Reportagem Ramal ferroviário

Trânsito potencializou a economia na cidade de Sobral

A Estação Ferroviária de Sobral, de 1882, vem sendo consumida pelo tempo e pela falta de manutenção, mas a Prefeitura promete revitalização
00:00 · 24.03.2018 por Marcelino Júnior - Repórter

Hoje, o VLT representa o que há de moderno no transporte em Sobral, mas, ao circular por parte do ramal ferroviário até a estação do Bairro Sumaré, periferia da cidade, o passageiro se depara com uma completa imagem de abandono. Consumido pelo tempo e pela inegável falta de manutenção, o prédio da Estação Ferroviária de Sobral, inaugurado em 1882, que ajudou a impulsionar o desenvolvimento social e econômico da região, não representa, nem de longe, os áureos tempos de transporte de pessoas e riquezas.

Desativado em 1988 para o deslocamento de passageiros, aos poucos, o local foi sendo utilizado para outros fins. Apesar do movimento de funcionários da rede que mantém ativo o serviço de transporte de cargas e consertos das máquinas, a Estação foi transformada em depósito de lixo e ponto de encontro para desocupados e usuários de drogas.

Na parte interna do prédio, toda a estrutura apresenta rachaduras nas paredes, janelas, portas e telhas quebradas, piso danificado e lixo. No entorno, o mato se espalha por toda a entrada, ocupando o que antes era um jardim. Em parte da área, se acumulam lixo doméstico e restos de materiais de construção.

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"Eu fico triste, quando vejo esse espaço abandonado, se acabando com o tempo. O local é perigoso, tanto à noite, quanto de dia", revela o autônomo Marcos Batista, que aguarda a execução, por parte do Município, do projeto de revitalização e urbanização do importante prédio.

De acordo com Marília Lima, secretária de Urbanismo e Meio Ambiente de Sobral, o Município já finalizou o projeto executivo que cria o Parque da Estação. "Ele contempla uma área permeada de jardins, equipamentos de esporte e lazer, assim como quadras esportivas. Os moradores serão contemplados com a construção de um terminal de transporte intermunicipal. A antiga estação será restaurada, abrigando uma escola de artes visuais. A área passará por uma grande requalificação, que valorizará, ainda mais, o patrimônio histórico e arquitetônico", adianta a secretária, que aguarda o processo de licitação da obra, ainda para este semestre.

A Estação Ferroviária de Sobral foi tombada em 1982 como patrimônio da extinta Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (Rffsa), que circulou por boa parte do País, por cerca de 50 anos. Criado no fim do século XIX, para aproximar o Porto de Camocim, no Litoral Oeste, aos sertões de Sobral e, posteriormente, ao Piauí, ampliando as conexões comerciais, a Linha Norte da Estrada de Ferro transformou por completo a realidade local, com o transporte de pessoas e o escoamento da produção. Ao longo desse trajeto, vários povoados foram se formando e, com o tempo, buscando sua identidade política e social.

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Mudança

O maior transporte terrestre de massa, até então, trouxe consigo o progresso, com o incremento na comercialização de produtos, a modernização urbanística e a mudança nos costumes, dando a cada local uma nova dinâmica em torno da Estação.

Em Martinópole, por exemplo, a chegada e partida do trem era um grande evento, principalmente para o menino José Manoel de Lima, que vendia milho cozido na Estação. Hoje, aos 61 anos, ele é o bibliotecário responsável pela Biblioteca Pública, instalada no prédio da Estação, com um acervo de quase quatro mil livros. "Foi um tempo muito bom de crescimento para a cidade, até a desativação do Ramal de Camocim. Me alegro em ter vivido aquilo tudo e hoje trabalhar aqui, na área da Educação", se orgulha.

Trajeto

Substituída pela estrada de asfalto, a viagem de trem, partindo de Camocim, seguindo por Granja e Martinópole, também tinha em Uruoca outro fervilhante ponto de parada. Quando o apito do trem soava, o sobe e desce de pessoas dava uma outra dinâmica ao povoado.

Hoje, o prédio da Estação acomoda o Centro de Artesanato Uruoquense, apoiado pela Secretaria de Desenvolvimento Social, que trabalha ações de empreendedorismo e renda. Segundo a subsecretária da Pasta, Zuleide Fujihara, o local é ocupado pelo grupo Uruarte. A estrutura também serve como "Casa do Papai Noel", durante o período natalino.

"É um privilégio ainda poder ver todo esse patrimônio preservado e saber de onde surgiu nossa cidade. O Município trabalha a criação de um livro histórico, agora em fase de pesquisa de dados, rememorando todo esse aparato. A Prefeitura também pretende instalar, na Estação, um dos antigos vagões de trem, a ser utilizado como ponto de apoio para recontar esse passado aos nossos jovens", adianta com orgulho Felipe Lima, ouvidor do Município.

Primeiras edificações

Distante cerca de 45 minutos de Sobral, o município de Senador Sá, com cerca de 7 mil habitantes, se mantém economicamente por meio do funcionalismo público e da agricultura de subsistência. O prédio da Estação Ferroviária, ainda de pé, abriga a Secretaria de Desenvolvimento Social e o Conselho Tutelar. A Estação, inaugurada em 1881, ajudou a desenvolver o antigo povoado de Pitombeiras. A intensa movimentação trouxe sua emancipação política em 1957, com apoio do senador Francisco de Sá. "Mesmo considerado um local de passagem, o comércio se intensificou, atraindo mais pessoas. A estrada de ferro ajudou a criar o Município. Eu fiz alguns trabalhos recontando toda essa história, inclusive, a tristeza da última viagem, em 1977, com a instalação da rodovia, que mudou tudo", diz o historiador Wagner Freire, 33.

De fazenda a município

Entre os municípios de Senador Sá e Sobral, a construção de mais uma estação ferroviária, no fim do século XIX, mudaria significativamente a realidade da Fazenda Massapê, à época ligada ao município de Santana do Acaraú. Com a inauguração, em 1881, o lugar ganhou status de vila, onde embarcavam e desembarcavam pessoas de diversos lugares. "A chegada desses novos moradores movimentou o comércio e consolidou uma nova dinâmica ao futuro município. Após pouco mais de 40 anos da desativação da Ferrovia, a Estação se encontra sem nenhuma utilidade. Na verdade, o prédio necessitada de reforma urgente", destaca o professor e historiador Tremal Soares Carvalho, autor do livro didático "Conhecendo Massapê", onde reconta um pouco da história da Ferrovia.

Riqueza

Ao longo de toda a trajetória que sinaliza o desenvolvimento da região Norte, por meio da estrada de ferro; o gado, o algodão, a carne de charque, o café e o óleo de oiticica, planta nativa da Caatinga, cujos frutos são úteis na extração de corantes naturais e produção de biodiesel, tiveram, cada um, seu auge na antiga balança comercial de importação e exportação da riqueza desses lados do Ceará.

"Nosso porto inicial era o de Acaraú, mas com a desvalorização comercial do charque, Camocim começou a se destacar, recebendo outros produtos vindos dos povoados criados ao longo da Estrada de Ferro, que seguiam com destino à Europa e aos Estados Unidos, por meio de grandes embarcações", ressalta Antônio Washington Frota, juiz de Direito da Comarca de Camocim e amante da história da Ferrovia.

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