Repercussão

Ataques de Trump à imprensa são 'perigosos', diz editor do NYT

A fala foi dito por A.G. Sulzberger, que assumiu esse prestigioso jornal em 1° de janeiro, em reunião na Casa Branca no dia 20 de julho

18:52 · 29.07.2018 por Agence France-Presse
Casa Branca
Foto ilustrativa. Donald Trump na Casa Branca no dia 23 de julho. ( Foto: reprodução/Instagram )

O editor do jornal "The New York Times" advertiu o presidente Donald Trump, em uma reunião na Casa Branca, que seus crescentes ataques aos veículos de comunicação são "incendiários", "perigosos" e "nocivos" aos Estados Unidos.

A reunião entre Trump e A.G. Sulzberger, que assumiu esse prestigioso jornal em 1° de janeiro, aconteceu em 20 de julho, após um pedido da Casa Branca.

A sessão, da qual também participou o editor da página editorial do NYT, James Bennet, foi mantida em segredo até Trump torná-la pública em um tuíte neste domingo de manhã.

"Tive uma reunião muito boa e interessante na Casa Branca com A.G. Sulzberger, editor do New York Times", tuitou Trump.

"Passamos muito tempo falando sobre a grande quantidade de notícias falsas publicadas pela imprensa & como as 'Fake News' se tornaram 'Inimigas do Povo'. Triste!", acrescentou.

Em um comunicado divulgado pelo NYT, Sulzberger disse que o tuíte do presidente torna pública a reunião e descreveu o que pareceu ser um encontro incomumente duro e contundente com o presidente.

"Disse diretamente ao presidente que acredito que sua linguagem não apenas é divisiva, mas que é cada vez mais perigosa", relatou Sulzberger no comunicado.

A conversa acontece em um momento de alta tensão entre Trump e os veículos americanos, com o presidente denunciando regularmente notícias críticas como "notícias falsas" ("fake news").

"Disse-lhe que, embora a frase 'fake news' não seja correta e seja prejudicial, me preocupa muito mais que se rotule os jornalistas como 'o inimigo do povo'. Adverti que essa linguagem incendiária está contribuindo para um aumento das ameaças contra os jornalistas e levará à violência", acrescentou o editor do NYT.

Sulzberger afirmou ainda que, com alguns líderes estrangeiros usando a linguagem de Trump para justificar repressões a jornalistas, isso estava "pondo vidas em risco".

"Eu lhe implorei que reconsiderasse seus amplos ataques ao jornalismo, que considero perigosos e nocivos para o nosso país", disse o editor.

Trump já reagiu. Em uma série de tuítes neste domingo à tarde, lançou novos ataques à imprensa. Segundo ele, os jornais é que "põem vidas em risco, não apenas a dos jornalistas... ao revelar as deliberações internas do governo".

"O falido New York Times e o Washington Post da Amazon não fazem mais do que escrever matérias ruins, mesmo em histórias de sucesso muito positivas, nunca mudarão!", tuitou Trump.

'Última oportunidade'

Sulzberger, de 37 anos, é o último de uma longa lista de Sulzbergers a liderar o jornal americano. Quando ele assumiu o Times após vários anos como repórter, ou editor, Trump tuitou que a ascensão do jovem deu ao jornal uma "última oportunidade" de demonstrar imparcialidade e de informar as notícias "sem temor ou FAVOR".

Desde então, porém, tanto o jornal quanto outras fontes de notícias têm ecoado os problemas pessoais e políticos de Trump, e publicado seus frequentes erros.

O presidente respondeu com tuítes contra o NYT, chamando o veículo de "muito desonesto", "falido e corrupto" e assegurando que usa "fontes falsas e inexistentes".

Não está claro se o encontro entre Trump e Sulzberger levará a uma melhor relação entre a Casa Branca e a imprensa. A esse respeito, um ex-editor do NYT recomendou nas redes sociais: "Não tenham grandes expectativas".

Seja como for, as relações de Trump com a imprensa tiveram uma piora recentemente.

Na última quarta-feira, a Casa Branca proibiu Kaitlan Collins, da rede CNN, de participar de uma coletiva de imprensa, alegando que a jornalista fez perguntas consideradas "inapropriadas" em um evento.

Olivier Knox, titular da Associação de Correspondentes da Casa Branca, condenou a decisão como uma resposta "mal orientada e frágil" para lidar com uma jornalista que estava apenas fazendo seu trabalho.

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