Reportagem Biodiversidade

Vivemos de costas para a vida marinha 

Parque Marinho da Pedra da Risca do Meio, em Fortaleza, tem uma das maiores biodiversidades do País (Foto: Ruver Bandeira)
00:00 · 26.05.2018 / atualizado às 09:12 · 27.05.2018 por Melquíades Júnior

Os observatórios astronômicos estão apontados para as estrelas. Sondas vagam pelo espaço à cata de novas galáxias - e as encontram. O "KOI-7923.01" é a identidade dada ao planeta em condições parecidas com a da Terra, mas distante 720 anos-luz e descoberto em novembro de 2017 pelos cientistas espaciais graças à sonda Kepler, lançada em 2009 e até hoje mandando notícias. Os oceanos, a zero ano-luz, contudo, ainda são senhores desconhecidos.

Não há exagero em falar "biodiversidade marinha de Fortaleza", mas a bióloga Carol Meireles está certa de que, às vezes, é preciso pontuar para esclarecer. "Muita gente não sabe que há muita vida marinha aqui tão próximo da praia, isso é desconhecido". Ela é diretora da ONG Aquasis, que atua em educação ambiental e na reabilitação de mamíferos marinhos. Estudou a população de golfinhos que resiste em moradia e alimentação na área que compreende o espigão da Rua João Cordeiro e a Ponte dos Ingleses, na Praia de Iracema.

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Pedra da Risca

O mergulho noturno na região revela uma vida ainda mais pulsante. Arraias, peixes coloridos e tartarugas marinhas em águas tão rasas. E 20km mar adiante está uma das duas únicas unidades estaduais marinhas do Nordeste (a segunda é no Maranhão). Com 21 anos, o Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio abriga uma beleza de fauna e flora que, para muitos mergulhadores, compete em diversidade com a popular Fernando de Noronha e o mar do Caribe.

Nos 33 km quadrados do parque, só de bichos do mar são 153 espécies de peixes exóticos, 12 de peixes cartilaginosos, uma de golfinhos e três de tartarugas. Pelo menos 11 espécies presentes estão ameaçadas de extinção do Planeta. Gerida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), a unidade marinha tenta passar por uma fase pós-crise existencial. Desconhecido do cearense, o lugar ficou muito tempo esquecido pelos governos estaduais, apesar do alerta dos estudantes e professores das universidades que ali se debruçam em suas pesquisas.

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11 espécies marinhas ameaçadas de extinção são encontradas no Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, em Fortaleza, uma das duas únicas unidades estaduais de conservação marinha no Nordeste

O evento comemorativo de 20 anos do parque, em junho de 2017, foi como um lançamento para quem nunca ouviu falar. O atual grupo gestor tem focado em projetos de educação ambiental e capacitação como forma de ampliar o conhecimento sobre a unidade.

"Temos reuniões itinerantes trimestrais, com participação da sociedade civil, governo, pesquisadores e demais interessados no futuro do parque. Estamos numa fase burocrática, mas há muita coisa acontecendo. Conseguimos parcerias com ICMbio, Ministério do Meio Ambiente e Banco Mundial por recursos para plano de manejo, compra de equipamentos e para o monitoramento do parque", explica a gestora Izaura Lila.

Roda-gigante

Se a vida marinha na Pedra da Risca do Meio pulsa, na orla de Fortaleza ela resiste ao tempo e às intervenções urbanas, como a instalação dos espigões de pedra fazendo um quebra-mar. A mais recente novidade poderá ser a instalação de uma roda-gigante em cima do espigão, sobre o mar. O assunto intriga biólogos. "Uma roda-gigante na orla de Fortaleza gera impacto na vida marinha. Prejudica tanto botos como tartarugas e aves. Além da luz artificial, gera uma vibração no mar. Um estudo de impacto deve conter também medidas mitigatórias dessa interferência", explica Carol Meireles, diretora da Aquasis.

De acordo com a Secretaria de Turismo de Fortaleza (Setfor), à frente do empreendimento, a empresa AmuseBR, que elabora o projeto, tem até 29 de junho para apresentar estudo de viabilidade para a implantação da roda-gigante na orla de Fortaleza. O estudo inclui a viabilidade econômica e ambiental do equipamento.

Frase

Uma roda-gigante na orla de Fortaleza gera impacto na vida marinha. Prejudica tanto botos como tartarugas e aves. Além da luz artificial, gera uma vibração no mar. Um estudo de impacto deve conter também medidas mitigatórias dessa interferência
 
Carol Meireles
Doutora em Biologia marinha e diretora da Aquasis

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