inclusão social

Da rua para Rússia

Crianças em situação de vulnerabilidade social participam de torneio internacional no país-sede da Copa

A exemplo do que aconteceu na manhã da última sexta-feira na sede do Ceará, em Porangabuçu, os garotos acompanharam o treino do Fortaleza, no período da tarde, no estádio Alcides Santos, no Pici ( FOTO: THIAGO GADELHA )
00:00 · 08.05.2018 / atualizado às 08:52

A realização de um sonho para os pequenos amantes do futebol. É desta forma que cerca de 12 garotos, de 12 a 14 anos, participarão da Copa do Mundo de Crianças em Situação de Rua, entre os dias 8 a 18 de maio na Rússia. Eles fazem parte da Unidade de Acolhimento O Pequeno Nazareno, de Fortaleza. Será a segunda participação na competição. Em 2014, no Brasil, conquistaram o 6º lugar.

Na última sexta-feira, os garotos visitaram as instalações de Ceará e Fortaleza. Os meninos tietaram os ídolos, tiraram dezenas de fotos e bateram bola. "Eu vi o Ricardinho e o Richardson, meus ídolos. Era meu sonho se realizando. Os meninos sonham em conhecer Messi e o Cristiano Ronaldo, mas eu não. Queria apenas conversar com os jogadores do Ceará", falou Jean (nome fictício), de 14 anos.

Jean é apenas um dos muitos exemplos dessas crianças em situação de rua. Ficava no entorno do terminal da Lagoa. Chegou à rua aos 12, com a família. Um dos irmãos tinha sido assassinado, aos 16, por dívida de drogas. Perderam a casa e o irmão mais velho está na prisão, pela sexta vez, por roubo. As irmãs, ele não sabe onde estão. A mãe foi para um abrigo. O pai permaneceu. "Nunca imaginei que estaria viajando para a Rússia. Anos atrás, eu não tinha onde morar e o que comer. Dormia embaixo das escadas do terminal e comia o que sobrava dos sanduíches", comentou o jovem.

Já Felipe (nome fictício), de 14 anos, chegou com apenas cinco, após convite de uma amiga para pedir esmola. Conheceu o cigarro, a maconha e o crack. Ele e sua família perderam a casa devido a uma dívida do pai, usuário de drogas, com o traficante. Como não conseguiu o dinheiro, sua moradia foi queimada. Ele ficou no Centro, uma área com 36,8% de pessoas sem ocupação, a maior de Fortaleza. Foi com mãe, pai e os irmãos, mas separaram-se porque sofriam violência física da figura paterna. O reencontro aconteceu um ano depois. Conheceu o abrigo, resistiu. Soube que o pai estava morto. "Foi o pior momento da minha vida. Eu e meus irmãos só queríamos carinho", desabafou.

Números

De acordo com o último Censo sobre População em Situação de Rua, de 2014, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1.718 pessoas viviam em calçadas, e praças de Fortaleza. Desse total, 1.435 eram do gênero masculino, 251 feminino e 32 de gêneros não identificados. O estudo aponta que 36 crianças residiam com algum adulto, 11 sozinhas e 88 eram adolescentes.

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