Reportagem A força da devoção

Tradição ancestral

Foto: Fernanda Siebra
00:00 · 18.08.2018 / atualizado às 16:14 · 19.08.2018 por Germana Cabral - Editora

Pesquisador na área de Filosofia da Religião e membro do Observatório Transdisciplinar de Religiões no Cariri ( UFC/UFCA/Urca), Francisco José da Silva afirma que os rezadores aprendem essas práticas terapêuticas por meio da tradição ancestral. Nesta entrevista, o também professor do Curso de Filosofia da Universidade Federal do Cariri (UFCA) aborda outros assuntos ligados ao tema. Confira. 

Por que essa tradição de rezadeiras (rezadores) em Juazeiro do Norte é tão forte? O padre Cícero incentivava essa missão entre os seus seguidores?

É necessário reconhecer que a cidade de Juazeiro do Norte traz a marca profunda de um catolicismo popular, que guarda tradições das diversas matrizes culturais que a compõe e que são parte de sua identidade. As rezadeiras e os rezadores são um patrimônio dessa tradição que sincretiza elementos das culturas indígena, afro-brasileira e portuguesa. Essas tradições foram sendo sincretizadas as vezes de forma espontânea, outras vezes de forma artificial devido a repressão religiosa desde a época da colonização. Em sua atuação como sacerdote em Juazeiro do Norte, o Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), embora vivendo numa época de forte tendência romanista de hierarquização e centralidade clerical, foi um pastor prudente e sensível aos sofrimentos das camadas mais populares, tendo sido profundamente influenciado pela pastoral sertaneja de Padre Ibiapina (1806-1883), foi capaz de acolher a sincera piedade popular em sua simplicidade e ingenuidade e a orientou de forma a manter tanto o aspecto místico, evangelizador e missionário, como o aspecto terapêutico, no que diz respeito ao cuidado espiritual e corporal das pessoa

Por que rezadores acreditam ter a missão divina? 

Rezadeiras/rezadores aprendem essas práticas terapêuticas por meio da tradição ancestral, transmitida familiarmente pelos mais idosos na vivência cotidiana, sem necessidade de aprendizagem formal, consolidada por uma convicção religiosa e pessoal, avalizada pela comunidade e no reconhecimento de que tal aprendizagem assume o caráter de missão religiosa de caridade. A aprendizagem também se dá por intermédio do exemplo dado por rezadeiras afamadas que atraem o interesse dos que pretendem dar continuidade à tal missão que, embora não seja remunerada, traz certo reconhecimento por parte dos membros da comunidade.

Por que ainda prossegue essa tradição em um mundo globalizado?

Não podemos negar os avanços da ciência e da medicina nos últimos dois séculos. A globalização e a modernidade conseguiram universalizar e expandir as pesquisas e o desenvolvimento do saber médico, mas ao mesmo tempo o acesso aos cuidados médicos e aos medicamentos ainda é precário e restrito aos grandes centros urbanos. Paralelamente a isso, os saberes e as terapias populares mantiveram seu lugar nos espaços rurais devido ao aspecto religioso e solidário que traz a preocupação não apenas com o cuidado da alma, mas também com o corpo. Outro aspecto relevante é o lugar de proximidade que essas práticas terapêuticas mantêm com as camadas desassistidas pelas políticas públicas.

Seria, então, o caso de Juazeiro do Norte? 

Sim. Em centros de religiosidade popular, isso se mantém devido à forma como as práticas religiosas do cristianismo popular (orações, bênçãos) incorporaram os saberes ancestrais indígenas e afro-brasileiros (uso de ervas, ritos e fórmulas de cura), sem perder a marca característica e o vínculo com os principais aspectos da liturgia oficial (prática da oração, referência aos símbolos religiosos como a cruz). Muitos romeiros de diversas partes do Nordeste chegaram a Juazeiro e passaram a habitar por toda a extensão do Horto, onde fica a estátua do Padre Cícero, trazendo entre eles também rezadeiras/rezadores, penitentes e beatos/beatas e, com esses, diversas tradições religiosas.

Como alguém se torna “rezador”? Por que acreditam ter essa missão? Com quem “aprendem”? 

