Reportagem Alternativas

Uma outra busca dos afetos após a seca do rio

Francisco Borges já madruga na roça à beira do açude e quase não vê o sol nascer na cidade de Jaguaribara
00:00 · 27.01.2018

Desde que aumentou a dependência de Fortaleza das águas do Jaguaribe, via Castanhão, o açude ganhou em destaque, é relembrado quanto menos água tem. A água parece nascer da torneira, até a caixa d'água ficar vazia. O quadro hidrográfico do açude é uma leitura da agonia. A seta só desce. Parece a autoestima de tantos, com a diferença que esta declina há mais tempo, mas ninguém quer ler. Com o açude beirando 2% de reserva, o mais recente lamento sertanejo é ter bebido do remédio amargo que, pelo retrato de agora, não curou nenhuma doença da seca. Contudo, a maior sequidão dos moradores de Jaguaribara não é lhe terem tomado as águas, mas suas margens.

Há 17 anos, a velha cidade foi removida para dar lugar ao Castanhão. O impacto de deixar a beira do rio só não foi maior para Chico Dé (Francisco Borges, 69 anos) porque até hoje, todos os dias, ele sai na madrugada "pra procurar o que roçar" na ribeira. É sua maneira de recompor as beiras. "Eu quase não vejo o sol nascer na cidade. Quando nasce, já tô lá, na luta. Antes, só voltava à tardinha, mas com a idade pesando venho mais cedo".

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Para provar que não é triste só, sugere que vá a qualquer casa dos amigos vizinhos para falarem da falta. Já tinha achado muito quando, ainda na Jaguaribara velha, teve que comprar uma casa na parte urbana para ficar perto da escola dos cinco filhos. Para provar que é alegre, aponta para a porta de casa e diz: "quem quiser, bate na minha porta, mas nunca devi a ninguém. O que eu consegui foi com minhas próprias mãos, com o que Deus me dá, por isso eu sou grato demais".

Depois de obrigada a sair, a comunidade tenta se obrigar a ficar. Quem nasceu no ano da mudança, em 2001, tem hoje 18 anos incompletos e coleciona lembrança dos outros como alicerce de afetos e, mesmo não tendo uma casa antiga para lamentar a saudade, muito lentamente reconhece a Jaguaribara nova como seu território. E é preciso reconhecer que esse trecho do Jaguaribe tem outras margens.

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A seca do Castanhão, cujas beiras recuaram mais de 10 quilômetros, causa a morte do gado, abandonado após a difícil escolha do dono de ir sozinho

A psicóloga Fátima Maria Araújo Bertine, para sua tese de doutorado pela PUC, estudou o impacto da mudança de território para os moradores de Jaguaribara, e comparando as diversas faixas etárias pode traçar um mapa dos afetos. Enquanto o sentido de pertencimento e alegria com a nova terra ficava com as crianças, para os jovens e os mais velhos pairava a incerteza. Some-se a isso a violência urbana, também no consumo de drogas, que cresceu vertiginosamente, ao ponto de em 2009 a cidade pontuar em 7º em número de furtos e uso de drogas no Interior.

Na comunidade de Vila Marizeira, menos conhecida pelo nome do que "por onde se avista a barragem do Castanhão", moram pessoas cujo sustento é a aposentadoria ou algum rendimento da agricultura. A vila é rica de pobres egressos da produção de tilápia em cativeiro, projeto econômico que entrou na categoria de "promessas das águas". A produção nos criadouros caiu 90% - chegou a 12 mil toneladas de peixe em 2014, para pouco mais de mil em 2017.

"Tá faltando emprego nessa cidade. Precisa trabalho pra mãe de família", diz a vendedora ambulante "por tentativas" Meirilane Martins. O rendimento na sua casa é o Bolsa Família. A única filha, Mariana Martins, sonha conhecer o pai, que só aparece na forma de pensão alimentícia de vez em quando. As águas do açude, por trás de casa, seguem todo dia para Fortaleza. O desejo é um dia fazer o mesmo, pois tem seu endereço e telefone.

"A gente espera que Deus mande uns bons tempos, que se não mandar estamos ferrados. Só temos ele. Quando tava aquela abundância, falei: 'vocês não vão se achar muita coisa, procure economizar, pra não faltar. Hoje, tá aí. O açude encheu em 17 dias, que todo mundo achava impossível. Então, soltavam água do rio dia e noite. Hoje, está fazendo falta".

Lugar de aceitação

Se a ocupação do litoral cearense deu-se de costas para o mar, não espere muito para o Jaguaribe, sempre um território meio, de passagem, não um fim. E na cidade que leva o nome do rio, as águas atravessam a zona urbana e passam pouco percebidas. O trecho mais urbano é impróprio para banho - e mesmo que mais adiante também seja, não ver um esgoto calhando diretamente é não lembrar da poluição.

É na parte mais invisível, no entanto, que Edna e Augusto se escondem sob o sol escaldante sem ser incomodados. O casal de mendigos ciclistas saiu de Cabrobó, em Pernambuco e, sem imaginar, percorre o caminho que, um dia, espera-se seja o das águas do São Francisco para o Ceará.

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Edna faz o almoço para o companheiro e três cachorros à beira-rio no município de Jaguaribe

Não têm rumo certo, pois o principal destino era sair de casa, um jeito de Edna evitar que a mãe a interne em hospital psiquiátrico. "Louca é ela. Mas eu amo minha mãe".

Chegamos na hora do almoço: porco cozido, temperado com cenoura e batata, e macarrão. O fogão é improvisado em cima de uma pedra gigante, que em parte vai até o leito e só é menos quente que o carvão torrando embaixo da panela.

Edna Andrade tem 49 anos, mas provavelmente seria aceita sem contestação numa fila para idosos. Falando com pressa, olhar enviesado para cima e uma faca de mesa na mão esquerda, descreve as cidades por onde passou e onde quer chegar. Com a familiaridade de quem viveu um pouco de cada lugar, deixou claro que sabe percorrer o rio muito melhor que nós.

O rio está longe de ser seu interesse, mas é caminho que ninguém mexe. Já que mal são vistos, podem se banhar e dormir com os três cachorros que adotaram da rua.

Anoitecendo, vão os cinco para o terminal rodoviário - também lá ninguém mexe. O casal conta nos dedos uma média de dias que quer ficar - pode levar um mês - até a comunidade "anfitriã" ficar familiarizada.

Sem conseguir, de fato, fazer grandes planos, o casal segue perambulando. Com Edna sempre falante e Augusto não, fingindo que dorme quando alguém se aproxima, deixando que a mulher dê suas respostas, inventadas ou não.

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