Reportagem Vaqueiros

Tradições ainda resistem em meio às mudanças

A devoção está presente no dia a dia dos vaqueiros que desbravam o sertão
00:00 · 19.05.2018

A estudante de História Adileia de Alencar Silva pesquisou sobre os vaqueiros tradicionais neste Município do Cariri cearense e acredita que os "vaqueiros afamados" têm, de forma simples, tentado manter a tradição. Como uma herança de pai para filho, os mais antigos não buscam fazer uma diferença ou criar um conflito entre eles e o "vaqueiro de pista", mas esperam que as pessoas conheçam a origem desta profissão e sua importância.

Para isso, por exemplo, alguns mantêm a prática de "pega de boi" no mato, principalmente, nos fins de semana, que acontecem nos bairros do Lameiro e Batateira, locais mais afastados da cidade. "Eles acabam fazendo a brincadeira de soltar uma 'reis' só pra correr e pegar", descreve Adileia. Por diversão, eles apostam um litro de cachaça, por exemplo.

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Para eles, é importante inclusive, subir a serra portando gibão, chapéu e perneira, mesmo quando não vai "lutar" no mato. "É uma forma de assumir uma identidade. Hoje, se vê muito as pessoas tangendo de moto e tudo isso para eles é importante. Desde o cavalo, até a vestimenta de gibão. Muita gente pode até dizer que o cara tá ficando doido, mas, para eles, é importante", completa a estudante.

Devoção

Outro elemento alinhado é a fé. Por isso, muitos portam imagens de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Fátima e a padroeira local, Nossa Senhora da Penha, pedindo proteção.

Esta resistência, sem luta ou conflito, se dá de várias formas, principalmente, quando promovem encontros na casa de alguns vaqueiros para relembrar experiências antigas. "Uma resistência invisível", explica Adileia

Alguns vaqueiros sentem falta de uma participação mais expressiva na principal festa do Município, a Exposição Centro-Nordestina de Animais e Produtos Derivados (Expocrato), mas, por conta própria, aparecem vestidos no couro, cantando os aboios. As cavalgadas, que reúnem dezenas deles também são importantes formas de se reencontrarem o passado. Na Missa do Vaqueiro, em Serrita (PE), por exemplo, o Cariri reúne aproximadamente 300 vaqueiros.

Vaquejada

Ao longo dos anos, a profissão vaqueiro foi se transformando, desde o mais tradicional, que cuidava de gado, o "trabalhador livre", até o esportista, que atua nas fazendas e disputa competições. No entanto, tudo começou no dia a dia, na rotina do campo, e tomou conta dos grandes parques. José Fábio Soares, 54, foi um dos primeiros a "correr" em Crato. Seu pai, Sebastião Barros, companheiro de viagem de Antônio de Lu, já era um vaqueiro "afamado", como dizem.

No tempo de Fábio, pouco gado fugia porque a maioria das fazendas já estava toda cercada. "Do meu tempo para cá tinha menos pegas de boi", conta. Por cinco anos, ganhava um salário mínimo para cuidar de gado, mas hoje, se vira de todo jeito, inclusive, se mantendo vaqueiro. Em 1981, ganhou um dos primeiros cavalos de raça do Crato, que batizou de "Az de Ouro". Foi com ele que disputou as primeiras vaquejadas, como puxador. "Naquele tempo, todo mundo corria. Hoje em dia, é só os dotô", provoca. "Nós fizemos uma pista e começamos a treinar. Nos anos 80, era só essa nossa diversão mesmo. Era bom demais", lembra. Logo depois, o esporte tomou conta e, de certa forma, atraiu as pessoas. "Ganha muito dinheiro, mas só é para quem tem dinheiro. Hoje em dia, não tem mais cavalo pé duro", lamenta.

Já Raimundo Procópio, 56, morador do Sítio Correntinho, largou a vida no mato para apostar nas pistas. Mesmo assim, hoje, administra três fazendas para três patrões diferentes.

"Cansei de botar uma forra numa sela e sair no matos às seis da manhã para voltar somente às seis da noite, com fome e com sede, atrás de gado. Estou quase aposentado, melhor correr vaquejada", lembra. Antigamente, ele trabalhava com a divisão "4/1", que a cada quatro bezerros paridos, um fica com o vaqueiro. "Quando comecei era assim, depois já era dinheiro. Hoje, eles pagam bem, mais de um salário", completa.

Raimundo acredita que atualmente os jovens não querem trabalhar como vaqueiros porque é "uma preguiça da peste", bradou. Ele mesmo, começou a andar com seu pai aos 10 anos e, inspirado nele, mantém outra tradição: o aboio, importante instrumento que atrai os animais fugidos. De improviso, começou a criar uns versos de sua cabeça e, de vez em quando, anima uma vaquejada cantando no microfone. "Os caras acham bom", afirma Raimundo.

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O que mudou no vaqueiro?

