Reportagem Jovem desejo e luta

Virando o jogo

Muito além de espaço para a prática esportiva, a quadra se torna uma sala de aula a céu aberto que permite a troca de experiências, anseios e alegrias. (Foto: Kid Júnior)
00:00 · 01.07.2017

A bola laranja quica no chão de cimento da quadra e retorna para as mãos habilidosas do jogador. No caminho até a cesta, porém, ele precisa vencer os adversários do outro time, que insistem em tentar roubá-la, seja à força ou no rebote. Assim são as noites para 60 atletas que participam do Instituto de Basquete e Cultura do Ceará (IBCC), no bairro Conjunto Ceará, que há 17 anos busca resgatar jovens da ociosidade, da criminalidade e do uso e abuso de drogas - sem nenhum apoio financeiro institucional ou governamental.

A proposta, no entanto, não é só o esporte pelo esporte. "A quadra também é o espaço que utilizamos como sala de aula, para a vivência, convivência e troca de experiências", conta o idealizador e coordenador do projeto, Ernando Ferreira. Para ele, os projetos públicos na área do esporte não levam em conta o que atrai o jovem que eles almejam. "A falta de aproximação leva à frustração", sintetiza.

No maior bairro habitacional da América Latina, o coordenador viu projetos como o Aprender, Brincar e Crescer (ABC) e a Vila Olímpica "afundarem" por não serem atrativos e continuados. "A mudança começa pelo ouvir. O jovem precisa ser protagonista, não coadjuvante do planejamento de aula e da ação que ele precisa. Se ele se apropria, tem mais entusiasmo".

LEIA MAIS

Jovem desejo e luta

Vidas que importam

Políticas públicas precisam de fortalecimento

O mar como referência

Entre acorde e melodias

Caminhos de oportunidades

Assim aconteceu com Lucas Rodrigues, 22, que viu a escola onde batia pelada com os amigos, no Autran Nunes, ser demolida. Sem espaço para o esporte, migrou para o Conjunto Ceará e descobriu-se jogador de basquete. Pouco depois de um ano no IBCC, tornou-se monitor dos times juvenil e feminino. "Eu era muito fechado e, aqui, eu fico mais à vontade; tenho mais presença, a galera me respeita, ninguém me trata diferente", diz.

O IBCC, para Alane Araújo, 24, também incentiva a participação feminina no esporte. Ela, que integra o projeto praticamente desde a fundação, toma a quadra como espaço de lazer, bem-estar físico e crescimento pessoal. "Aprendemos a lidar com pessoas diferentes de nós porque sabemos dos problemas uns dos outros, e esse convívio, além de trazer pessoas de outros bairros, tira os jovens da rua".

Expansão

A experiência rendeu bons frutos para além do Conjunto Ceará. Há 10 anos, o Bom Jardim Basquete e Cultura (BJBC) foi criado por Leonardo Morais, que começou no IBCC. À época, ele notou que não havia projetos esportivos voltados para a juventude da comunidade. Com os treinos, o BJBC passou a incentivar a melhoria do rendimento escolar e a integração dos pais, além de buscar parcerias com outros bairros para reduzir a visibilidade da violência no Bom Jardim.

Mesmo sem apoios oficiais e com apenas três bolas para mais de 50 jovens de 12 a 17 anos, o grupo se percebe grande. "Se a gente não gostasse, já teria desistido", afirma Morais. (Colaborou Nícolas Paulino)

tab

Carência não: potência 

Outra forma de incentivar a autonomia e o talento das comunidades periféricas é o hip hop, que, em Fortaleza, ganhou força em 1989, com a criação do Movimento Hip Hop Organizado (MH2O), primeira organização do gênero no Ceará. "Ele nasceu nas rodas de break do Conjunto Ceará, unindo a base política do anarcopunk com a cultura do hip hop", lembra Davi Favela.

