Antes de votação no senado

Debate sobre aborto se acirra na Argentina

Aprovado pela Câmara, projeto que permite interromper gravidez até a 14ª semana levou a disputa de argumentos

00:00 · 09.08.2018
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"Celestes" (contra o aborto) e "verdes" (a favor) tomaram as vias em torno do prédio do Congresso, em Buenos Aires, à espera da votação do projeto que descriminaliza a prática; até o fim da noite de ontem, a tendência era pela rejeição ( FOTO: AFP )

Buenos Aires. O debate no Senado argentino que precedeu a votação da lei para liberar o aborto até a 14ª semana de gestação se deu em clima de acirramento, ontem. As discussões começaram pela manhã e, até o fechamento desta edição, os parlamentares ainda discursavam.

A tendência seguia clara pela derrubada da lei, aprovada pela Câmara em julho. Segundo contagem extraoficial a partir de declarações dos senadores, a vitória do "não" seria de 38 votos a 31, além de uma abstenção e uma ausência por licença-maternidade. O procedimento é permitido no país apenas em caso de estupro e risco de morte da mãe.

Na praça diante do Congresso, foram postas placas de metal e limites até onde podiam ir os "celestes", contra o aborto, e os "verdes", pró-legalização.

Os "verdes" vêm sendo mais bem organizados por associações feministas, como a Campanha Nacional contra a Violência Contra a Mulher. Além dos lenços verdes, elas distribuíram capas de chuva nessa cor (choveu a tarde toda) e montaram tendas de alimentação e um QG no hotel Castelar para os ativistas poderem descansar ao longo da jornada em uma tarde de temperaturas entre 8°C e 11°C.

Já os "celestes" trouxeram seu principal símbolo, o feto de plástico Alma, além de bandeiras argentinas e cartazes contra o presidente Mauricio Macri, que deu impulso ao início das votações. Havia crucifixos e imagens religiosas.

Embates

Enquanto os "verdes" gritavam "nem uma a menos" ou "aborto legal, no hospital", os "celestes" bradavam "Sim à vida, aborto não", e "Salvemos as Duas Vidas". Entre as "verdes", predominavam adolescentes e mulheres jovens. Entre os "celestes", mulheres mais velhas e homens.

Além dos dois lenços que se tornaram febre na Argentina nos últimos meses, passou a circular um laranja, pela defesa do Estado laico.

Do lado de dentro do Congresso, os 60 senadores inscritos para discursar antes de votar ao longo da noite excederam, em sua maioria, os 10 minutos definidos para cada intervenção.

A presidente do Senado e vice-presidente do país, Gabriela Michetti, teve de interromper por cerca de 40 minutos a sessão para acalmar trocas de acusações. Entre os que haviam se declarado contra a lei, até então, estavam Esteban Bullrich, da aliança governista Mudemos, para quem "a maternidade não deveria ser um problema".

STF

info

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) discutiu as questões relacionadas ao aborto, em audiência pública, nos dias 3 e 6 deste mês). A ministra Rosa Weber é relatora da ação que discute a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez.

A ação em discussão hoje no Supremo foi ajuizada no ano passado pelo PSOL, que pediu para os ministros excluírem do âmbito de incidência de dois artigos do Código Penal os abortos que forem praticados nas primeiras 12 semanas de gestação.

Não há data para o julgamento final da ação.

Ontem, manifestantes se reuniram em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, para prestar apoio ao projeto de legalização do aborto na Argentina.

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