Comunicado sem precedentes

Ex-diretores da CIA condenam Trump

Presidente republicano deflagrou uma crise com os ex-funcionários de alto escalão da agência de inteligência dos EUA

00:00 · 18.08.2018
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John Brennan disse que o presidente retirou a autorização de segurança dele em retaliação às denúncias feitas sobre ingerência russa no pleito americano ( FOTO: AFP )

Washington. Ex-diretores da CIA (agência de inteligência) e outros seis ex-chefes dos espiões mais importantes dos EUA emitiram uma condenação sem precedentes contra o presidente Donald Trump, depois de sua decisão de colocar seu colega John Brennan em uma "lista negra".

Em uma declaração, os ex-chefes da agência de inteligência nomeados por presidentes republicanos e democratas, incluindo Robert Gates, George Tenet, Porter Goss, Leon Panetta, denunciaram a decisão de Trump de retirar de Brennan a sua autorização de acesso a informação confidencial.

"A ação do presidente com relação a John Brennan e às ameaças de atos similares contra outros ex-funcionários não têm nada a ver com quem deve ou não deve ter autorização de segurança, e tudo tem a ver com uma tentativa de reprimir a liberdade de expressão", citou a nota.

Ao descrever a decisão de Trump como "inapropriada e profundamente lamentável", insistiram que "nunca antes havíamos visto a aprovação ou a eliminação de autorizações de segurança utilizadas como ferramenta político, como foi feito neste caso". Ao longo da última semana, Trump resolveu retirar do ex-diretor da CIA John Brennan -firme crítico do presidente- a autorização de acesso a informação sigilosa.

Esse benefício agora revogado é historicamente outorgado a funcionários de alto escalão para ter acesso a informação delicada e confidencial, inclusive depois de deixarem o cargo.

Na quinta, em uma coluna publicada no "New York Times", Brennan -que até janeiro era o guardião dos segredos americanos- disse que Trump "está desesperado para proteger a si mesmo e aos outros próximos a ele" dentro da estrutura da investigação oficial sobre os vínculos de sua equipe de campanha com a Rússia. O procurador especial Robert Mueller está investigando a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016 e um possível conluio entre Moscou e a equipe de campanha de Trump, um tema que é persistentemente discutido no ambiente político e midiático dos EUA.

Trump admitiu, em entrevista ao "Wall Street Journal", que a sua decisão se deve à postura crítica de Brennan e seus comentários sobre as ligações de sua equipe de campanha eleitoral com a Rússia.

Na quarta, quando anunciou a revogação, Sarah Huckabee Sanders, porta-voz da Casa Branca, leu um comunicado em que este justificava a sua decisão com "os riscos que representam a conduta e o comportamento erráticos" de Brennan.

Moscou

Em meio ao imbróglio, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia enviou aos EUA uma nota de protesto contra o governo de Trump. Moscou argumenta que os EUA violaram os direitos diplomáticos das missões russas no território norte-americano.

A nota destaca "as contínuas e graves violações por parte dos EUA das normas do direito internacional em relação às representações diplomáticas e missões consulares da Rússia em território americano". Essas ações, "sem precedentes", que afetaram missões russas em Nova York, San Francisco e Seattle, estiveram acompanhadas de incursões não autorizadas em tais edifícios, a "arbitrária" retirada da bandeira e a violação da inviolabilidade de seus arquivos.

Advertência

A Chancelaria destacou que as consequências de tal situação "não condizem com o marco das relações russo-americanas e afetam os interesses de toda a comunidade internacional".

O governo russo também denunciou que os objetos pessoais dos funcionários e familiares russos ainda permanecem nas delegações das quais foram expulsos. A chancelaria russa advertiu que "se reserva o direito de adotar contramedidas adicionais se os EUA continuarem com suas violações". Em março, os EUA ordenaram o fechamento de várias delegações russas, entre elas o consulado em Seattle, em solidariedade com o Reino Unido pelo caso do envenenamento do espião duplo Sergei Skripal e sua filha em território britânico. Em represália, Moscou fechou seu consulado em São Petersburgo.

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