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Peru flexibiliza regras migratórias para venezuelanos, que chegam em menor número

Com as novas regras para conter a entrada dos imigrantes venezuelanos no Peru, só terão acesso sem passaporte mulheres grávidas, idosos e crianças que forem encontrar seus pais

16:33 · 26.08.2018 / atualizado às 16:36 por AFP
VENEZUELANOS
Nos dias anteriores, entravam em média 3.500 venezuelanos diariamente, com a medida o número baixou para 1.600. Foto: AFP/Luis Robayo

O Peru flexibilizou as novas regras destinadas a impedir a entrada de imigrantes venezuelanos, e permitirá a entrada sem passaporte de mulheres grávidas, idosos e crianças que forem encontrar seus pais.O fluxo de migrantes venezuelanos neste domingo (26) na fronteira peruana caiu consideravelmente e o complexo fronteiriço de Tumbes parecia vazio ao meio-dia local (14h de Brasília), ao contrário da última semana.

Só muito ocasionalmente chegava do Equador um ônibus com venezuelanos, que eram atendidos sem demora pelos funcionários de Migrações, mas uma funcionária da ONU no local advertiu que isto poderia ser atribuído a que alguns migrantes podem estar procurando rotas ilegais para entrar no Peru.

A flexibilização das normas foi anunciada 24 horas depois da entrada em vigor de uma exigência para que os milhares de venezuelanos que chegam na passagem fronteiriça de Tumbes, provenientes do vizinho Equador, após cruzar a Colômbia, apresentem passaporte.

"Por razões humanitárias, será admitido a entrada mediante apresentação de um documento de identidade dos cidadãos venezuelanos nos casos específicos de mulheres grávidas, menores que vierem para se reunir com seus pais e adultos com idade superior a 70 anos", declarou o governo em um comunicado.

"No caso dos menores de idade em trânsito para o Peru para se encontrar com seus pais, eles entrarão com a certidão de nascimento. Se for o caso, o acompanhante adulto deverá ter um passaporte", explicou o ministro do Interior peruano, Mauro Medina Guimarães, citado no comunicado.

Esta é a segunda medida de flexibilização adotada por Lima depois da entrada em vigor da obrigatoriedade de apresentar um passaporte, uma vez que as autoridades seguiram autorizando as entradas de venezuelanos com carteira de identidade acompanhada de um pedido de refúgio no Peru.

"Eles me deixaram entrar como refugiada", indicou à AFP Leydi Cisneros, de 26 anos, após passar em Tumbes.

"Fomos capazes de processar o pedido de refúgio para entrar no país e solicitar carteira de trabalho", disse aliviada Mariana Medina, de 19 anos.Medina e outros imigrantes disseram que demoraram a chegar à fronteira peruana devido aos obstáculos das autoridades no Equador.

"Graças a eles (as autoridades equatorianas) a situação se complicou e chegamos tarde" à fronteira do Peru, indicou Medina à AFP.

A solicitação de refugiado permite que os venezuelanos permaneçam legalmente no Peru e encontrem emprego, enquanto buscam uma solução definitiva para sua situação.

O primeiro-ministro peruano, César Villanueva, advertiu que a entrada de venezuelanos sobrecarregou o país:"Tem sido uma migração de um nível que não pensávamos, não estávamos preparados para esta magnitude de migrantes", disse em entrevista publicada em um jornal local.

Já no sábado (25), o primeiro dia das novas regulamentações, a cifra de venezuelanos caiu para 1.630, dos quais 286 crianças, segundo informou em Lima um encarregado de Migrações, Eduardo Sevilla.Nos dias anteriores entraram por dia 3.500 venezuelanos, as últimas cifras fornecidas no domingo pelo governo.

"Hoje (26) estamos vendo que as coisas estão se tranquilizando um pouco" na fronteira peruana, disse à AFP Regina de la Portilla, porta-voz da Agência da ONU para os Refugiados (Acnur).No entanto, ela esclareceu que isto não significa necessariamente que menos venezuelanos estejam viajando, mas que pode ocorrer que alguns estão usando "rotas não formais para não ser detidos em postos fronteiriços".

Isto implica "um maior risco de cair nas mãos de traficantes (de migrantes), de tráfico de seres humanos, inclusive em alguns lugares em grupos irregulares armados", disse Portilla à AFP.

Diante da crise humanitária sem precedentes, as autoridades do Equador e do Peru adotaram medidas de emergência para enfrentar a avalanche de imigrantes, que agora diminuiu consideravelmente.

Em ambos os lados da fronteira, oficiais e organizações humanitárias distribuíam comida para os venezuelanos, muitos deles com crianças pequenas, e instalaram tendas com colchões para que pudessem descansar da longa e difícil jornada, que em alguns casos durou um mês.

Alguns percorreram os 2.250 km que separam a Venezuela da fronteira peruana a pé, carregando crianças pequenas e arrastando malas, ou viajaram em veículos particulares e ônibus.

O Equador também impôs a exigência de passaporte aos venezuelanos, mas a medida foi suspensa pela Justiça.

Pela Rodovia Panamericana, ao sul da passagem de Tumbes, grupos de imigrantes venezuelanos caminhavam neste fim de semana em direção a Lima, a uma distância de 1.292 quilômetros da fronteira.

Enquanto isso, o número dois do governo chavista, Diosdado Cabello, atribuiu no sábado o êxodo de compatriotas a uma "campanha da direita" contra as medidas econômicas lançadas pelo presidente Nicolás Maduro.

Estas medidas incluem uma reconversão monetária com a retirada de cinco zeros do bolívar, pulverizado por uma hiperinflação que o FMI projeta em 1.000.000% este ano.

O ministro da Comunicação, Jorge Rodriguez, assegurou na sexta-feira que os milhões de venezuelanos que partiram "vão voltar" ao país, contando com o êxito das medidas econômicas do governo.

Mais de 2,3 milhões de venezuelanos vivem no exterior (7,5% da população). Destes, mais de 1,6 milhões deixaram o país a partir de 2015 em meio ao agravamento da crise econômica e política da outrora próspera nação petroleira.

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