Itália

Veto de presidente a governo populista surpreende mundo

Roma barra a indicação de ministro eurocético e frustra planos dos dois partidos que defendem saída da União Europeia

Após descartar a indicação dos partidos antieuro Liga e M5S, o líder italiano Sergio Mattarella (e) nomeou como premiê Carlo Cottarelli (d), defensor da UE ( FOTO: AFP )
00:00 · 29.05.2018 / atualizado às 00:21

Roma. O presidente italiano Sergio Mattarella escolheu barrar o caminho do primeiro governo populista em um país fundador da União Europeia com um veto que surpreendeu o resto do mundo, mas pouco os italianos.

O fracasso dos partidos eurocéticos (nacionalistas contrários à integração europeia) de formar um governo na Itália, depois de o presidente vetar a nomeação de um ministro da Economia, empurra o país para uma crise política, cujo única saída parece ser antecipar as eleições.

Este veto contra a escolha de um ministro, escolhido por uma maioria parlamentar eleita em eleições legislativas de março que ninguém questionou o caráter democrático, desconcertou a Europa. Nos regimes parlamentares, o chefe de Estado, seja monarca no Reino Unido ou presidente na Alemanha, geralmente tem poucos poderes. O presidente italiano não é exceção, mas em um país que teve 64 governos desde 1946, seu papel como árbitro sempre foi essencial.

Se Mattarella, guardião da Constituição, "cedesse às ameaças, o equilíbrio entre os poderes do Estado teria sido brutalmente quebrado", escreveu o diretor do jornal "La Repubblica", próximo à esquerda. Esse papel delicado, crise após crise, fortaleceu sua imagem e seu status de fiador da estabilidade do país, às vezes com algumas críticas. "O rei Sergio bagunçou tudo", insurgiu-se o jornal "Il Fatto", próximo ao Movimento 5 Estrelas (M5S, antissistema, populista).

Defesa do euro

A preocupação em proteger a estabilidade financeira e econômica do país serviu de base para a ação do presidente. Mattarella evocou essa ameaça, assim como o sinal negativo enviado aos mercados se o economista eurocético Paolo Savona tivesse sido nomeado ministro das Finanças. E para justificar essa decisão, explicou que seu dever era proteger os interesses dos poupadores italianos. "Não faz sentido votar porque o presidente pode usar um direito que ele considera superior à escolha nas urnas dos italianos", reclamou Luigi Di Maio, líder do M5S.

Novo premiê

Nomeado chefe de Governo da Itália ontem, o economista Carlo Cottarelli (ex-FMI e defensor da União Europeia) anunciou que dirigirá um governo "neutro" que garanta a organização de novas eleições "no mais tardar no início de 2019". "Vou apresentar-me ao Parlamento com um programa que, se receber o voto de confiança, prevê apenas a aprovação da lei de orçamentos, depois do que será dissolvido para a celebração de eleições no mais tardar no início de 2019".

Cottarelli acrescentou que se não conquistar o voto de confiança do Parlamento, convocará novas eleições para depois de agosto. É muito improvável que ele obtenha a confiança do Parlamento, dominado pelo M5S e pela Liga (ultradireita), que são contra tudo o que ele representa.

Ao comentar a escolha de Cottarelli, que encarna a austeridade orçamentária, a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, denunciou, ontem, "um golpe de Estado" da União Europeia na Itália. "A União Europeia e os mercados financeiros voltam a confiscar a democracia", disse.

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