No Equador

Fora da Presidência, Correa mira ex-aliado que o sucedeu

00:00 · 17.07.2017
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Nas duas últimas semanas, o ex-presidente equatoriano (e) tem acusado o atual mandatário Lenín Moreno (d) de estar "cometendo graves erros" e "cruzando uma linha vermelha", ao buscar diálogo com opositores ( Foto: AFP )

Quito. Nem bem completou um mês no cargo, e o atual presidente do Equador, Lenín Moreno, já se vê na posição de ter de defender-se de um inusitado opositor: seu padrinho político, Rafael Correa.

Mesmo tendo o ex-presidente partido para a Bélgica no começo da semana, onde já havia anunciado que passaria um tempo com a família -a esposa de Correa é belga- sua voz vem se fazendo ouvir por meio das redes sociais e da coluna que mantém no jornal governista "El Telégrafo". O tom começou ameno logo após a posse, com advertências de Correa a Moreno sobre o excesso de atenção que estava dando a jornalistas e tentando desestimular que seu delfim acelerasse as investigações de casos de corrupção revelados pelas delações da Operação Lava-Jato.

Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, a construtora brasileira Odebrecht pagou no Equador US$ 33 milhões (R$ 105 milhões) em caixa dois e subornos para benefícios em licitações. Porém, para Correa, a "verdadeira corrupção" é outra, "é a das forças que sempre repartiram o Estado equatoriano entre elas e contra as quais lutei nos últimos dez anos", como reafirmou num de seus recentes artigos. Moreno, a princípio, disse que as observações de Correa seriam sempre bem-vindas.

"O diálogo continua. Seguimos empenhados em reconciliar o país. Para o ódio, não contem comigo", disse.

As coisas começaram a azedar nas últimas duas semanas, quando Correa acusou Moreno de estar "cometendo graves erros" e "cruzando uma linha vermelha", ao buscar diálogo com opositores. "Em sua tentativa de diferenciar-se de mim, está sendo não só desleal como também medíocre", afirmou.

O que mais irritou Correa foi o fato de Moreno ter-se reunido com Dalo Bucaram, filho do ex-presidente Abdalá Bucaram (1996-97), para criar uma comissão anticorrupção que teria apoio da ONU.

Correa lembrou Moreno que tal comissão já existia, referindo-se a uma que ele criou, com gente de sua confiança, e que chamar agora "gente como os Bucaram e organismos internacionais seria um insulto à nossa soberania". Moreno se animou com tal projeto porque viu sua popularidade despontar em junho, superando 65%, após permitir que se revelassem alguns nomes da gestão anterior que estão sendo investigados pela Justiça como receptores de propinas da Odebrecht entre 2007 e 2016. Encontra-se em prisão preventiva, até agora, um alto funcionário da gestão Correa, Alecksey Mosquera, ministro da Energia entre 2007 e 2009.

As críticas foram se acumulando, e o ex-presidente, que sempre havia proibido que seus ministros dessem entrevistas a jornalistas, alertou Moreno sobre o acesso que vinha dando a jornais antes considerados inimigos.

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