Defesa reforçada

'Super Tucano' vai lutar contra facção na Nigéria

Um dia após fechar com EUA a compra de aviões militares para combater grupos extremistas, país africano sofre atentados

Aeronave militar A-29 Super Tucano, fabricado pela Embraer em associação com a SNC, será usada na luta contra o terrorismo no nordeste da Nigéria ( FOTO: FAB )
00:00 · 02.05.2018
Após repúdio provocado em janeiro por supostamente chamar nações africanas e latinas de 'países de merda', Trump recebe líder nigeriano na Casa Branca ( FOTO: AFP )

Washington/Kano. A Nigéria já contabiliza mais de 20 mil mortos devido ao terrorismo espalhado pelas facções ligadas ao grupo extremista Boko Haram, que atua no nordeste do país africano, nos últimos nove anos. Ontem, um duplo atentado ampliou essa conta macabra e deixou mais de 60 cadáveres na cidade de Mubi. Um homem-bomba se detonou em uma mesquita. Logo depois, um segundo terrorista atacou um mercado próximo, no momento em que os fiéis fugiam da mesquita.

Os ataques de ontem acontecem um dia após a visita do presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, à Casa Branca, onde fechou na presença do presidente americano, Donald Trump, um contrato de compra de 12 aviões militares, a fim de reforçar as ações militares de combate às facções que desestabilizam a Nigéria. Buhari pretende comprar, por US$ 496 milhões, 12 aviões A-29 Super Tucano da empresa brasileira Embraer fabricados em associação com a americana Sierra Nevada Corporation.

Buhari, que pretende disputar um segundo mandato na eleição presidencial de fevereiro de 2019, fez da luta contra os extremistas uma prioridade, mas os ataques regulares e o sequestro de uma centena de estudantes pelas facções do Boko Haram em fevereiro evidenciou as graves falhas de segurança do país.

O grupo extremista está agora dividido em duas facções principais: uma, liderada por Abubakar Shekau e ativa na fronteira com Camarões, e a outra, a ISWAP (Estado Islâmico na África Ocidental), que atua principalmente ao redor do Lago Chade e na fronteira com o Níger.

O presidente americano elogiou Buhari e destacou a importância do encontro, "especialmente em relação ao terrorismo". A "Nigéria foi um dos primeiros países africanos a se unir à coalizão internacional para vencer o grupo Estado Islâmico (EI) e as forças nigerianas lideram os esforços regionais contra o EI", destacou Trump, referindo-se ao Boko Haram, "outro grupo jihadista impiedoso".

Sob a gestão de Trump, os EUA já venderam US$ 496 milhões em armas para a Nigéria. O contrato por aviões Super Tucano havia sido bloqueado pela administração de Barack Obama depois que o Exército nigeriano acidentalmente bombardeou um campo de refugiados, durante uma missão contra o Boko Haram. Nesse episódio, 112 civis morreram em Rann, no nordeste do país.

Divisão religiosa

No encontro de sexta-feira com Buhari, Trump abordou ainda a questão do "assassinato" de cristãos na Nigéria: "Trabalhamos neste problema porque não podemos aceitar esta situação", disse em referência ao ataque perpetrado contra uma igreja em 24 de abril, que matou 18 pessoas.

"Somos muito gratos aos EUA por seu forte apoio em nossa luta contra o terrorismo", disse Buhari, que foi o primeiro presidente da África Subsaariana a ser recebido em uma visita oficial em Washington desde a chegada de Trump ao poder.

"Também apreciamos muito seu aval para a venda de 12 aviões militares Super Tucano A-29 para a Nigéria lutar de forma eficaz", acrescentou.

Na semana passada, combatentes fortemente armados lançaram um ataque contra a capital do estado de Borno, Maiduguri. A cidade de Mubi, onde ontem houve o atentado duplo, também é regularmente visada por ataques do Boko Haram.

No final de novembro, ao menos 50 pessoas foram mortas em um ataque similar.

O centro da Nigéria é um campo de conflito intercomunitário, onde o norte, predominantemente muçulmano, encontra o sul, de maioria cristã.

O conflito que atinge o Lago do Chade deixou mais de 20 mil mortos e 2,6 milhões de deslocados na Nigéria desde 2009.

O duplo atentado de ontem na cidade de Mubi voltou a mostrar para a comunidade internacional o rastro de violência que se instalou nas comunidades do nordeste da Nigéria por conta das facções do Boko Haram.

"É o caos aqui", relatou o socorrista voluntário Habu Saleh, acrescentando que "levamos dezenas de mortos e feridos para o hospital e a operação de resgate ainda está em andamento". Sani Kakale, outro voluntário, evocou 42 mortos e 68 feridos. "Enquanto eu estava lá, 42 corpos foram contados", contou. "Eu os vi com meus olhos", garantiu.

Uma fonte do hospital de Mubi informou que 37 corpos já haviam sido transportados para o necrotério. "Por enquanto, contabilizamos 37 corpos e dezenas de feridos de ambos os locais de explosão", disse a fonte.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.