Reportagem DOC

Tratamento envolve terapia e remédios

Psiquiatra Tatiana Pinho alerta que o número de pessoas que busca ajuda aumenta a cada dia (Foto: Reinaldo Jorge)
00:00 · 12.08.2017 / atualizado às 08:42 por Textos: Lêda Gonçalves / Fotos: Nah Jereissati e Reinaldo Jorge

Apesar de os distúrbios pelo uso não saudável de Internet e jogos eletrônicos serem recentes, os especialistas alertam que é preciso cada vez mais atenção. "As novidades neste século não têm precedentes. No entanto, a gente não deve demonizar a tecnologia, mas aprender a lidar com ela", aponta a psiquiatra Tatiana Pinho. Ela integra a equipe de multiprofissionais do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), cujo ambulatório é um dos únicos do Brasil a tratar essa e outras patologias relacionadas. Ela explica que para ter acesso, é preciso encaminhamento de um posto de saúde. "A procura tem aumentado. Há muitos quadros de ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, sedentarismo. Alguns abandonaram trabalho, faculdade".

> Dependentes digitais
> O tempo nas (des)conexões da Internet
> Quando a necessidade vira vício
> Nomofobia: quando o celular vira obsessão
 
Campanha

A questão é tão grave que o Governo do Ceará decretou Lei que institui a Campanha Permanente de Orientação, Conscientização, Prevenção e Combate à Nomofobia no âmbito estadual. O termo nomofobia (do inglês "no-mobile-phone phobia") relaciona-se ao desconforto ou angústia causados pela impossibilidade de comunicação por celulares, computadores, tablets e outros dispositivos. Um convênio entre as secretarias de Saúde e Educação estabelecerá período da campanha, que deve constar no Calendário oficial de eventos do Ceará.

A psiquiatra Tatiana Pinho diz ter observado que o atual momento de crise no País tem gerado insatisfação de muitas pessoas com suas vidas, passando, então, a imergir no online para "fugir" da realidade.

Segundo ela, a questão é até física. "Jogando, são ativados alguns neurotransmissores em nosso cérebro, que estão associados à sensação de prazer, a dopamina, endorfinas. Então, algumas pessoas se viciam nessas substâncias e sensações e procuram jogar mais e mais para manter isso, que não encontram em outras áreas de sua vida, ou para compensar dificuldades, tristezas, perdas. Isso também se observa em outras plataformas como smartphones e computadores, onde se passa maior parte do dia checando mensagens, quem curtiu o quê, se o que postou teve cliques, muitas vezes deixam de dormir por isso", analisa Pinho.

A psicóloga Verônica Landim, da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que a dependência digital ocorre quando um indivíduo passa a se desvincular da sociedade para permanecer mais tempo em frente a um computador ou outros aparelhos eletrônicos. Os dependentes não conseguem controlar seu uso com a vida real e social, o que pode, além do isolamento, provocar desconforto emocional, ansiedade, agitação, irritabilidade, depressão, perturbação, transtorno-obsessivo-compulsivo (TOC) e outros.

Quando ocorre em adultos, a dependência digital pode ser tratada com psicoterapias, mas quando o problema afeta crianças e jovens, é necessária, além disso, a interferência da família quanto ao uso do computador - que pode ser feita colocando o equipamento em local visível aos pais, estipulando horários para a utilização, invertendo os horários estipulados para navegação, bem como restringindo acesso aos sites visitados compulsoriamente.

"Não chamo de transtorno psiquiátrico, e sim de sofrimento psíquico, nem considero uma doença no meio de um ambiente saudável", afirma a professora e integrante do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fátima Severiano. Para ela, vivemos numa recente forma cultural, uma nova sociedade a partir do advento das tecnologias digitais, o que chamamos de tecnocultura. "Ela veio colocar novas formas de ser, de sentir, pensar, amar, relacionar-se, enfim, é uma mudança bastante significativa que nos demanda uma série de novas ideias", diz.

A nossa cultura, aponta, nos requisita muito. "Carregamos os dispositivos como próteses de nosso corpo, a toda hora, em todo lugar. As telas de nossos smart ou outros aparelhos nos enviam determinados 'ideais' que nos instigam a atingi-los - de reconhecimento social, profissional, de relacionamentos, de beleza, de juventude. É preciso ter a consciência de que são efêmeros e nunca vamos alcançá-los".

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