As rezadoras/rezadores aprendem essas práticas terapêuticas por meio da tradição ancestral, transmitida familiarmente pelos mais idosos na vivência cotidiana, sem necessidade de uma aprendizagem formal, consolidada por uma convicção religiosa e pessoal, avalizada pela comunidade e no reconhecimento de que tal aprendizagem assume o caráter de uma missão religiosa de caridade. A aprendizagem tanto se dá por meio dessa tradição familiar, como por intermédio do exemplo dado por rezadeiras afamadas que atraem o interesse daqueles que pretendem dar continuidade a tal missão, que embora não seja remunerada nem necessite de uma formação institucional traz certo reconhecimento por parte dos membros da comunidade. 

Quais as principais causas que levam uma pessoa a procurar um rezador?

A fé transmitida pela família seria um primeiro dado que legitima a pessoa a confiar o restabelecimento de sua saúde à assistência de uma rezadora/rezador, assim como a crença que determinadas doenças não são de diagnóstico fácil e evidente, mas ligadas a causas que em certos casos se supõem sobrenaturais, como o “mal olhado”, “quebranto”, “a espinhela caída” ou lumbago, o “ventre virado”, o “Fogo selvagem”, a Erisipela, etc. Outra razão que poderíamos considerar seria a ausência de assistência médica, o que faz com que muitas pessoas procurem os recursos disponíveis e reconhecidos pela comunidade, especialmente os de caráter religioso.

Esta reza pode ocasionar alienação quanto à procura de médicos? 

Em alguns aspectos podemos considerar que sim, caso estas terapias alternativas sejam colocadas em oposição ou de preferência aos cuidados médicos. Mas se forem entendidas em seu aspecto cultural, religioso e simbólico, podem ser uma forma auxiliar de ampliar a confiança no restabelecimento da saúde, como acontece em alguns postos de saúde que incorporam essa tradição popular em seu atendimento cotidiano (como nos esclarece matéria do Diário do Nordeste, caderno Cidade, “rezadeiras promovem a cura pela fé nos postos de saúde”, 02/07/2012.  É preciso entender que a valorização e a preservação de determinados aspectos de nossa cultura popular são positivas para sua manutenção como atitudes significativas que representam simbolicamente o cuidado em relação ao outro, usadas como formas alternativas e ações complementares, embora não substitutivas dos cuidados médicos necessários. 

Segundo uma das rezadeiras entrevistadas para esta reportagem, elas são chamadas de “tudo o que não presta” (bruxas, feiticeiras). Por que há esse preconceito?

O preconceito em relação a essas práticas populares e tradicionais se deve à rejeição por sua origem sincrética, enquanto um amálgama de crenças indígenas e afro-brasileiras (uso de ervas, ritos e formulas “mágicas”), sincretismo este marginalizado pelas doutrinas religiosas dominantes, que as considera como formas supostamente equivocadas ou mesmo “impuras” de crença. As denominações do Cristianismo fundamentalista tem reforçado essa rejeição e alimentado tal estereótipo sobre as crenças populares. Vale ainda lembrar que as lendas sobre o uso de ervas e ritos supostamente mágicos, também era um argumento usado desde a Idade Média como identificação das supostas ‘feiticeiras’ (na verdade mulheres que detinham determinados saberes sobre o uso de plantas e remédios caseiros), tais práticas naturalistas eram considerados heréticas ou mesmo diabólicas (Conferir a esse respeito as concepções presentes no livro “Martelo das Bruxas” ou “Malleus Maleficarum” de Henrick Kramer e Jacobus Sprenger, publicado em 1486). Tal preconceito, especialmente em relação às mulheres (que em sua maioria detêm esse saber), ampliou-se com o processo de romanização que consolidou ainda mais o poder eclesiástico (eminentemente masculino e centralizador) e marginalizou as formas populares do Cristianismo como superstições e erros. Apesar disso, as curandeiras, rezadeiras e benzedeiras continuaram a existir no interior do Brasil, como uma forma de resistência dessa tradição, e de certo modo ocupando um lugar fundamental no cuidado das pessoas acometidas de diversos males do corpo e do espírito, em sua maioria abandonadas pelo poder público.

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