Reportagem A força do Perdão

Uma vida, muitas setenças

Paulinha
00:00 · 15.04.2017

Ter nascido num corpo de homem e se sentir mulher desde criança foi a primeira das sentenças de Francisco Diego Oliveira da Silva, ou simplesmente Paulinha, 21 anos. Na adolescência, desprezada pela família, recorreu à prostituição para ganhar a vida e estudar. Formada em técnica de enfermagem, foi seduzida por uma quadrilha e passou a servir no mundo do crime. Aos 18 anos, já estava presa, e com mais outra sentença: 11 anos de detenção. Atrás das grades, desacreditada de tudo, veio o perdão inesperado de seu irmão, um pastor evangélico que também a desprezava.

Ao recordar o dia em que ele foi visitá-la, Paulinha se emociona. "Antes de ser presa, eu cheguei a puxar uma faca para o meu irmão, pois ele não me aceitava. Éramos como dois estranhos". A única pessoa que podia contar era uma tia, mas ao ligar para informar-lhe sobre a detenção, ouviu dela: "Eu falei pra você". E desligou o telefone.

. DOC: A força do Perdão
."Milagre do Espírito Santo"
.Reconciliação em família
.Sentimento libertador
.Aprender a perdoar

Em meio ao depoimento, as lágrimas escorrem, e, aos poucos, a maquiagem vai se decompondo. Mesmo assim, sua beleza não se desfaz. Com olhar cheio de vida, sobrancelhas bem feitas, cabelos longos e negros, tatuagens e piercings, revela uma personalidade vaidosa, inquieta e sensível. A reconciliação com o irmão, a tia e outros familiares foi o maior presente que poderia ter recebido.

Na Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, no município de Aquiraz, onde cumpre pena, é responsável pela lavanderia. Fora a obrigação, é engajada nos projetos de teatro, coral e demais oficinas promovidas na Unidade. "Se precisar, eu troco as cordas do violão, eu limpo, estou sempre fazendo algo, mas a minha grande luta é pelo público LGBT, pelos negros, idosos e doentes que estão presos".

Paulinha está numa unidade específica para atender a este público, mas ressalta o sofrimento que foi até ser transferida para o local. "Geralmente, a primeira coisa que fazem com a gente é cortar os nossos cabelos e também obrigam a vestir roupa de homem. Não é pelo fato de estarmos presas que vamos perder a nossa dignidade", ressalta.

Órfã de mãe aos oito anos e desprezada pelo pai, pelos irmãos e vizinhos, aos 10 anos foi morar com os avós maternos. Não tinha ao menos o registro de nascimento nem havia frequentado a escola. Em pouco tempo, fez o supletivo e, em seguida, o curso de auxiliar de laboratório e análises clínicas, pago com o dinheiro da prostituição. Conseguiu estágio num grande hospital, mas lá também foi rejeitada. A única função atribuída era a de empurrar maca.

Até que um médico começou a dar oportunidade à jovem, levando-a para o auxiliá-lo no centro cirúrgico. Ela não imaginava que o aprendizado teria um preço. Logo foi contratada para trabalhar numa clínica clandestina, com salário de 4 mil reais. Aceitou a oferta, pois desejava cursar uma faculdade e não viver mais da prostituição. Ao chegar lá, descobriu que se tratava de uma clínica especializada para atender foragidos da justiça. Como já estava comprometida, não teve mais volta. Aquilo que parecia ser a grande oportunidade na vida de Paulinha, foi a porta de entrada na escola do crime.

Apesar do desprezo da sociedade e da condenação na justiça, reencontrou-se emocionalmente. Com a ajuda do irmão e demais familiares, ela começa a reconstruir um novo capítulo de sua história. Há um ano e três meses, está com um companheiro que também cumpre pena. "A mãe dele é evangélica, mas aceitou o nosso relacionamento", festeja.

Quando sair da prisão, deseja fazer a cirurgia para a mudança de sexo e resgatar os laços com o filho, Caio Vitor, 6 anos, fruto de uma relação, a única, que teve com mulher. À época, a mãe não acolheu a criança, e Paulinha assumiu a "maternidade". Fã de Cássia Eller, gosta de cantar e, ao ser desafiada, não pensa duas vezes para entoar um clássico da música nordestina: "Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó..." .

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