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Vai ter protagonismo social, sim!

Contra o machismo, a lgbtfobia, o racismo e a intolerância religiosa, blocos, maracatus e afoxés saem pelas ruas de Fortaleza neste ciclo carnavalesco. Como uma rua dentro da outra, mostram que na brincadeira também existe espaço para reivindicar a garantia dos direitos humanos

As integrantes do bloco “Damas Cortejam” resistem contra o machismo na folia e na sociedade ( Hiane Braun/ Divulgação )
00:00 · 25.02.2017
O Bloco das Travestidas reúne transformistas e travestis que buscam respeito à diversidade ( Jamille queiroz/Divulgação )

Há quem espere os dois ou três primeiros meses do ano terminarem para começar a "levar a vida a sério". Aquela história de que tudo só anda mesmo depois de o Carnaval passar. O período costuma ainda ser associado à máxima do pode tudo: beber demais, beijar demais, dançar demais, cantar demais - e é dessa liberdade que boa parte das pessoas se alimenta e que outra, vale ressaltar, prefere manter boa distância.

Mas existe  também uma movimentação, cada vez mais evidente em Fortaleza, e que vai um pouco além desses significados associados à festa. Trata-se do levantar da voz de mulheres, travestis, transexuais, negros e povos de religiões de matriz africana, que  ecoam nas ruas com música, confete, glitter e serpentina - um protagonismo social por muito tempo negado-lhes.

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Alguns estandartes que agora correm entre as mãos de multidões vêm simbolicamente carregados de mensagens políticas, seja contra o machismo, a lgbtfobia, o racismo ou a intolerância religiosa; e ajudam a fortalecer o discurso de quem faz do Carnaval um reflexo das lutas empenhadas durante todo o ano.

Dois dos mais jovens blocos fortalezenses que assumiram essa postura são  "Damas Cortejam" e  "Travestidas". O primeiro, declaradamente feminista, estreou em 2016 no pré-carnaval e voltou para o ciclo neste ano; já o segundo, uma reunião de travestis e transformistas pela diversidade, começou em 2017 e faz planos de continuar no calendário folião da cidade.   Mas, bem antes deles, os maracatus e afoxés que desfilam na Avenida Domingos Olímpio, a exemplo do Maracatu Az de Ouro e do Afoxé Acabaca, já levantavam as bandeiras de reafirmação da identidade negra e diversidade religiosa. E seguem guiados por esses ideais todos os anos.

Onde ela quiser

Formado exclusivamente por mulheres que assumem da diretoria financeira à musical, o bloco "Damas Cortejam" deixa explícito desde o nome à ideia de reivindicar um espaço mais ativo para elas. Advindas de baterias de pré-carnaval de Fortaleza, as integrantes chegaram juntas à conclusão de que faltava nesses grupos um respeito às suas opiniões - fosse na escolha de músicas objetificando a mulher ou nas reuniões sem a presença de algumas diretoras.

A primeira reunião das ritmistas identificadas com essas questões ocorreu em 2012. Mas só em 2016  as meninas resolveram colocar o bloco na rua. "A gente tinha tudo isso em mente, mas nunca achava que estava pronta para sai. No ano passado, também achava que não estava pronta. Foi uma confusão, com alguns deslizes, mas deu certo", lembra Sâmara Gurgel, que fica nos vocais, e toca chocalho, caxixi e agogô.

As integrantes esclarecem que no começo a ideia era a criação de um bloco "feminino", mas que o diálogo com alguns movimentos sociais levaram a identificação como um bloco feminista. Os cartazes com mensagens políticas espalhados pelo "cenário", as cores branca e lilás presentes no figurino e o repertório basicamente constituído por músicas compostas e interpretadas por mulheres - ou que enaltecem seu papel no mundo, enfatizam as reivindicações principais das garotas: igualdade de direitos e respeito.

Desde o aquecimento musical de pen drive que é feito na Praça da Gentilândia, no bairro Benfica - local onde o bloco saiu tanto no ano passado como neste - até a hora em que as damas assumem os vocais são mulheres que mais se ouve. Gal Costa, Maria Bethânia, Clara Nunes, Pagu, Rita Lee e Elza Soares são apenas alguns exemplos. E as canções ganham até mesmo uma repaginada, o caso de "Reconvexo" (Caetano Veloso), sucesso na voz de Maria Bethânia, toda adaptada para o eu-lírico feminino.

