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Um pedido a São José

Celebração a São José no sítio Forno Velho, zona rural de Cedro. Foto: Fabiane de Paula (19/03/2016)
00:00 · 18.03.2017 / atualizado às 11:11 por Melquíades Júnior - Repórter

"Eu só queria que antes de ficarem olhando pro céu e esperando a previsão do tempo na televisão, também olhassem pra dentro de si e pra própria fé, porque não importa o que diga a ciência, para milagre não há palavras". Mesmo balançando afirmativamente ao sermão do Padre Damião Coelho, Manuel de Jesus espera o "grande dia" com um olho no céu, outro no santo. Todo ano ajuda a carregar a imagem de São José, Padroeiro do Ceará, na comunidade de Forno Velho, no Cedro. Após seis anos seguidos de seca, coloca para si que será um ano melhor. Não só porque já está chovendo e não perdeu a fé, mas que até as tragédias têm intervalo. Se já viveu seis anos de inverno bom para cada um ruim, aceita a inversão.

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O que se planta em março, de São José, continuando a chuva se colhe em junho, de Santo Antônio, São João e São Pedro. Todos de algum modo associados à fertilidade, pelos preceitos católicos. Para os crentes, se chove em 19 de março, é sinal de bom inverno. Para os científicos, o equinócio (o sol passa do hemisfério norte para o sul) incide com maior probabilidade de chuvas nas regiões próximas à linha do Equador caso de grande parte do Nordeste. Para Fátima, esposa de Manuel, mais uma festa a se preparar na capela do Sítio Forno Velho, no Cedro. A imagem de São José percorre a comunidade até chegar ao pequeno altar de onde padre Damião celebra a cerimônia.

"Teve um ano da procissão na chuva, a coisa mais linda", lembra a cuidadora da capela. Mas Fátima também é daquelas de ir para roça. Vive o sertão como um todo. Vê a água que cai do céu como bênção. É possível viver com o mínimo de água, mas não faltando milho e feijão, dependentes da chuva. Já sabe a roupa que vai usar neste fim de semana. Arruma-se para a missa de domingo e, se voltar de roupa banhada e cabelo desfeito, deu certo. Porque "quando chove, dá pra sentir Deus".

Na folha da igreja, pelo menos três cânticos vão tentar uivar com o vento cortando os roçados que rodeiam as capelas. Um pedido de vida: "Aqui estou em vossos pés, meu divino São José/ Dai-nos chuva com bonança, meu Jesus de Nazaré. Pela Cruz que traz na mão, meu divino São José/ nem de fome nem de sede/ não mate seus filhos não".

Se a água da chuva tem forte significado, inclusive simbólico, para o sertão, mais ainda representa a que cair em dia de São José. "É porque a gente vai plantando enquanto o tempo se forma. Mas todo março chove. Se chover no dia de São José, aí continuo plantando. Se não, é esperar pra colher o que já foi plantado. Mas assim: a gente perde a colheita, mas não perde a fé. Se não, vai viver de quê?". Italvino Rodrigues, que não nega a sobrevivência, já perdeu terras para a seca, filho para o álcool e a esposa para o tempo. Para não pensar besteira, o viúvo de 63 anos passa o dia na roça. Queimou as brocas limpando o terreno e jogou as sementes, enquanto tenta renascer um pouco de si com a terra, feito ventre de areia e argila, esperando nascer feijão e milho. É um jeito de não ser triste na cidade que, às vezes paradoxo, chama-se Várzea Alegre.

Mas afinal, vai chover? Os radares meteorológicos registram precipitações há 12 dias seguidos em diferentes regiões do Ceará. Nenhuma delas será mais importante para o sertanejo que as deste fim de semana. No escritório da Funceme, em Fortaleza, as imagens de satélite mostram nuvens carregadas em boa parte do Ceará para este fim de semana. No mesmo estado, 19 paróquias e centenas de capelas em vilas do Interior preparam-se para a procissão de domingo. Centenas de milhares estão previstos no festejo cristão. Como não há satélite para a fé, a esperança é de quantos voltarão encharcados.

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