Por Votação Parlamentar

Rajoy é destituído do governo da Espanha; Pedro Sánchez será o novo primeiro-ministro do país

Os deputados aprovaram por maioria absoluta de 180 votos a moção de censura contra o premiê Mariano Rajoy, por seu governo está envolvido em um escândalo de corrupção semelhante ao investigado pela Lava Jato no Brasil

O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, deixa o cargo depois de uma moção de desconfiança na Câmara dos Deputados da Espanha ( Foto: Oscar Del Pozo / AFP )
14:56 · 01.06.2018 por Folhapress

 O governo espanhol foi destituído por votação parlamentar nesta sexta-feira (1°) devido a um vultoso escândalo de corrupção semelhante àquele investigado no Brasil pela Operação Lava Jato.

Deputados aprovaram pela maioria absoluta de 180 votos, em uma Câmara de 350 cadeiras, a moção de censura contra o premiê Mariano Rajoy, do conservador PP (Partido Popular). Diversas figuras de sua sigla, incluindo o ex-tesoureiro, estavam ligadas a um esquema de venda de contratos públicos.

A moção fora apresentada na véspera pelo líder opositor Pedro Sánchez, do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), que passa a ser o premiê em exercício até a sua confirmação pelo rei Felipe prevista para a segunda-feira (4). É o sétimo governante desde a redemocratização do país nos anos 1970.

Após a votação da destituição, Rajoy agradeceu por meio do Twitter  a todos os espanhóis pela confiança e disse que fez tudo que era possível. "Estou orgulhoso de ter sido vosso presidente. Fiz todo o possível y tudo que era necessário para deixar as coisas melhores do que encontrei. E juntos conseguimos. As decisões nem sempre foram fáceis, mas todas serviram para defender a Espanha. Obrigado a todos os espanhóis", ressaltou.

Votaram pela remoção de Rajoy, além do PSOE, o esquerdista Podemos, os catalães da Esquerda Unida e o Partido Nacionalista Basco, entre outras pequenas formações. A favor do ex-premiê, votaram a sua própria sigla e o aliado Cidadãos, de centro-direita.

Foi a primeira moção de censura com êxito na história moderna espanhola. Na sua sequência, Sánchez discursou: "A democracia na Espanha abre uma nova página. Uma etapa para recuperar a dignidade das instituições".

O governo de Rajoy, inaugurado em 2011, foi o responsável pelas controversas medidas de austeridade implementadas em meio à crise financeira global de 2008.

Durante sua gestão, o país superou o dilúvio e passou a liderar o crescimento do bloco europeu –apesar de ainda ter um desemprego de 35% entre a população com menos 25 anos.

"Foi uma honra ser premiê e deixar uma Espanha melhor do que aquela que encontrei", Rajoy escreveu em uma rede social antes mesmo da votação da moção.

Também nos quase oito anos de seu mando a Espanha enfrentou o maior desafio político desde a redemocratização dos anos 1970, com as reivindicações separatistas da Catalunha, uma região com autonomia parcial.

Ao deixar o palácio de Moncloa, Rajoy levará consigo a fama de ter sido incapaz de resolver essa questão.

Não por acaso os votos decisivos, somados aos do PSOE e aos do esquerdista Podemos, vieram dos pequenos partidos nacionalistas catalães e bascos, que enxergaram ali uma oportunidade de puni-lo.

Rajoy também sai com a imagem negativa de ter liderado um governo soterrado por acusações de corrupção.

"Bem feito", escreveu o ex-presidente catalão Carles Puigdemont, acusado por Madri de rebelião e foragido na Alemanha.

"Os que até há algumas horas ainda eram os senhores do Estado agora terão de prestar contas".

A intervenção direta do governo central espanhol na Catalunha, aprovada por Rajoy, deve ser encerrada no sábado (2). Era um prazo já previsto, sem influência do fim do mandato.

A moção de censura foi apresentada pela oposição depois que, na semana anterior, a Justiça tivesse condenado 29 pessoas à prisão -incluindo seu ex-tesoureiro, Luis Bárcenas, acusado de cobrar comissões em contratos públicos.

As penas na Operação Gurtel, ligada diretamente ao PP, somam 351 anos. Para o tribunal, o partido se beneficiou de um esquema de venda de concessões -algo que a sigla e o ex-premiê Rajoy negam.

O inesperado governo do socialista Sánchez, derrotado nas urnas quando concorreu ao posto, deve ser turbulento e breve. O partido só conta com 84 cadeiras no Congresso, entre 350, enquanto o PP -agora a principal oposição- tem 134.

Mal inaugurada, essa gestão do PSOE já é descrita como "Frankenstein" pelos seus detratores.

É bastante provável que a Espanha volte às urnas nos próximos meses, somando mais uma crise política a uma Europa já preocupada com o governo populista prestes a comandar a Itália.

Ao contrário da Itália, no entanto, a Espanha não enfrenta por ora movimentos populistas de direita ou contrários à União Europeia, uma razão pela qual preocupa bastante menos o restante do continente.

Mas quando por fim vierem as eleições, os tradicionais PP e PSOE devem ser punidos pelos eleitores, insatisfeitos com a velha política.

A julgar pelas pesquisas recentes, o governo deve ser entregue à novata sigla de centro-direita Cidadãos, em um movimento semelhante ao que elegeu o presidente francês, Emmanuel Macron.

Após a queda de Rajoy, aliados europeus enviaram demonstrações de apoio ao governo socialista. Foi o caso da chanceler alemã, Angela Merkel, que disse esperar uma parceria "estreita" entre ambos os países.

Já o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, afirmou ter "total confiança" na Espanha.

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