"Acho que tem algo acontecendo, mas concordo também que não basta mudar a letra se tem uma conduta, um posicionamento, que é cultural, que permanece, com ou sem letra machista, racista", afirma Sâmara. Ainda assim, essa preocupação é uma constante no bloco.

"A gente está o tempo inteiro se questionando se são músicas que reforçam, legitimam esse lugar de discriminação de grupos que são historicamente marginalizados não vejo porque continuar cantando", opina a integrante. Para ela, tocar outras canções e ver as pessoas se divertindo do mesmo jeito é uma prova de que o Carnaval não vai deixar de ser divertido se houver um cuidado maior com essas questões sociais.

E para auxiliar nesses processos, o bloco está em constante diálogo com coletivos feministas e mesmo com a Coordenadoria da Mulher.  "É importante dizer que a gente não está sozinha. Obviamente que ninguém vai conseguir fazer muito,  mas precisamos dar vários passos durante esse processo do Carnaval", defende Thaís Costa, que toca surdo. Com a coordenadoria, elas começam a articular a possibilidade de garantir uma portaria para que a Delegacia da Mulher se responsabilize diretamente pelos casos de assédio durante o ciclo festivo.

"A gente já criou um ambiente para que esse tipo de coisa não aconteça e ainda assim acontece. O que podemos tentar é nos prevenir ainda mais nas próximas, construindo novas barreiras,'armas' e argumentos para que esse tipo de coisa (assédio)não se repita mais", defende Michele, outra integrante do bloco que toca surdo.

Muito glitter na Iracema

Foi pelo direito a esse livre expressão que também se reuniram as travestis e transformistas do coletivo teatral que resolveu emprestar o nome ao bloco. As Travestidas, reconhecidas Brasil afora por espetáculos que mergulham no universo de gênero e sexualidade, apostaram na folia de Fortaleza como novo espaço de difusão das ideias que já vêm sendo somadas em pesquisas e apresentações há mais de uma década.

Com saída em todas as sextas de fevereiro, as integrantes movimentaram o trecho da Praia de Iracema mais próximo do Estoril numa festa semelhante à micareta, na qual não faltou nem mesmo o abadá.

Mulher Barbada e  Betha Houston assumiram os vocais da folia com um repertório que passeou por axé, frevo, marchinhas acompanhadas de uma banda que vive o Carnaval o ano inteiro em Fortaleza. Deydianne Piaf, Alicia Pietá, Patrícia Dawson, Yasmin Shirran e Karolaynne Carton também fizeram parte do cortejo que festejou a diversidade.

"A gente sempre percebe a necessidade de estar sendo inserida na sociedade, em vários aspectos.Então, por que não colocar essa figura da travesti e da trans nos pré-carnavais? Isso veio de uma vontade também do Silvero Pereira, em diálogo com o Denis Lacerda (Deydiane Piaf), de colocar  o bloco na rua, para mostrar que a travesti, a trans, é essa coisa alegre, viva. Desmitificar o que for contrário a isso", reforça Patrícia Dawson, mulher trans,que integra o coletivo e o bloco.

A cada saída do Estoril em direção ao  Mambembe,  o Bloco das Travestidas procurou enaltecer um elemento que fizesse referência à causa pela qual militam. No "Baile do Picumã", todos os foliões deviam ir de peruca. Com o  "Bota a Cara no Glitter", quanto mais brilho, melhor. O  "Baile das Montadas e Machudas" propôs a tradicional "festa do avesso". E teve até uma homenagem à extinta boate Divine, relembrando os shows de transformismo que marcaram a comunidade LGBT da cidade na antiga casa noturna.

"Percebemos que as pessoas entram na história, sem medo de ser feliz; é aquilo de se mostrar sem ser  julgado", completa Patrícia. Ela lembra ainda outra iniciativa estreante e com proposta semelhante: o bloco Iracema Bode Beat, que saiu aos domingos de pré, em um cortejo que levava o púbico da Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, à Praça Verde do Dragão do Mar. Nele, foi a travestida Yasmin Shirran que encarnou a famosa índia, personagem de José de Alencar, desconstruindo um padrão no imaginário dos espectadores.

"Ter essa resposta positiva do público, afinal, as pessoas adoram e esperam sempre que o coletivo esteja fazendo algo novo, é muito legal. Quem sabe, não vêm aí uma Semana Nada Santa das Travestidas, ou ainda um São João? Tenho certeza de que as pessoas vão aderir bem, temos muito capricho, pensamos tudo com bastante carinho. Além de conquistar  o nosso público fiel, vamos conquistando outras pessoas", finaliza.

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