Senado

Dono de rede social é acusado de negligência

Congressistas dos EUA disseram que fundador do Facebook fez "vista grossa" ao uso indevido de dados dos usuários

Aos 33 anos, o bilionário Mark Zuckerberg foi bombardeado por questionamentos sobre manipulação eleitoral por consultoria política que teve acesso às contas e dados de, pelo menos, 87 milhões de usuários da plataforma ( Foto: AFP )
00:00 · 11.04.2018 / atualizado às 00:18

Washington. Pálido e aparentemente tenso, o CEO e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, respondeu, ontem, a uma série de questionamentos do Senado americano sobre o que os senadores chamaram de "desconexão entre suas promessas e a realidade" e a vista grossa ao uso indevido de dados de usuários por empresas associadas à plataforma e outras.

"A forma como o Facebook vem fazendo promessas e o que vemos na realidade não bate", disse o senador Chris Coon, um democrata pelo Delaware - mesmo estado americano em que a empresa de Zuckerberg está registrada, para se beneficiar de um sistema de isenção fiscal.

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O depoimento oficial no Senado à comissão de comércio e à comissão do Judiciário foi convocado após vir à tona o escândalo de que pelo menos 87 milhões de pessoas, segundo o Facebook, tiveram seus dados violados por meio de um aplicativo utilizado pela consultoria política Cambridge Analytica para coletar dados de usuários e montar campanhas políticas.

Ao longo do depoimento, iniciado às 15h15 (horário de Brasília), Zuckerberg, de 33 anos, se desculpou inúmeras vezes, reiterou a promessa de fazer mais para proteger os dados dos usuários da rede social e foi questionado se aceitaria trabalhar em uma melhor regulamentação da privacidade online.

A certa altura, afirmou que aceitaria que sua equipe trabalhasse com legisladores para criar a "regulação certa" a companhias de tecnologia pelo governo ou pelo legislativo -uma mudança significativa na atitude da empresa que faz lobby há anos no Congresso dos EUA para evitar a introdução de leis que possam limitar seu crescimento.

Mas Zuckerberg falhou em convencer os senadores que suas intenções são genuínas e serão transformadas em ação. O senador democrata Richard Blumenthal apontou que o uso de dados pela Cambridge Analytica contrariou as próprias regras do Facebook e disse que a empresa usou de "cegueira proposital" sobre o tema -Zuckerberg respondeu que não concordava com a avaliação do senador.

Discursos de ódio

Seu colega de partido Brian Schatz, do Michigan, questionou se quando alguém menciona um filme no WhatsApp (aplicativo de mensagem que pertence à mesma empresa) é bombardeado por anúncios daquele filme no Facebook. Zuckerberg disse que não, mas o senador não se satisfez com a resposta.

Os senadores também quiseram saber o que a empresa tem feito para conter o discurso de ódio, incitação da violência e proteger a privacidade de crianças, inclusive de pedófilos. E questionaram se alguém havia sido demitido, na equipe de monitoramento de aplicativos, após os escândalo da Cambridge Analytica -Zuckerberg respondeu que não. Um dos momentos mais importantes, porém, veio do senador Dan Sullivan, no que pareceu uma ameaça velada:

"Veja a história desta comissão. Quando uma empresa se torna muito grande e poderosa, a tendência é regular ou dividir a empresa", disse o senador. Zuckerberg respondeu não ser contra regulações em geral.

Privacidade

Um dos principais esforços de lobby do Facebook é para evitar ser tratado como empresa de mídia, o que implicaria ser regulado como tal, inclusive no que diz respeito à responsabilidade pelo conteúdo e origem dos anunciantes.

Este é o primeiro testemunho de Zuckerberg ao Congresso americano, em meio a críticas de políticos e do público aos parcos controles de privacidade da plataforma e sua responsabilidade na difusão de notícias falsas e manipulação política. Hoje, Zuckerberg vai depor à Câmara também sobre essas questões.

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