Maior da história

Guerras, desastres e miséria agravam crise migratória

Drama atinge 68,5 milhões de pessoas, mais do que a população do Reino Unido, que é inferior a 66 milhões

00:00 · 13.08.2018 por Sérgio Ripardo - Repórter
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Assistência às vítimas tem sido dificultada pela ação de governos hostis aos imigrantes, como ocorre atualmente na Itália e em outros países europeus, especialmente em deslocamentos feitos pelo Mar Mediterrâneo ( Foto: Reuters/Arquivo )

Sem lar, sem pátria e sem perspectiva de futuro. Essa é a realidade de quase 1% da população mundial. São pessoas deslocadas por guerras, violência, miséria, desastres ambientais e perseguições políticas, étnicas, religiosas, forçadas a cruzar fronteiras e se tornarem refugiadas.

Essa fuga em massa, principalmente em regiões castigadas por conflitos armados, como o Oriente Médio, coincide com a proliferação de políticas protecionistas, discursos e práticas de racismo e xenofobia, segundo especialistas. Há ainda maiores dificuldades ao trabalho das ONGs humanitárias, que temem uma "criminalização" de suas ações de assistência às vítimas por governos hostis aos imigrantes, como ocorre atualmente na Itália e nos Estados Unidos.

Pela primeira vez na história moderna, a crise migratória atinge quase 70 milhões de indivíduos no planeta, mais do que a população do Reino Unido (66 milhões) ou quase a metade da população da Rússia (145 milhões), estimou o Institute for Economics and Peace (IEP), um centro internacional de estudos sobre desenvolvimento humano, em relatório.

Segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o número de pessoas deslocadas bateu um novo recorde em 2017, o quinto ano consecutivo de alta.

No último levantamento divulgado, o total de indivíduos que tiveram de deixar seus lares chegou a um patamar inédito - 68,5 milhões de indivíduos. Segundo comunicado do organismo internacional, o aumento foi motivado sobretudo pela crise na República Democrática do Congo, pela guerra do Sudão do Sul e pela ida de milhares de rohingyas (minoria islâmica) de Mianmar para Bangladesh.

Deslocamentos internos

O deslocamento em grande escala através das fronteiras é menos comum do que sugere a estatística global de 68,5 milhões.

Quase dois terços das pessoas forçadas fugir são deslocadas internas e continuam vivendo dentro de seus próprios países.

Dos 25,4 milhões de refugiados, pouco mais de um quinto são palestinos sob os cuidados da UNRWA, a Agência da ONU para Refugiados da Palestina.

Segundo o último relatório da ACNUR, a Turquia continuou sendo o país que mais acolhe refugiados em números absolutos, com uma população de 3,5 milhões de refugiados, principalmente sírios. O Líbano, por sua vez, hospedou o maior número de refugiados em relação à sua população nacional.

Propostas concretas de solução para a crise migratória seguem escassas.

Guerras e conflitos continuam a ser as principais causas de deslocamento forçado, com um pequeno progresso rumo à paz. Cerca de 5 milhões de pessoas puderam retornar às suas casas em 2017, sendo a grande maioria deslocados internos.

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Histórias de refugiados

Shukria Barakzai chegou ao Reino Unido com 15 anos e quase não compreendia inglês. Depois de quatro anos, ela é uma poetisa publicada e premiada, que agora está ajudando a dar voz a outras jovens. "O Afeganistão ainda é muito querido para mim, mas tenho muito a conquistar antes de voltar para lá".

Shukria estuda política, filosofia e economia na Universidade de Londres e tem um futuro mais otimista pela frente.

Mortaza Haidari, 22 anos, nasceu no Irã, mas seus pais são afegãos. Encurralado pela guerra dos dois lados (no Afeganistão e na Síria), ele fugiu para a Europa e agora estuda em Viena.

O curso, ministrado por uma revista de notícias austríaca, está ajudando solicitantes de refúgio do Irã, Iraque e Afeganistão, a entrar no mundo do jornalismo. "Tenho saudades da minha família e dos meus amigos", afirma Haidari.

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