Reportagem Pesca com compressor

Um mergulho para invalidez ou morte

De Rio do Fogo, Jailson conseguiu sobreviver, mas muitos de seus amigos não tiveram a mesma sorte
00:00 · 25.11.2017

O médico avisou a Jailson Roberto que ele não era peixe, e não tentasse ser. Isso porque mergulhava por mais de quatro horas à cata de lagosta no fundo do mar. Nada era menos que dez braças, ou 20 metros abaixo. Mas homem, não sendo peixe, precisa de paradas descompressivas antes de emergir, em níveis de profundidade e pressão atmosférica menores. Um tempo calculado que fique flutuando até liberar o nitrogênio que se acumula no corpo. Jailson era um homem que não calculava.

Em Rio do Fogo, no Rio Grande do Norte, homens arrastam os pés pelas ruas com auxílio de muletas, outros estão sentados em cadeiras de rodas. São ex-pescadores de mergulho.

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Após sofrer descompressão, Inácio deixou de pescar e dedica-se ao talhe em madeira

Esse manejo é comum pela produtividade gerada - até 20 vezes maior que o uso de manzuá. Acontece da seguinte forma: um compressor de ar (dos mesmos usados em borracharias ou pinturas) se liga por uma mangueira até um botijão de gás vazio, que serve como balão de reserva do ar, que segue por uma outra mangueira com dezenas de metros de comprimento até a boca do pescador, que chega até 50 metros de profundidade.

Quanto mais fundo, maior a pressão em todos os órgãos do corpo. O ouvido é o calcanhar de aquiles do mergulhador, sofrendo uma pressão que pode estourar o tímpano. O pulmão reduz em mais da capacidade de oxigênio. Nitrogênio, em forma gasosa no sangue, passa a se transformar em estado líquido. Em subidas rápidas, sem descompressão, a substância retorna muito rapidamente ao estado gasoso formando bolhas, o que pode causar embolias.

Jailson estava no mar de Cajueiro, vizinho a Rio do Fogo, quando desceu para mais um dia de pesca. Subiu com fortes dores de cabeça e no peito, mas deitou na embarcação até se sentir melhor. No momento, pensou que era só mais um dia cansativo de pesca. Visto de hoje, já pensa que era o pré-mergulho da morte. "Porque no dia seguinte eu voltei pro mar. Encontrei meus dois amigos e fomos". A dor de cabeça se repetiu na subida, e antes de chegar à terra firme as pernas não respondiam mais.

"Eu fiz foi sobreviver. No ano seguinte, foi a vez dos meus dois colegas de barco. Me lembro como se fosse hoje: Artur chegou pra mim dizendo que já tava velho demais, ia fazer o último mergulho. Desceu e subiu. Mas quando voltou não mexia perna nem nada, só a cabeça dando sinal que tava vivo". Respirou o último ar.

"Já o Belém foi outro: foi pro enterro do Artur com uma dor no peito, morreu no dia seguinte". Segue uma procissão dos vivos comum neste pedaço de mar: corrida até o Centro de Medicina Hiperbárica de Natal, capital do Rio Grande do Norte, a 94 km. Lá, os mergulhadores são submetidos a Oxigenoterapia dentro do equipamento com uma pressão que simula a exercida no mergulho.

Casos são subnotificados

Conforme a Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Norte, em três anos foram pelo menos quatro mortes por descompressão. "Mas ainda achamos que haja uma subnotificação. Por saberem que a pesca de lagosta com mergulho é uma atividade ilegal, os donos de barcos chegam a relatar que o tripulante sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou parada cardíaca, e quase nunca há investigação", explica o médico Marcelo Linhares, do Centro de Referência da Saúde do Trabalhador (Cerest) de Natal. Do lado do Ceará, são registradas ocorrências semelhantes, também encaminhadas para a capital potiguar.

A cultura do mergulho é anterior à legislação que a proíbe, daí a resistência de mudança. Mas, para o artesão José Nilson de Lima, conhecido por Inácio, o problema não é o mergulho, mas a falta de instrução. Há 20 anos, encerrou a carreira de pescador após emergir sem o movimento das pernas.

De lá para cá, dedica-se ao talhe em madeira, criando quadros e esculturas, inclusive, de lagostas, em que leva até 30 dias esculpindo. "É o meu jeito de viver hoje, mas falta muito ser valorizada essa arte ainda. Custa muito pra vender uma peça tão trabalhosa e tão barata.

Viúva do compressor

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Joana Lourenço perdeu o primeiro marido há 40 anos. Josivaldo morreu no mar vítima de embolia, causada pela pesca com mergulho, no Rio Grande do Norte

Se uma parte da comunidade pesqueira em Rio do Fogo caminha de muletas, outra se arrasta nas memórias dos que ficaram. Joana Lourenço chora ao lembrar de Josivaldo. Primeiro namorado, jovem, porte atlético, que um dia viu a sentença pelo avesso: pescado pelo mar.

Estava deitada logo após o almoço quando veio a notícia indigesta e sem arrodeios: Josivaldo morreu no mar. "Cala a boca, pra Joana não ouvir", disse a sua mãe, mas "eu já ouvi". Levantou-se rapidamente da cama e, como se emergisse de mergulho e sofresse uma embolia gasosa, perdeu a força das pernas e caiu no chão.

A descompressão, no entanto, foi em Josivaldo Gomes. Estava no segundo mergulho quando emergiu com forte dor de cabeça. Erivando, colega de embarcação, pediu que não descesse mais, iria só. O dono e mestre do barco não gostou da ideia, afinal tinha um custo para mantê-los ali. Acostumado a não dever nada a ninguém, Josivaldo desceu, mas foi para sempre.

Joana estava grávida de três meses de Josivânia, primeira filha do casal. Emocionada, como se sentisse tudo novamente, a viúva não lembra que foi há 40 anos. "Essas coisas não têm tempo. Ele era um homem muito bom. Pescava só lagosta no mergulho, mas nunca pensava que fosse acontecer com ele".

"Depois eu conheci outros, me casei de novo, mas não tem como ele". Josivânia deu três netos, que, assim como ela, não conheceram o homem que projetam como um guerreiro que um dia o mar quis levar. E como se fosse uma sina, todo entardecer Joana olha para o fim da rua, onde cruza o mar, à espera de Dica, atual esposo, também pescador de mergulho. Este já adoeceu de embolia, mas ainda está de pé. Com a seca da lagosta, tenta pescar polvo, valioso no mercado, e peixes para a esposa cozinhar em casa. Basta apenas que ele volte com a maré.

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