Atos contra o governo

EUA pedirão uma reunião de emergência sobre o Irã na ONU

A embaixadora norte-americana na organização justificou que há um clamor "por liberdade" em protestos

Nikki Haley afirmou, ontem, que as manifestações no país vão ser o tema de discussões nas Nações Unidas nos próximos dias ( Foto: AFP )
00:00 · 03.01.2018

Nova York/Teerã. A embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley, disse, ontem, que Washington pedirá a realização de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança sobre os protestos no Irã.

"A ONU deve se pronunciar nos próximos dias, convocaremos uma reunião de emergência", disse a diplomata americana. "O povo do Irã está clamando por liberdade", acrescentou.

Mais cedo, os Estados Unidos pediram que o Irã pare de bloquear e estabelecer restrições às redes sociais e aconselharam seus cidadãos a instalar redes virtuais ou conexões VPN para evitar a censura oficial.

Steve Goldstein, vice-secretário de diplomacia pública do Departamento de Estado, denunciou as tentativas do Irã de restringir o acesso à rede e pediu aos iranianos para encontrarem uma forma de entrar na web: "o povo no Irã deve poder acessar estes sites por VPN", disse, acrescentando que a página no Facebook do Departamento de Estado em idioma farsi conta com 70 mil seguidores.

"Quanto mais acessíveis forem estes sites, melhor será", afirmou, enquanto continuavam os protestos de rua contra o regime iraniano, ao qual o presidente americano, Donald Trump, qualificou de "brutal e corrupto".

Desde que começaram os protestos, Teerã restringiu o uso de algumas redes sociais, como Instagram e Telegram, diante de temores das autoridades de que sejam usadas para divulgar informação sobre os distúrbios.

Outros serviços online proporcionados por gigantes da tecnologia dos Estados Unidos não estão disponíveis no Irã porque suas matrizes querem evitar um conflito com as sanções que pesam sobre o país.

Goldstein disse que Washington considera que todos os iranianos deveriam ter acesso a notícias e opiniões que não estejam alinhadas com o governo, razão pela qual incentivou os cidadãos a buscarem informação em veículos internacionais.

"Queremos estimular os manifestantes a lutar pelo que é certo", disse o vice-secretário. "Desejamos fortemente que o governo iraniano permita aos manifestantes divergir em paz".

Alguns observadores advertem que o apoio público da Casa Branca ao direito dos iranianos a participar de protestos antigovernamentais poderia comprometer o movimento e mostrá-lo como um boicote impulsionado do exterior.

"Temos a obrigação de não ficar parados. Sempre há esse risco, mas estamos dando possibilidades às pessoas de expressar suas opiniões onde podemos", acrescentou Goldstein.

Aiatolá

O guia supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, rompeu, ontem, seu silêncio sobre a onda de protestos que já deixou 22 mortos e afirmou que os distúrbios são orquestrados pelos inimigos do país. Nove pessoas morreram durante a noite de segunda e mais duas ontem.

Khamenei assegurou que "nos acontecimentos dos últimos dias, os inimigos se uniram e estão usando de todos seus meios, seu dinheiro, suas armas, suas políticas e seus serviços de segurança para criar problemas para o regime islâmico".

"Esperam apenas uma chance para se infiltrar e atacar o povo iraniano", declarou, sem especificar os "inimigos".

As autoridades acusam os grupos de oposição baseados no exterior - nos EUA e na Arábia Saudita, por exemplo- de tentarem se aproveitar da insatisfação da população para criar problemas no país.

Ontem, Trump elogiou os manifestantes iranianos por denunciar o regime brutal e corrupto de Teerã.

Opinião

Acordo nuclear é pano de fundo para crise no país

Lejeune Mrhan. Sociólogo e arabista

Os protestos no Irã são um movimento de fora para dentro. Não refletem a opinião da maioria dos iranianos, que são politizados e não aceitam a ingerência externa. Há interesses imperialistas do governo Trump de impor sanções e de anular o acordo nuclear do Irã, que permitiu o descongelamento de recursos. Não vejo uma crise econômica grave no Irã, não há uma crise de desabastecimento de produtos. O que há é uma tentativa estadunidense e de seus principais aliados no Oriente Médio (Arábia Saudita e Israel) de desestabilizar aquela região. Esse é o objetivo geopolítico desses protestos: desmontar o regime iraniano e implantar o modelo norte-americano de democracia, promovendo desestabilização como se viu na Tunísia em 2010 e no Egito em 2011, processo que culminou com a guerra na Síria. Não tenho dúvidas de que esses protestos são financiados pelo Departamento de Estado dos EUA por meio de ONGs e entidades no Irã.

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