Reportagem Jovens vítimas

Violência no Estado cria geração de 'pais-órfãos'

00:00 · 07.04.2018

O órfão é aquele que perdeu o pai ou a mãe. O inverso não cabe em vocábulo. Não existe, na língua portuguesa, uma palavra que defina pais que tiveram que enterrar os filhos. A linguagem teima obedecer a ordem lógica de que os mais velhos vão primeiro. A violência desestabiliza tudo e nos obriga a empregar adjetivos emprestados para tentar se aproximar do que são as mães-órfãs de filhos assassinados no Ceará. Junto a elas, há a necessidade de se criar uma rede de apoio e proteção para aqueles que ficam. Essa é a primeira recomendação para a prevenção de homicídios na adolescência apontada pelo Comitê Cearense "Cada Vida Importa". Um esboço desse suporte começa a ser desenhado enquanto pais, mães, irmãos, avós, primos e amigos curam suas dores e aguardam por justiça.

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De acordo com o levantamento realizado pelo Comitê, em Fortaleza, 55% dos adolescentes mortos eram filhos de mulheres que foram mães ainda na adolescência. Esse fato revela o ciclo de vulnerabilidade que se alimenta em negações de direitos e em constantes violações. Após os homicídios de meninos e meninas, os familiares e, sobretudo as mães, apresentam adoecimento psíquico, fragilizando a dinâmica familiar, comunitária e socioeconômica.

Perder um filho muda tudo. Quando Alef Sousa Cavalcante foi assassinado, em 2015, aos 17 anos, a vida de Edna Carla Sousa Cavalcante, 46 anos, e do restante da família se alterou. Assim como o adolescente, um dos 11 mortos da Chacina da Grande Messejana, as famílias enlutadas também passaram a carregar o peso de serem vítimas da violência.

Depois da Chacina, a família mudou de casa, de bairro, de hábitos. Edna deixou de trabalhar como cuidadora de idosos e se considera militante. A mulher que só cuidava teve que descobrir as armas para combater. A máxima que diz que o feminino de luto é luta se personifica na mãe que vai às ruas, participa de fórum, exige justiça para a sua família e para a dos outros mortos.

Tomada de assalto, ela se viu sem o filho e sem esperança. "Esperava que meu filho morresse de acidente. Eu tinha medo que ele morresse de doença, mas violentamente eu não imaginava isso. Então, pra mim, foi muito difícil enterrar meu filho com 17 anos, tão cheio de sonhos, tão novo. Praticamente, estava começando a sonhar. Eu senti não só meus direitos violados, eu senti meu direito de mãe destruído", conta ela que caiu em depressão e só foi se reerguer apoiada em outras mães da Chacina. "Eu e as outras mães saímos e fomos pra luta porque não tínhamos mais nada".

Edna relata que encontrou uma rede de solidariedade de pessoas que ajudaram a enfrentar a dor. De estruturas governamentais, ela diz que só teve silêncio. "Não recebi suporte do Estado. O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social, equipamento municipal)veio. Mas não fui para o psicólogo. Minha psicologia é diferente. A minha cura está na Justiça. Eu não estou pedindo nada do que tenho direito. Estou pedindo a justiça para o caso do meu filho". Hoje, as mães da Chacina da grande Messejana não são mais acompanhadas pela Defensoria Pública. Com advogado particular, aguardam a responsabilização dos homicídios de seus filhos.

A sensação de injustiça é outra evidência apontada pelo Comitê. Na Comarca de Fortaleza, foram analisados 1.524 processos de homicídios de adolescentes dos últimos cinco anos protocolados no sistema de justiça. Até o fim de 2016, apenas em 2,8% dos casos, houve responsabilização dos agressores. A ausência da resposta estatal se configura como uma nova agressão para quem fica.

Respostas

Como resposta a essa recomendação de estruturação da rede de assistência à família, a única ação que saiu do papel foi a Rede Acolhe, programa da Defensoria Pública do Ceará, criada em junho do ano passado para promover a assistência jurídica e psicossocial aos familiares das vítimas de Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs).

Até agora, foram cerca de 80 famílias assistidas, muito aquém do número de homicídios registrados em Fortaleza. No entanto, a defensora Púbica Gina Moura, responsável pelo programa, explica que há uma demanda crescente. "São muitas nuances, preocupações que não são apenas de esfera criminal. A gente tem muito cuidado com a vítima. É uma seara de proteção de direitos que exige uma certa complexidade. Trabalhamos no tripé: assistência social, saúde e acesso à justiça".

A Rede Acolhe trabalha seja como porta de entrada nos programas de proteção, seja na mobilização dos equipamentos públicos de assistência social. "A gente trabalha na perspectiva da Busca ativa, justamente nessa perspectiva que a vítima não procura as instituições. Nossa preocupação é que a vítima não passe por outro processo de revitimização, para que seu parente morto não seja identificado como bandido, que não seja privada de seus direitos pelo falecimento dessa pessoa, que tenha acesso aos equipamentos e serviços que possa restabelecer essa vítima", podera a defensora. No entanto, ela reconhece que o desafio é grande, sobretudo, pela necessidade de articulação com equipamentos que funcionam no limite.

"A gente tem dialogado muito com os equipamentos. Eles sofrem uma dificuldade estrutural, seja pela rotatividade de profissionais e também por certo medo de acesso ao território. O que a gente quer, desde o início, é reforçar esse tipo de política como política de segurança", confessa Gina, que garante que há um diálogo no processo público para ampliar essa metodologia para outras instituições.

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