Crise hiperinflacionária

Venezuela corta 5 zeros de moeda

Caracas lançou plano para combater a crise econômica, visto com desconfiança pelos EUA; oposição convoca greve

00:00 · 21.08.2018
Image-0-Artigo-2442529-1
Pressionado pela insatisfação popular, presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou alta do salário mínimo de quase 3.500% a partir de setembro ( FOTO: AFP )

Caracas. As novas cédulas de bolívar sem cinco zeros entraram em vigor, ontem, na Venezuela, a primeira medida de um questionado plano de reforma econômica do presidente Nicolás Maduro ante uma crise devastadora que levou milhões de venezuelanos a abandonar o país.

Leia mais:

> Vendas para a Venezuela devem cair 
> Migração vira caso judicial no Brasil
 
Tomados pela incerteza, muitos comerciantes fecharam suas lojas no fim de semana em Caracas e em outras cidades, depois de meses de uma economia atingida por uma hiperinflação projetada de 1.000.000% para 2018 pelo FMI, e longas filas nos postos de gasolina ante um anunciado aumento dos preços.

Ontem, aos poucos, o comércio foi abrindo as portas, e os caixas eletrônicos começaram a entregar as novas notas.

"Todos estamos na mesma. Esperando para ver o que vai acontecer", declarou María Sánchez, comerciante de 39 anos, depois de fazer um saque.

Maduro, confrontado com uma enorme insatisfação popular, garante que a emissão de novas cédulas será o ponto de partida para "uma grande mudança". A maior nota será de 500 bolívares (cerca de US$ 7 no mercado negro). No entanto, os especialistas consideram inviável um programa que inclui um aumento do salário mínimo de quase 3.500% a partir de 1º de setembro, um novo sistema cambiário que resultará numa maxidesvalorização e altas do combustível e impostos. Maduro anunciou que o governo assumirá por 90 dias o aumento salarial que deverão realizar as pequenas e médias empresas.

"É uma coisa de louco", declarou Henkel García, diretor da consultora Econométrica, ao considerar que o reajuste dos salários implicará um novo aumento da massa monetária, raiz da hiperinflação. Com uma indústria do petróleo em queda vertiginosa e sem financiamento internacional, o acesso a dinheiro fresco é inviável. A produção de petróleo -fonte de 96% das receitas- desabou de 3,2 milhões de barris diários em 2008 a 1,4 milhão em julho passado, enquanto que o déficit fiscal se aproxima dos 20% do PIB.

A reconversão de ontem é a segunda em uma década, depois que o falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013) eliminou, em 2008, três zeros da moeda e criou o "bolívar forte", que agora se chama "bolívar soberano".

Êxodo

A aplicação do programa de Maduro coincide com graves tensões migratórias e o êxodo em massa de venezuelanos. A ONU avalia que 2,3 milhões de venezuelanos imigraram para fugir da crise. O Brasil enviará tropas a sua fronteira depois que, em reação ao assalto de cidadãos venezuelanos, os moradores da cidade Pacaraima, na fronteira, queimaram no sábado (18) os acampamentos de imigrantes venezuelanos, que chegaram em massa no último ano a Roraima.

As novas medidas "apenas vão piorar a vida de todos os venezuelanos", tuitou, ontem, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, que pediu ao governo chavista, ao qual chama de "tirano", que permita uma ajuda internacional. Já o Equador começou no sábado a bloquear a passagem de venezuelanos em suas fronteiras, exigindo passaporte invés de carteiras de identidade.

Em protesto pelo plano econômico de Maduro, três dos principais partidos de oposição convocaram uma greve para hoje.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.