Reportagem DOC

Velho mundo, novos sonhos: sotaque e força cearense em Portugal

00:00 · 02.09.2017 / atualizado às 09:46 · 05.09.2017 por Cristina Pioner e Germana Cabral - Enviadas a Portugal

Em aconchegante apartamento, no bairro da Ajuda, há uma rede de dormir na sala de estar. O símbolo mais forte de que ali reside uma cearense. Mas, ao sair pelas ruas de Lisboa, a funcionária pública aposentada Luiza Laura Gondim Rocha está sempre aberta a desfrutar, ao máximo, do país que adotou como sua morada.

Portugal também acolheu muitos outros conterrâneos, a exemplo do advogado Raimundo Neto, da psicóloga Racquel Chaves, da fotógrafa Amanda Teixeira, da arquiteta Jorgiana Varejão, da professora Helena de Freitas, da empresária Angela Souza, dos designers Marildo Montenegro e Claudiana Cordeiro, do jogador de futebol Lionn e da médica Claudia Souza.

Pois, pois. Se existe um cearense em todo canto do mundo, em terras lusitanas eles parecem se multiplicar. Em diferentes épocas, atravessaram o Atlântico por vários motivos, revelados neste DOC "Cearenses em Portugal". Deles, ouvimos por que é tão fixe (legal, bom) viver neste país: segurança, saúde, educação e transporte público de boa qualidade, opções de lazer e cultura, além de ser um lugar promissor para educar os filhos.

Da mesma forma, contam que nem tudo é perfeito. Afinal, em qualquer lugar do mundo, sempre existirão aspectos positivos e negativos. A palavra "preconceito" surge em alguns relatos, porém não é mais forte do que a resistência dos entrevistados para serem bem-sucedidos e felizes na terra alheia.

Confira o vídeo sobre o DOC: Cearenses em Portugal

 

Dentre os motivos que levam cearenses além-mar estão estudos, casamentos com portugueses, trabalho, aposentadoria ou para experimentar outras culturas. É o caso também dos jornalistas cearenses Lucas Menezes e Fernanda Brasileiro, nossos ex-colegas do Diário do Nordeste, que, embora não sejam personagens desta reportagem, participam colaborando com fotos e vídeos. Fernanda faz mestrado em Lisboa, e Lucas no Porto.

 Nem sempre o processo de adaptação é simples, e isso é bom que fique claro. Conseguir emprego, não é fácil. Investir também não. Mas há boas perspectivas. Depois de passar por uma grave crise econômica, o país demonstra sinais de revitalização, seja na economia, nas artes e no turismo. Nos últimos anos, notícias dão conta de celebridades que se mudaram para lá - caso recente da cantora Madonna - ou têm casa para passar temporadas.   

Expressões

Na "vida real", se o propósito é vivenciar outras culturas, o melhor caminho é estar atento e procurar compreender os códigos locais. O fato de falar a língua-irmã facilita, mesmo assim há momentos em que as expressões causam alguns estranhamentos, assim como o vocabulário. Lá, chamar uma pessoa de "moça, moço" é ofensivo, durex é preservativo, casa de banho, banheiro, pequeno almoço, café da manhã... O processo de compreensão da maneira de ser dos portugueses pode ser demorado. Com o passar do tempo, vai-se entendendo melhor: aquilo que  parecia "grosseria" nada mais é do que a forma própria como eles falam.

É inevitável não incorporar alguns desses costumes. Como demonstram os cearenses entrevistados. Eles já mesclam naturalmente o português de Portugal e português do Brasil. "Pronto", "Beijinhos", "Tás a ver?", "Boa continuação" e, principalmente, a ausência de gerúndios.

Não há dados exatos de quem sai apenas do nosso Estado. O que mais se aproxima é o do Vice-Consulado de Portugal em Fortaleza, mas que tem jurisdição no Ceará e Piauí. Segundo o órgão, em 2016, foram registrados 246 pedidos de visto.

