Efeitos são suspensos

Assinada declaração de independência catalã

Separatistas acenaram com intenção de diálogo com Madri, mas chefe do Executivo espanhol não cedeu e condenou gesto

Presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, discursou em um Parlamento protegido pela polícia, a fim de evitar agressões entre os dois lados ( FOTO: AFP )
00:00 · 11.10.2017 / atualizado às 08:39

Barcelona/Madri. O presidente catalão, Carles Puigdemont, e seus aliados separatistas assinaram simbolicamente, ontem, uma declaração de independência que ficou em suspenso, à espera de um hipotético diálogo com o governo espanhol.

"Constituímos a República catalã como Estado independente e soberano, de direito, democrático e social", disse o texto, assinado pelos três partidos separatistas, inclusive o de extrema esquerda CUP (Candidatura de Unidade Popular), que havia expresso seu descontentamento pela suspensão da declaração no Parlamento regional.

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A vice-presidente do governo espanhol, Soraya Sáenz de Santamaría, afirmou que o presidente catalão, Carles Puigdemont "não sabe onde está, aonde vai, nem com quem quer ir", depois que este último assinou uma declaração de independência, da qual suspendeu os efeitos.

A número dois do governo espanhol anunciou, ainda, a convocação de um conselho extraordinário de ministros, presidido por Mariano Rajoy, chefe do Executivo espanhol, para hoje.

O objetivo será "abordar os próximos passos" após o discurso de Puigdemont no plenário do Parlamento catalão.

Diálogo

Mais cedo, Puigdemont assumiu, no Parlamento regional, o "mandato" do referendo para que a Catalunha seja uma "República independente", embora tenha pedido aos parlamentares catalães que suspendam "os efeitos" da independência para permitir um diálogo. O governo espanhol de Mariano Rajoy considerou a medida uma declaração implícita de independência, após o referendo de 1º de outubro, ilegal segundo a Justiça.

"Não é admissível fazer uma declaração implícita de independência para depois deixá-la em suspenso de forma explícita".

Em um aguardado comparecimento no Parlamento regional, Puigdemont assumiu o veredicto das urnas, nas quais o sim à autodeterminação venceu com mais de 90% dos votos, com participação de 43% da população desta região com 7,5 milhões de habitantes. "Assumo, ao apresentar-lhes os resultados do referendo a todos vocês, o mandato de que a Catalunha se torne um Estado independente em forma de república", disse.

Ato contínuo, acrescentou: "o governo da Catalunha e eu mesmo propomos que o Parlamento suspenda os efeitos da declaração de independência, contanto que nas próximas semanas empreendamos um diálogo sem o qual não é possível chegar a uma solução acordada". Estas são as mensagens mais fortes de um discurso de tom histórico, quase todo em catalão, no qual condenou o Estado espanhol por não ter sido um interlocutor nem "no passado, nem no presente".

A sessão começou com uma hora de atraso porque houve uma discrepância no âmbito da coalizão separatista, onde convivem diferentes orientações, do conservador PdeCAT ao partido de extrema esquerda CUP.

O governo espanhol havia pedido horas antes que Puigdemont não fizesse nada "irreversível" e desistisse de agravar a crise política que a Espanha vive - a pior de sua era democrática moderna, uma demanda à qual se somaram vozes europeias.

Enquanto o presidente discursava, o Parlamento parecia uma fortaleza. A Polícia fechou o parque onde fica a Câmara para evitar incidentes entre unionistas e secessionistas, dias após as imagens de agressões policiais darem a volta ao mundo.

 

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