Com as letras das canções, para ele, a juventude ganha o poder da palavra e discute temas como cultura, educação, política e combate à violência. No entanto, Davi avalia que o gênero se desgastou na última década pela emergência de novos segmentos que também chamam a atenção dos jovens, como o funk e a swingueira. No programa "Se Liga", que vai ao ar nas noites de domingo, na Rádio Universitária FM 107,9, Davi e outros apresentadores dão oportunidades para todos eles, transmitindo músicas produzidas em comunidades da Capital.

Para impulsionar esses talentos jovens, a Central Única das Favelas (Cufa) conta com a agência "Potência". Para Preto Zezé, presidente da entidade, o principal objetivo é formar lideranças que entendam os anseios das próprias comunidades. "Precisamos de gente que está no dia a dia construindo a luta nas comunidades, nos territórios, e, a partir daí, elas vão construir uma agenda que trabalhe no seu próprio bairro", explica.

tab

"Hoje, os jovens querem estímulo para o que eles já estão fazendo", afirma Preto Zezé das Quadras, presidente global da Cufa. (Foto: Kleber A. Gonçalves)

Segundo o articulador, é preciso mudar a ideia de uma juventude carente para um panorama em que "a juventude faz muita coisa, inclusive fora da Cufa", diz. "Hoje, os jovens querem estímulo para o que eles já estão fazendo. Eles poderiam estar nos circuitos culturais do Estado, receber algum tipo de financiamento? Para isso, só precisam de apoio".

A Cufa tem investido na abertura de empresas sociais para jovens artistas e empreendedores, como o Efeito de Fé Crew, coletivo de danças urbanas da Grande Messejana; a Prezzença Hip Hop, gravadora que produz discos em áreas temáticas, como saúde da juventude e prevenção a DSTs; e a Das Quadras Produções, que promove eventos em favelas de Fortaleza. (NP)

A marca na cidade

As ruas apertadas e apinhadas de gente da comunidade do Pantanal, como é conhecido o bairro Planalto Ayrton Senna, na Regional V, são coloridas, num muro ou noutro, por grandes painéis estilizados com spray. São obras dos jovens participantes da Cufa Crew, projeto que realiza pinturas e presta serviços de grafitagem desde 2001. O cabeça da iniciativa é Davi Viana, o Davi "Favela", 36, que deixou o mundo das gangues e da pichação para incentivar jovens a mudar de vida através do grafite.

"A gente queria passar o que a comunidade tinha de errado, mas só alguns entendiam a pichação. Já o grafite nos tornou famosos: estamos na TV, no jornal, na cidade", explica. O objetivo agora, segundo ele, é pautar a vida e remover o estigma de comunidade "carente" e "criminosa". "Nosso grafite tem cunho social porque passa uma informação de paz, de família, de comunidade. Se não servir para transformar a vida de quem está grafitando ou de quem está vendo, não vai servir de nada".

 

tab

Com as latas de spray, a juventude do Pantanal deixa sua "impressão digital" nos muros da comunidade: mensagens de paz e superação. (Foto: Kleber A. Gonçalves)

A prática transformou a vida de Ismael "D2" Rodrigues, que conheceu Davi e o grafite enquanto cumpria uma medida socioeducativa, em Fortaleza. Através da arte, descobriu que não precisava das drogas para ser respeitado. "Hoje, sou bem visto porque consegui vencer o crack e percebi que o crime é só ilusão". Também educador social, D2 acredita que o grafite expressa sentimentos e é capaz de tirar a "molecada" da ociosidade.

Mudança capaz, inclusive, de levar à profissionalização: hoje, alguns jovens da Cufa Crew ganham dinheiro como pintores, designers gráficos e até necromaquiadores de funerárias; sem falar nos ex-participantes que atuam em países como Suíça, Suécia e Canadá. Casos de sucesso, diz Davi, porque "o grafite é uma isca para a inclusão social".

"Pro Governo, a juventude é apenas número, uma estatística. Mas a gente entende a roupa que eles vestem, as músicas que escutam, o dialeto que eles falam. E o grafite vem do spray, da tinta, da demarcação, então chama atenção porque foi ele que deixou aquela marca. O grafite fala a linguagem deles, não tem arrodeios, é transformador". (NP)

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.