"Vaqueiro virou uma profissão que tem mais valor. Se tiver andando a cavalo, o cara arruma uma namorada mais fácil. Com enxada na mão, não tem ninguém que olhe para ele"

Raimundo Procópio
Vaqueiro

"A vaquejada tomou conta e se ganha muito dinheiro. Mas não é para os pobres, não. No mato, bom era cavalo era pé duro, pequeno, mais forte. Esses de hoje em dia não dão pro mato não"

José Fábio Soares
Vaqueiro

Aboio eternizado em Missa

"Tengo, lengo, tengo, lengo", é o som do chocalho pendurado no pescoço do gado que cantou Luiz Gonzaga, na música "A morte do vaqueiro", para lembrar seu primo Raimundo Jacó, assassinado em julho de 1954. Para homenageá-lo, em julho de 1971, foi realizada a primeira Missa do Vaqueiro, em Serrita (PE). A ideia da cerimônia surgiu um ano antes, a partir do padre João Câncio, inspirado pela canção, que convidou o 'Rei do Baião' para criar o evento. Deste então, a cerimônia litúrgica no sertão pernambucano reúne milhares de vaqueiros.

Na época, o programa "Viola e violeiros" era sucesso na Rádio Educadora de Crato, comandado pelo poeta e violeiro Pedro Bandeira. Por isso, Gonzaga e o padre João convidaram o artista para se juntar na organização e ajudar na divulgação da primeira Missa do Vaqueiro. Com excelente alcance no Nordeste e na região do Cariri, principalmente, muitos vaqueiros participaram da primeira celebração, que reuniu cerca de 2 mil. Em 2018, o evento chega à sua 48ª edição, no próximo dia 18 de julho.

"Eu choro, canto e aboio", conta Pedro Bandeira, recém-selecionado Tesouro Vivo da Cultura cearense, que mora em Juazeiro do Norte. Ele nunca perdeu nenhuma celebração para Raimundo Jacó desde que foi criada. Nem mesmo quando esteve doente. "Sou tido como o último remanescente dos criadores, responsáveis pela missa", conta.

Uma fila imensa de vaqueiros cavalga até o local onde foi encontrado o corpo do vaqueiro. "Tem gente de tudo que é mundo", descreve Pedro Bandeira. Da região do Cariri, centenas de vaqueiros viajam até Serrita, em grupo, para homenagear Raimundo Jacó e, de certa forma, sua própria profissão. Todos de gibão, chapéu de couro, perneira, como se vestem tradicionalmente. A missa contém muitos significados, sobretudo, da cultura sertaneja. A hóstia é substituída pela farinha, rapadura e queijo, comida comum nos alforjes.

"Morto pela inveja", como narra Pedro Bandeira, a história de Raimundo Jacó se tornou popular na voz de Luiz Gonzaga, em "A Morte do Vaqueiro". Seu parceiro de composição, Nelson Barbalho, narra que o Rei do Baião tentou muitas vezes, no estúdio, cantar a canção, mas sempre chorava nas gravações. Um dia, ele conseguiu e a imortalizou no LP "Pisa no Pilão (Festa do Milho), de 1963. Um baião-toada que lembra os aboios do primo.

Não é à toa que Raimundo Jacó também era conhecido como Raimundo Aboiador ou Raimundo Doido. Ele era muito respeitado por sua voz ao tanger e atrair o gado, além de sua habilidade em capturar o animal fugido. No Crato e em Juazeiro do Norte, o vaqueiro gostava de beber e arrumar confusão, mas era querido por todos. Seu companheiro fiel, um cachorro chamado Brasileiro, esteve ao seu lado até o fim de sua vida e após a sua morte. O vaqueiro foi encontrado morto com uma pancada na cabeça e seu cão permaneceu no seu túmulo, onde também morreu. "Ninguém aboiava bonito como ele. Quando ele começava a aboiar, o gado chegava", conta emocionado Pedro Bandeira.

Inspiração

"Uma banda cearense e outra paraibana", como se descreve, Pedro Bandeira seguiu os passos do avô, Manoel Galdino, para se tornar cantador. "Nasci lá, mas bebendo água nas cabeceiras dos rios que nascem no Ceará. Minha vida ficou moldada e encarnada no sertão. Sou um menino do sertão", conta. E foi essa vida no campo que o inspirou na poesia. Na Rádio Educadora, começou a cantar em 1955 e as portas se abriram.

Resolveu aprimorar o verso, cantar metrificado e sonorizado. Com o tempo, teve a companhia de vários parceiros, como Arrudinha Batista, José Bandeira e José Vicente e Geraldo Amâncio. Na sua voz, o aboio, inspirado em Raimundo Jacó, faz parte da sua cantoria. Quando as "vaquejadas urbanas" se popularizaram, Pedro Bandeira fez seus primeiros versos com o tema e, uma de suas poesias, "Corrida de Mourão", foi gravada por Luiz Gonzaga e Fagner.

"Falo de pega de boi na Caatinga, mas era mais o esporte o galanteio, sobre os vaqueiros que iam correr na pista. Fiz muitos aboios como "Vaquejada no Sertão", "Boi na Caatinga", "Boi Bravo", "Boi de Carga", "Boi Carreiro", e assim por diante", lista o poeta. São mais de 200 poemas, em livros e discos, gravados sobre vaquejada.

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