Reportagem Salitre

Toda urgência precisa esperar onde tudo é muito longe

Erisvaldo Matias transporta, uma vez por dia, moradores das comunidades de Santana, Cacimba, Cajueiro e Cascavel, todas em Poranga
00:00 · 05.05.2018 / atualizado às 00:55

Vistas da perspectiva urbana, ainda existem algumas dezenas de comunidades longínquas, pouco acessíveis no Ceará, como se estivessem guardadas ou escondidas. Elas estão no horizonte de terra, embora a duas ou três escalas a mais da expressão 'difícil acesso'. Seus caminhos vão além de onde a estrada carroçável termina. Quanto mais o mundo moderno cria "necessidades", que vão de um pão quente do forno à internet, ou, ainda melhor, escola e hospital, para tê-las é preciso ir-se.

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A geografia do lugar é mais inóspita para quem a visita. Se uma pedra na estrada é mal caminho, para quem lá vive estrada é o não-lugar. Dona Graça Pereira, em Salitre, só a muito custo 'visita' a estrada que dá acesso à cidade. "É outro mundo. Eu que não quero uma vida dessa".

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Caverna localizada na Pedra do Sítio Convento, comunidade Veneza, em Salitre

Conhecemos algumas comunidades que, sob a georreferenciação das cidades, são consideradas distantes. E de qualquer jeito têm um muito difícil acesso.

Visitamos Cafundó e Serra do Teixeira, em Choró; Cajueiro e Cascavel, em Poranga; Veneza, em Salitre; Belém, em Abaiara, e Sítio Flores em Baturité. A bússola era o dedo de apontamento no centro de cada cidade: "Vocês vão para lá? Quando for direto, muito longe daqui, pergunte por lá que é mais longe", animava um mototaxista em Salitre. Para o Cafundó, Francisco da Peixada recomendou banana e água "para a volta".

Quem mora longe é motivo de graça para quem se diz 'de perto'. "Você chega ao Piauí e não chega ao Cajueiro", diz o motorista José Erisvaldo, de Poranga, no Sertão dos Inhamuns. Em terra distante de caminhos pedregosos, quem tem uma camionete é rei. No caso de Erisvaldo, seu transporte é a ponte da acessibilidade quando a urgência bate à porta. Ainda assim, nem adianta correr, porque a estrada não deixa. Ele mora na comunidade de Santana, mas também atende Cascavel e Cajueiro, na mesma Poranga.

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Comunidade Belém, em Abaiara

Para serviços básicos de saúde e educação, léguas são a primeira fila a enfrentar. Para milhares de famílias não se aproximar da densidade demográfica é isolar-se, se não por escolha, por destino. Se ônus é distância, o bônus é a proximidade com a ruralidade de sua forma mais plena. Ainda que tenham chegado a energia elétrica e, em algumas, mesmo a internet em ondas de rádio, essas comunidades preservam por identidade o horizonte onde o vento faz a curva, um cafundó onde 'Judas perdeu as botas'. O fim do mundo onde o vento, para 'não cair', faz a curva. Muito embora, da perspectiva de quem mora, o horizonte sem fim é, na verdade, o começo de quem vai além.

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Crianças voltam da escola na zona rural de Abaiara

Rural moderno

O interior não é mais o de duas décadas atrás. O urbano tem densidade de pessoas e problemas, enquanto o rural cada vez está mais urbano. As motos substituíram os cavalos, e o imortal rádio foi trocado pelo celular, deixando a distância até o sol medida na busca do Google.

Mas o interior do interior resiste na mata só desbravada para o pequeno roçado. Nem toda moto sobe uma serra, então onde menos há intervenção do homem maiores as chances de natureza preservada. Isso significa, também, caminhos mais naturalmente trilhados, bem distante da regularidade de uma estrada. Em Poço Redondo, seu Manoel da Silva, 47, conta com uma moto de mais de 15 anos de uso e incontáveis remendos nos pneus. É nela que desce a serra com Maria Francisca da Silva. São duas horas e meia e 40 quilômetros percorridos até o centro de Salitre.

"Quando a moto está desmantelada, a gente não vai para canto nenhum. Se eu preciso pegar a pista, deixo minha motinha num canto guardada e continuo a viagem num carro de frete", explica Manoel, que não tem carteira de habilitação para dirigir.

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Sítio Flores, no Maciço de Baturité

Ricardo, filho mais novo do casal, nasceu há 13 anos e os pais acreditam que foi milagre. Com mais de nove meses de gestação, Maria sentiu as primeiras dores em casa, o resto foi no balanço da moto nas pedras da descida, a estrada cortando ao menos dois córregos até chegar ao hospital de Campos Sales. Mas não teve o filho Ricardo lá, a ida deu-se para pegar uma ambulância até a própria Salitre, onde o teria no hospital. "Por pouco não perdi o menino. Doeu mais para eu chegar do que ele sair".

Em Poranga, no Sertão dos Inhamuns, divisa com o Piauí, Daniele da Silva não tem transporte próprio e agradece a Deus não adoecer fácil. "Se você tá doente, fica mais doente até chegar ao hospital, mesmo quando lá tem medicamento". Todo raiar de segunda a sexta-feira, às 5h, a camionete de Erisvaldo leva e traz da cidade, ao custo, por pessoa, de R$ 24 reais.

Se a urgência de sair não ocorrer neste horário, o jeito é esperar para o dia seguinte ou desembolsar R$ 200 reais, valor total cobrado de ida e volta. "Não tem quem possa, é muito caro. Só dá pra fazer isso no aperreio mesmo. E tendo dinheiro". Daniele não quer pensar em engravidar por não saber como seria para dar à luz, com tanta conversa que houve de mulheres da comunidade. A mãe, dona Maria Augusta, contraria: "Isso é frescura. Vai dizer que antes de ter hospital o povo prenhe tinha como? Minha mãe me teve em casa. Quando uma coisa tem de ser, é. O tempo é Deus quem dá".

Curvas da história

Durante seis dias, viajamos pelo Cariri, Sertão dos Inhamuns, Sertão Central e Maciço de Baturité, sob o critério de encontrar comunidades de difícil acesso.

As sete citadas neste DOC são apenas um recorte na realidade dessas e várias outras pelo Ceará. Na base de pesquisa, lugares em que o atendimento de serviços básicos fica quase impossibilitado.

Na seca, até mesmo carros-pipas lutaram com as estradas. Nas chuvas deste ano, os desníveis de pedras escorregadias criam uma nova dificuldade.

Em Cafundó, município de Choró, no Sertão Central, postes e cisternas só chegaram de helicóptero - a comunidade ainda vive o novo. Mas ainda lá há uma fonte de água que nunca seca, nem mesmo nos seis anos de estiagem consecutivos no Ceará.

Por vezes, o nosso carro ficou no caminho, o resto das horas era com pé e pulmão. Nosso esforço foi grande, mas envergonhado. Afinal, são outros os que todos os dias enfrentam a rotina de subir e descer por necessidade, não curiosidade.

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