65,1% dos votos

Centrista Emmanuel Macron vence eleições na França

Macron disputava as eleições, com impacto no restante da União Europeia, contra a ultranacionalista Marine Le Pen, da Frente Nacional, que recebeu 34,9%

15:38 · 07.05.2017 por FOLHAPRESS
Macron
Macron será o presidente mais jovem desde a eleição em 1848 de Luís Napoleão, sobrinho de Napoleão, aos 40. ( Foto: AFP )

O centrista Emmanuel Macron, 39, foi eleito presidente da França neste domingo (7) com 65,1% dos votos, segundo as primeiras estimativas, que ainda serão confirmadas durante as próximas horas.

Representando o movimento independente Em Frente!, ele governará pelos próximos cinco anos a sétima maior economia do mundo e um dos cinco países com direito o veto no Conselho de Segurança da ONU.

Macron disputava as eleições, com impacto no restante da União Europeia, contra a ultranacionalista Marine Le Pen, da Frente Nacional, que recebeu 34,9%.

O impacto imediato será o reforço do projeto de integração europeu, do qual ele é um entusiasta. Le Pen defendia erguer barreiras protecionistas, retirar a França do bloco econômico e possivelmente retomar o franco como moeda, em vez do euro.

A eleição de Macron, comemorada por militantes diante do Museu do Louvre, marca ademais transformações históricas no país.

Esta foi a primeira vez em que os dois principais partidos franceses -socialistas e republicanos- não concorreram no segundo turno. É também a primeira vitória de um candidato sem a estrutura de uma sigla tradicional.

Ele será o presidente mais jovem desde a eleição em 1848 de Luís Napoleão, sobrinho de Napoleão, aos 40.

O movimento Em Frente!, de Macron, foi fundado há um ano nos moldes de uma start-up, assentado em uma rede de 260 mil militantes, parte deles inexperientes.

A uma população desencantada com a atual divisão entre direita e esquerda, buscou se vender como alguém além dessa divisão. Acena ora com o afrouxamento das leis trabalhistas, que deverá ter dura oposição dos influentes sindicatos, ora com medidas de proteção social, tema caro aos franceses.

Biografia

Macron personifica uma versão bastante específica da renovação política. Ele é até certo ponto um candidato contrário ao establishment, mas simultaneamente representa esse mesmo sistema.

Ex-filiado ao Partido Socialista, o novo presidente foi, afinal, ministro da Economia do impopular governo de François Hollande, tendo abandonado o barco só em agosto do ano passado.

O presidente eleito dificilmente poderá se apresentar como mais um entre a população. Ele outrora trabalhou para o banco Rothschild, em que recebeu 2,8 milhões de euros (equivalente a R$ 10 milhões) de 2008 a 2012.

Macron foi formado, também, em uma instituição que é símbolo da elite: a ENA (Escola Nacional de Administração), por onde passaram os presidentes Jacques Chirac e François Hollande e os principais nomes da administração da França, quer seja à esquerda ou à direita.

Ele será acompanhado nos próximos cinco anos no Palácio do Eliseu por sua mulher, Brigitte Trogneux. O casamento é alvo de interesse já há algum tempo. Brigitte é 24 anos mais velha do que ele, e ambos se conheceram quando ela era professora em sua escola.

Fissuras

A eleições deste ano evidenciaram diversas fissuras na sociedade francesa, ampliadas pela lupa com que foram vistas pelo mundo.

A candidatura de Marine Le Pen, representando um partido populista com histórico de retórica antissemita, assustava a liderança europeia após a eleição do republicano Donald Trump nos EUA e a decisão do Reino Unido de deixar a UE, conhecida como "brexit".

A divisão dos eleitores entre ambos os candidatos é sinal de uma série de temas sobre os quais discordam.

Macron e Le Pen têm, por exemplo, visão distintas da União Europeia: ele a favor e ela contra. Eles também enxergam a imigração de maneiras diferentes: ele quer uma sociedade mais multicultural, enquanto ela quer interromper o fluxo e expulsar migrantes condenados e suspeitos de radicalização.

Há também distinções mais estruturais, como a tendência, comprovada por pesquisas, de que o eleitorado de Macron tenha uma expectativa mais otimista em relação ao futuro, em comparação com o de Le Pen.

A base de Macron é descrita por analistas como a dos "vencedores da globalização", aqueles que se beneficiaram da integração à economia mundial. Le Pen representa, por outro lado, as periferias e pequenas cidades onde o fechamento de fábricas destruiu empregos. O desemprego na França está hoje em cerca de 10%.

Futuro

Recém-eleito, Macron ainda não pode relaxar na cadeira de presidente. Ele enfrenta já em junho as eleições legislativas que darão o tom geral de seu governo. Sem a maioria dos legisladores, será complicado aprovar as reformas que propõe.

Será determinante, agora, quanto apoio virá dos tradicionais Partido Socialista e Republicanos, que ele derrotou já no primeiro turno.

As duas siglas se uniram em torno da candidatura dele contra Le Pen neste domingo, apoiando publicamente o candidato, mas não especificamente por concordar com sua plataforma.

A adesão à campanha de Macron foi vista como maneira de impedir Le Pen de chegar até a Presidência. Não é a primeira vez em que o establishment francês lança mão dessa estratégia.

Em 2002, quando o pai de Le Pen concorreu ao cargo, formou-se também a chamada "frente republicana" para freá-lo. Assim, o conservador Jacques Chirac venceu com 82% dos votos contra Jean-Marie Le Pen, pai de Marine.

O resultado superior da candidata da FN neste ano mostra que, apesar da derrota, o partido ultradireitista avança em sua estratégia de se "normalizar" aos olhos do eleitorado francês, afastando membros mais radicais.

Seu potencial de se tornar a principal voz crítica à globalização do país e se cacifar para um desempenho melhor no pleito de 2022 aumentará à medida em que o governo Macron não dirimir o desemprego e o lento crescimento de sua economia.

Estudioso da Frente Nacional, o cientista político Stéphane Wahnich, da Universidade Paris-Est Créteil, diz que o crescimento da base de votos dela sinaliza a progressiva vontade do eleitorado de revirar a política.

Ele argumenta que Le Pen ainda esbarra na história de seu partido e em sua falta de credibilidade econômica, mas que há potencial para o surgimento de outro candidato antissistema e populista, pois o conceito está se tornando cada vez mais "respeitável" para a população.

"O problema de Marine Le Pen é se chamar Le Pen."

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