Brasil deve se preparar para chegada de novas doenças, dizem cientistas - Internacional - Diário do Nordeste

Vulnerabilidade

Brasil deve se preparar para chegada de novas doenças, dizem cientistas

Globalização e imigração deixam o país mais exposto a outros possíveis surtos de vírus

11:35 · 13.02.2016
aedes
Pelo menos três vírus que, em teoria, poderiam chegar ao Brasil, são transmitidos por mosquitos ( Foto: Venilton Kuchler/ANPR )

Na opinião de cientistas ouvidos pela BBC Brasil, o surto do zika vírus revela uma mudança de realidade sanitária no País. Por uma série de fatores que causaram sua ascensão no cenário internacional na última década, o Brasil está muito mais exposto à chegada de enfermidades do que no passado. Com informações do portal G1.

O argumento é que o vírus zika é um perfeito exemplo do aumento na vulnerabilidade brasileira para mazelas "desconhecidas".

O Brasil apresentou, segundo especialistas, um cenário mais favorável para seu alastramento e que vai além de uma prelavência forte do mosquito Aedes aegypti em território nacional.

"O Brasil está, sem dúvida, mais vulnerável agora à chegada de doenças por conta de fatores globais e por já enfrentar um problema sério com a população de mosquitos. Um grande problema é a existência do que chamamos de populações inocentes, que não foram expostas ao vírus o suficiente para criar anticorpos, o que ajuda a explicar a velocidade da proliferação do zika", afirma James Logan, entomologista da London School of Hygiene & Tropical Medicine.

Nos últimos anos, o crescimento econômico do País foi acompanhado por um aumento na chegada de turistas e imigrantes. o Brasil ficou mais inserido no mundo globalizado, cujo ápice se deu com a realização da Copa do Mundo e da aceitação pela realização das Olimpíadas, que ocorrerão este ano. Mas, com isso, também entrou no caminho de mais doenças.

Estudos da ONU mostram, por exemplo, que o número de viajantes internacionais saltou de 227 milhões de pessoas em 1980 para mais de 1 bilhão em 2012.

"Qualquer doença tem potencial de chegar a qualquer país no mundo em que vivemos hoje. A ciência precisa desenvolver melhores métodos de vigilância, mas isso fica ainda mais complicado diante de um vírus como o zika, que é majoritariamente assintomático", acrescenta o especialista.

Outros vírus podem chegar ao Brasil

Cientistas citam pelo menos três vírus que, em teoria, poderiam chegar ao Brasil, todos eles transmitidos por mosquitos: o O'nyong'nyong, a febre do Nilo Ocidental e a febre do Vale de Rift (RVF).

Este último, que também tem como vetor mosquitos da família Aedes, parece hoje em dia confinado ao continente africano ─ onde, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), matou mais de 600 pessoas em um surto no Egito, em 1977.

Porém, em 2000, o vírus se manifestou na Arábia Saudita e o no Iêmen, com mais de 1 mil casos e cerca de 160 mortes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Também prevalecente em animais de criação, a RVF causou a morte de pelo menos 40 mil ovelhas e cabras.

Seus sintomas são bem parecidos com os de outras doenças transmitidas pelo Aedes: fraqueza, febre, dores e tonturas, que normalmente desaparecem em até uma semana. Mas uma parcela de até 10% dos casos podem desenvolver sintomas mais graves como lesões oculares, encefalite (inflamação no cérebro) e hemorragias.

"O RVF também pode ser transmitido por mosquitos Culex (o popular pernilongo) e, na teoria, pode chegar a qualquer lugar do mundo. Assim como o zika, que já ocorreu fora da África, apesar disso ter acontecido há mais de 10 anos", explica o geneticista David Weet, da Liverpool School of Tropical Medicine.

Já o'nyong'nyong não faz parte da lista de mazelas que pode ser carregada pelos mosquitos da família Aedes. O vetor deste vírus é a família anophelina, o que inclui o Anopheles gambiae, transmissor da malária. Este mosquito tem prevalência em áreas rurais, o que marcou epidemias já ocorridas da doença, sempre na África ─ sem mortes registradas, segundo o CDC.

©Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.