Desnuclearização

Kim aceita visitar os EUA após assinar acordo com Trump

Presidente dos EUA suspende exercícios militares na península; especialistas cobram data para fim de arsenal

Documento assinado pelos líderes estadunidense e norte-coreano, em Singapura, recebeu críticas no meio diplomático por trazer promessas sem prazos definidos, e pela suspensão de exercícios bélicos na península ( FOTO: AGÊNCIA FRANCE PRESSE )
00:00 · 13.06.2018 / atualizado às 09:03

Singapura/Washington. Os líderes Donald Trump e Kim Jong Un celebraram uma reunião de cúpula histórica que terminou em um acordo no qual a Coreia do Norte prometeu uma "desnuclearização completa", mas que deixa muitas perguntas sem respostas. A cúpula ajudou a livrar o mundo da "catástrofe nuclear", disse Trump, ontem. "O mundo deu um grande passo atrás de uma catástrofe nuclear em potencial", tuitou. "Não há mais lançamentos de foguetes, testes nucleares ou pesquisas! Os reféns estão de volta em casa com suas famílias. Obrigado ao presidente Kim, nosso dia juntos foi histórico!", escreveu Trump.

 

Sobre a cúpula, a KCNA, agência de notícias estatal norte-coreana, informou que Kim convidou Trump para ir a Pyongyang "em um momento conveniente" e concordou em visitar os EUA.

"Kim Jong Un disse que, a fim de alcançar a paz e a estabilidade da península coreana e realizar a desnuclearização, os dois países devem se comprometer a evitar antagonismos mútuos, dando lugar ao entendimento mútuo", noticiou a KCNA.

Depois de décadas de tensão pelas ambições atômicas da Coreia do Norte, o presidente americano afirmou que o "processo de desnuclearização" poderá começar "muito em breve". A frase da declaração conjunta é bastante vaga a respeito de um calendário e cita negociações posteriores para a aplicação das medidas. Estas negociações começarão a partir da próxima semana e serão lideradas pelo secretário de Estado americano Mike Pompeo, figura chave no diálogo entre EUA e Coreia do Norte.

O documento também não afirma que a desnuclearização será "verificável e irreversível" como exigiam os EUA antes do encontro de cúpula de Singapura, o que poderia ser interpretado como um recuo de Trump.

"A Coreia do Norte não prometeu nada mais do que promete há 25 anos", afirmou Vipin Narang, professor do Massachusetts Institute of Techonolgy.

"A esta altura, não há nenhuma razão para pensar que a cúpula resulte em algo mais concreto em termos de desarmamento".

Analistas e historiadores recordam que o regime de Pyongyang tem um histórico de promessas não cumpridas. Em 1994 e em 2005 foram anunciados acordos que nunca foram aplicados. Trump afirmou que a desnuclearização será submetida a verificações e que as sanções contra a Coreia do Norte permanecerão em vigor enquanto persistir a "ameaça" das armas nucleares. Trump anunciou que Pyongyang destruirá uma instalação de testes de motores de mísseis e fez uma importante concessão, ao informar que encerrará as manobras militares conjuntas com a Coreia do Sul. A Coreia do Norte exigia há muitos anos a suspensão das manobras, chamadas de "provocação" e fonte de tensão recorrente.

Significado

O governo da China, principal aliado da Coreia do Norte, aplaudiu o início de uma "nova história" e fez um novo apelo à "desnuclearização total" de seu vizinho. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, classificou o encontro de marco importante para a desnuclearização. Após o aperto de mão e os sorrisos para a mídia e o mundo, Trump e Kim se reuniram durante quase cinco horas: primeiro sozinhos, durante 40 minutos, e depois em uma reunião de trabalho, seguida de um almoço com pratos ocidentais e asiáticos.

Manobras

Trump pegou o Pentágono de surpresa ao anunciar que colocará fim às manobras conjuntas entre os EUA e a Coreia do Sul, além de defini-las como muito "provocativas e caras".

"Vamos parar as manobras militares, o que nos poupará muito dinheiro, a não ser que as negociações futuras não aconteçam como deveriam", disse o presidente americano na coletiva.

Os comandos militares americanos ficaram visivelmente surpresos com o anúncio.

Cerca de 17.500 militares dos EUA participaram, no ano passado, das manobras conjuntas Ulchi Freedom Guardian, que acontecem anualmente, no fim de agosto e início de setembro.

Essas manobras militares, destinadas a reforçar a preparação para uma eventual invasão norte-coreana, envolvem soldados de todas as armas provenientes, além dos EUA e da Coreia do Sul, de países aliados como Austrália, Canadá, Reino Unido, França ou Nova Zelândia.

Aspirações

Trump expressou novamente a sua vontade de retirar, quando chegar a hora, os soldados dos EUA implantados em solo sul-coreano, mas ressaltou que este ponto não estava nas negociações com Pyongyang.

Para Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores, "a declaração comum de Singapura contém simplesmente aspirações: não há definição de desnuclearização, não há cronograma, nem detalhes sobre a verificação (do arsenal)".

"O mais perturbador é que, em troca, os EUA abandonaram algo tangível, as manobras com a Coreia do Sul", acrescentou ele em sua conta no Twitter.

Bruce Bennett, do centro de pesquisa Rand Corporation, disse que "as reações da Coreia do Sul até agora sugerem que (Seul) não deu seu apoio a tudo isso". Cerca de 30 mil soldados dos EUA estão permanentemente na Coreia do Sul, herança da Guerra da Coreia (1950-53), que foi concluída com um armistício, e não um tratado de paz.

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