DENTRO
Três clubes, quatro idiomas e quase 50 artigos e livros

Edson Palomares, tem 41 anos é casado e pai de dois filhos. É formado em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná e Mestre em treinamento desportivo na Universidade Estatal da Cultura Física da Rússia. Fala fluente Russo, Inglês e Espanhol, e possui quase 50 publicações, entre livros e artigos, na área de treinamentos e organização direcionadas para o futebol.

Por seis anos trabalhou no futebol da Rússia como treinador do Saturno e auxiliar no Spartak. No Brasil, foi coordenador de futebol por dois anos no Atlético Paranaense, Uniclinic (quatro meses) e Fortaleza (seis meses), além de treinador de futebol do Tamandaré Esporte Clube, Adapar e Universidade Católica do Paraná. Atualmente, vive na capital cearense, onde é professor universitário nas Faculdades FIC e FGF, e está escrevendo um livro sobre administração no futebol.

MÁRIO KEMPES
Repórter

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