Desse total, a maior parte, 207, foi destinada aos estudos, 12 para religiosos, 11 com prova de rendimentos, 8 para trabalho e 8 para empreendedores. Em 2015, a procura foi maior, com 254 pedidos de visto. Isso só reforça o quanto ainda temos para aprender e também a contribuir com o país-irmão!  

Memória afetiva

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Viver longe do seu país tem um custo adicional: a saudade. Mas essa danada pode ser compensada por meio dos recursos tecnológicos, das redes sociais, ouvindo uma música, degustando comidas típicas ou mesmo apreciando um objeto que conseguiu levar na bagagem.

Vivenciamos esse sentimento dos nossos conterrâneos, quando coordenamos o estande "Artesanato do Ceará: Mãos que fazem história", na 40ª Feira Nacional de Vila do Conde, em Portugal. No evento, ocorrido de 22 de julho a 6 de agosto, recebemos as visitas de muitos destes residentes em terras lusitanas.

A rede de tucum armada no estande chamava a atenção de longe. Era o primeiro indicador da brasilidade, ou melhor, da cearensidade. A identificação com mobiliário de origem indígena tem razão de ser, afinal, cearense que se preza não vive sem uma rede para se espreguiçar ou dormir. As panelas de barro, as xilogravuras, as bonecas de pano, as esculturas em madeira, as cestarias, os cordéis e as rendas também provocaram fortes emoções nos visitantes.Muito além dos objetos expostos, o espaço despertou outro sentido: o paladar. Na parte gastronômica, a cearense Rejane Almeida, radicada em Portugal, produziu ao vivo deliciosas tapiocas. Quem não conhecia, queria experimentar, e quem experimentava, sempre repetia. Lá também era possível degustar a rapadura, as castanhas e os docinhos de caju. As iguarias eram servidas ao som da música nordestina, reforçando, assim, nossa identidade cultural.

A médica cearense Claudia Souza, residente em Vila Nova de Famalicão, na Região Metropolitana do Porto, fez a festa quando se deparou com um pedacinho do seu Estado. Só quem vive distante pode mensurar a saudade. Acompanhada do marido Albino, Claudia confessou: "é como se eu estivesse em casa", tamanho o aconchego e a riqueza proporcionados pela exposição. "É muito importante perpetuar o nosso artesanato, em especial as rendas de bilro e de filé, ambas herdadas dos portugueses. "Viva o Ceará. Viva Portugal", disse entusiasmada.

Angela Souza também foi tomada por uma forte emoção ao se deparar com estande promovido em parceria entre o Diário do Nordeste e Governo do Estado do Ceará/Ceart. Por todos os lados que olhava, era remetida às lembranças de Santana do Acaraú, sua terra natal.

Histórias como as de Angela, Claudia, Helena, Lionn e outras tantas nos foram reveladas espontaneamente ao longo dos 16 dias de feira. Para nós, que já tínhamos o propósito de conhecer algumas trajetórias de cearenses que vivem em Portugal para este DOC, foi surpreendente.

Até cearenses que não moram em Portugal apareceram no estande. Eugênia Engel é natural do Crato, mas vive no Canadá com o marido e as duas filhas. De férias em Portugal, ficou encantada com o espaço, em especial com a presença da rendeira Ana Maria da Silva, de Trairi, demonstrando sua arte ao vivo. Suas filhas, Sarah e Rachel não queriam mais fazer nada, a não ser aprender a tecer a renda de bilro, uma prática comum entre as crianças de Vila do Conde. Só foram embora com a promessa da avó de presenteá-las com uma almofada e também com uma rendeira/professora nas próximas férias no Ceará.

São essas histórias de vida compartilhadas que podem proporcionar uma maior valorização das nossas origens, da nossa cultura, independentemente do local em que estejamos vivendo. Levar um pouquinho do nosso sotaque cearense, do artesanato, da música, da gastronomia é dividir o que temos de melhor: o sentimento de pertença.

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