Transição

Cuba prepara saída do presidente Raúl Castro

Pela primeira vez em décadas, ilha comunista do Caribe não terá um presidente de farda, com sobrenome Castro

Formado em engenharia eletrônica, Miguel Díaz-Canel (d), de 57 anos, é o favorito a presidir Conselhos de Estado e de Ministros no lugar de Raúl Castro (e) ( FOTO: AFP )
00:00 · 17.04.2018

Havana. Cuba se prepara para a histórica substituição de Raúl Castro, que deixa a Presidência na próxima quinta, embora mantenha o controle sobre o Partido Comunista para guiar seu sucessor e ajudá-lo a conviver com os círculos do poder na Ilha.

Pela primeira vez em décadas, o presidente cubano não terá o sobrenome Castro, não fará parte da geração "histórica" da revolução de 1959 e não vestirá farda. E será a primeira vez que a liderança da governista e única sigla do país - o Partido Comunista de Cuba (PCC) - e a Presidência do país serão exercidos por duas pessoas diferentes.

Fidel Castro faleceu no fim de 2016 e, agora, Raúl, de 86 anos, cederá seu posto para um representante da nova geração. O sucessor será nomeado na próxima quinta, também pela Assembleia Nacional, ratificada em março pela população.

Trata-se "não apenas de uma substituição geracional, mas também do fim inevitável do modelo carismático de 'Fidel no comando', reformado, mas não abandonado por seu irmão caçula", considerou o analista cubano Arturo López-Levy, professor da Universidade do Texas Rio Grande Valley. Mesmo que a identidade de seu herdeiro político não tenha sido confirmada, seu currículo será menos extenso do que o de seus antecessores.

PCC

O primeiro-vice-presidente, Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, parece ser o mais bem situado para presidir o Conselho de Estado, máximo órgão do governo. Homem formado no PCC, Díaz-Canel é o número dois do governo desde 2013 e foi preparado para assumir essa posição. "É o mais jovem entre os altos dirigentes", disse o cientista político cubano Esteban Morales.

Sem a legitimidade dos "históricos", esse civil contará com o apoio de Raúl Castro, que seguirá no comando do PCC até 2021.

O novo presidente "terá muito menos poder nas mãos do que Raúl, ou Fidel Castro. Terá que compartilhá-lo com outras figuras políticas e militares de alto escalão", diz o diretor do Instituto Cubano de Pesquisa da Universidade da Flórida, Jorge Duany.

Reformas

Na opinião dos especialistas, espera-se que o novo presidente faça reformas urgentes, especialmente no campo econômico, para aprofundar a tímida abertura dirigida por Raúl Castro nos últimos anos. "Poucas transições na história da América Latina e dos países comunistas foram tão cuidadosamente planejadas", avalia López-Levy.

Para 2021 -quando Raúl deixa a liderança do PCC-, "caberá observar o quão hábil é a elite cubana para executá-la".

"Não se fará isso em dois dias", pontuou Morales, que não crê que "Díaz-Canel inicie de imediato uma série de coisas". "A revolução sobreviveu até agora, mas, para garanti-la, é preciso uma série de ações extraordinariamente importantes. Do contrário, sinceramente, não sabemos o que pode nos acontecer".

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.