Reportagem Jovem desejo e luta

Vidas que importam

No Grande Bom Jardim, jovens agentes da Paz lutam pela redução dos estigmas da violência. Foto: Natinho Rodrigues
00:00 · 01.07.2017

Era noite. L.G.S. Voltava de um supermercado, no José Walter, quando foi abordado por um veículo prata, de onde partiram os tiros que o mataram. Tinha 17 anos. P.I.L.S., 18, foi morto num anfiteatro, no São Cristóvão. R.L.M., 17, teve o mesmo destino numa pista de skate, no Castelão. W.V.A., 15, caminhava no Parque Dois Irmãos quando foi surpreendido por dois homens numa moto, que o executaram. J.E.S.A., 15, e I.P.S., 14, também foram baleados e perderam a vida, desta vez no Montese. Neste parágrafo, relatamos um pequeno recorte de notícias veiculadas nas páginas policiais, entre 2015 e 2017. Para preservar a identidade das vítimas e das famílias, optamos pela abreviação dos nomes. E porque as vidas desses seis jovens tiveram o mesmo fim: a brevidade.

Disparo 1: 95% dos adolescentes assassinados em Fortaleza, em 2015, pereceram por armas de fogo. Disparo 2: quase todos eram homens, pardos e tinham entre 16 e 18 anos. Disparo 3: 60% deles estavam fora da escola há, pelo menos, seis meses antes da morte. Disparo 4: apenas 2% tiveram acesso a oportunidades de emprego no mercado formal. Disparo 5: 44% deles moravam em apenas 17 bairros que, juntos, abrigam 13% do total de moradores da Capital.

Os dados são do estudo "Trajetórias Interrompidas", do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, formado por entidades governamentais e civis. Com Índice de Homicídios na Adolescência (IHA) de 10,94, alcançado em 2014, Fortaleza é apontada como a capital brasileira onde mais se matam jovens de 12 a 18 anos. O levantamento também estima que, de cada mil adolescentes nessa faixa etária, cerca de 11% corre risco de assassinato na cidade, até 2021.

Os adolescentes mortos, porém, não eram diferentes de outros que vivem em Fortaleza, como acredita Rui Aguiar, coordenador do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para o Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. "O diferencial foram as oportunidades que eles tiveram", explica. Afinal, se eles estavam há mais de seis meses fora da escola, porque ninguém se importou em rematriculá-los? A falta de qualificação, por sua vez, impede a entrada no mercado de trabalho, mesmo com a Lei da Aprendizagem garantindo 5% dos cargos das empresas para jovens.

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"Um adolescente, em Fortaleza, precisa de, no mínimo, R$200 por mês, para mobilidade, lanche e algum lazer", aponta Aguiar. Se os jovens não têm oportunidade legal para suprir essas necessidades, podem procurar alternativas ilegais, como o tráfico de drogas, que traz conflitos entre gangues e facções locais. Conforme o estudo do Comitê, metade dos adolescentes morreu a cerca de 500 metros de casa, e mais de 50% deles haviam sido ameaçados.

Para Preto Zezé, presidente global da Central Única das Favelas (Cufa), a morte dos jovens também está ligada à contenção de projetos para crianças e adolescentes na periferia da cidade. "Hoje, as grandes organizações que trabalham na periferia estão fechando as portas. As pessoas acham que projeto social não tem custo, mas custa muito", afirma. Além disso, cobra diálogo do poder público, "que não pensa junto com a favela". Para ele, não há como desenvolver políticas públicas se não houver intercâmbio com as comunidades.

Então, como reduzir os homicídios da juventude de Fortaleza? O Comitê elaborou um documento com 12 recomendações para o poder público, como a busca ativa dos jovens que abandonaram a escola, a oferta de oportunidades de aprendizagem remunerada, a mediação de conflitos nas comunidades e o controle do acesso a armas de fogo - medidas necessárias para que os jovens não fiquem vulneráveis a homicídios e a outras formas de abuso, como trabalho infantil e exploração sexual. (Colaborou Nícolas Paulino)

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A juventude sonha 

"A gente percebe essa queda de braço entre a juventude, que quer acesso a direitos básicos, e o Estado, que nega". A falta de comunicação governamental também é queixa de representantes do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), instituição de direitos humanos que atua no Grande Bom Jardim desde 1994. Para Edivânia Marques, coordenadora do projeto Jovens Agentes da Paz (JAP), as violências diárias que os adolescentes vivenciam criam uma desilusão afetiva com a sociedade e os deixa à mercê do medo.

"A juventude anseia muita cultura. Tanto é que, quando o Estado não chega junto, ela se organiza e faz". Dentre as iniciativas dos adolescentes na região, ela aponta os shows de reggae, as batalhas de rap, os saraus de poesias e outras manifestações autônomas, sempre em espaços públicos do bairro. "Quando o Estado não percebe que a juventude tem esse potencial, ele vai desperdiçando vidas e talentos", lamenta a coordenadora.

Segundo o sociólogo do CDVHS, Caio Feitosa, dos cerca de 220 mil moradores do Grande Bom Jardim, 60% têm menos de 30 anos, e é para essa população que as políticas públicas faltam. "Ninguém pergunta o que eles querem, o que eles esperam, o que eles têm a dizer, como querem construir e viver a cidade. Aqui, só existe a estigmatização de que não vamos dar certo, que não temos jeito", diz ele, também criado na comunidade.

Apesar disso, a juventude não deixa de pensar num futuro melhor. "Uma vez, fizemos uma roda e perguntamos qual era o sonho desses jovens. Todos, sem exceção, tinham um objetivo: ser veterinário, dentista, astrônomo. Então, você percebe que os jovens têm objetivos a seguir e que não é normal eles morrerem antes de realizá-los", considera Edivânia Marques.

No JAP, todos esses questionamentos são trabalhados com estudantes de seis escolas do território e outros jovens da comunidade. Nas conversas, eles buscam refletir sobre questões locais, com centralidade na cultura de paz, na mediação de conflitos e no extermínio da juventude - ainda que, por vezes, os olhares se percam nas lembranças de amigos de infância, vizinhos, irmãos e primos que perderam a vida para a violência.

"O princípio é que temos direito à dignidade e o poder público tem obrigações nesse sentido. Queremos construir essa consciência, monitorar as políticas públicas que ele realiza e cobrar quando elas não existem ou são insuficientes", salienta Caio. (NP)

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