Reportagem Feira de Cascavel

"Tá acabando freguesa, tá acabando"

A artesã Letisse Barros vende seus bordados no calçadão próximo à feira
00:00 · 27.05.2017 por Cristiana Pioner

Da panela de barro à de alumínio, da roupa casual à de festa, do peixe ao frango, das frutas aos legumes, da rede de dormir (tão nossa!) aos relógios dourados vindos de tão longe. Com essa mistura de sabores, aromas e texturas, acontece todos os sábados a tradicional Feira de São Bento, em Cascavel, no Litoral Leste do Ceará.

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.A tradição semanal permanece nas ruas de Cascavel, Crato, Iguatu e Itapajé

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."Ó o feijão novo, o preço caiu"

Percorrer seus corredores é quase uma aventura, afinal, são cerca de 2 mil m². Por outro lado, o trajeto proporciona lições de história, cultura, economia e até mesmo de marketing, esse último aplicado de forma criativa pelos feirantes.

Cada um recorre com estilo próprio para vender o seu "peixe". É o caso de Ivanildo Pereira, morador de Pacajus que, há três anos, desloca-se até Cascavel. Mesmo sem banca própria, mas com muito humor, chama a atenção do público: "Essa meia é para os pés. Tem pro Pedro e pro José. Tem pra você que está sentado e pra você que está de pé. Tem pra quem é, e pra quem não é! Quem vai querer?", anuncia.

"Cara da riqueza"

Maria Edione segue a mesma estratégia. Em bom tom, anuncia vestidos de festa: "É a cara da riqueza. Tem vestido pra aniversário, casamento, batizado... É tudo muito chique e o preço melhor ainda". A feira, na sua opinião, é um momento de lazer, se comparada ao trabalho de serviços gerais que realiza na semana. "Aqui a gente tem que saber 'queixar' pra vender", revela a receita aos risos.

Mas nem só de bom humor vive a feira. Naquele vaivém de pessoas, um grupo se aglomera para conferir a oferta do vendedor de ervas "medicinais". Promete que elas curam todos os males, da enxaqueca aos problemas de próstata. Com microfone cravado no peito (estilo Silvio Santos), o vendedor logo interrompe a demonstração para impedir as fotos. Como a feira é livre, seguimos em frente.

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Em outra banca, Jesus Amaral produz e comercializa acessórios em couro para animais. Já Hermenegildo Augusto oferta frutas e verduras

Outros sons, assim como novos cheiros e cores vão surgindo em meio àquela muvuca. O murmurinho é permanente, ora acentuado pelas ofertas anunciadas na "garganta', ora pelas músicas tocadas por um carrinho de som onde são comercializados CDs com variados ritmos, do religioso ao forró pé de serra.

Turistas

Com esta miscelânea toda, a feira vai ganhando identidade, atraindo não somente os moradores, mas também visitantes. Dentre as clientes está dona Maria de Lourdes Sousa, 74 anos, frequentadora do espaço há mais de seis décadas. Trabalhando como doméstica, passou uma temporada fora do Ceará e do Brasil, ela nunca esqueceu da feira. "Gosto de tudo que vende aqui. Os preços são mais baratos. Mesmo quando morava em Fortaleza, sempre vinha para comprar vestido, sapato, artesanato", lembra.

No quesito tradição, Jesus Amaral também é referência. Artesão do couro, há mais de 30 anos produz e vende acessórios para animais e veículos de tração. Após tanto tempo na feira, reconhece que muitas coisas mudaram, principalmente a queda nas vendas, mesmo assim continua animado com o seu velho ofício.

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Tradição e modernidade andam juntas na Feira de São Bento, localizada em Cascavel e considerada a maior do Ceará. Fotos: Helene Santos 

A ceramista Irieuda Viana também tira o sustento com um saber ancestral. Suas panelas e louças de barro são comercializadas, ao contrário de outrora, de forma tímida na calçada da feira. O mesmo acontece com o artesão do cipó, Luis Faustino, há 30 anos nessa arte. Durante a semana, ele se dedica à produção de peças como luminárias e objetos de decoração feitos com cipó extraído da mata. "Já foi melhor o comércio aqui, mas a gente precisa continuar".

Redes de dormir

Ainda menino, Waldenes Bezerra chegou à feira conduzido pelo pai, vendendo os famosos queijos de Jaguaribe. O filho herdou o tino comercial e permanece, ainda hoje, numa banca colada à feira, onde vende redes e cobertas para cama. Vizinho a ele está dona Letisse Barros, 74 anos, uma bordadeira de mão cheia que comercializa não somente suas criações, mas as de outras artesãs, a exemplo das tradicionais bonecas de pano.

Em meio aos elementos tradicionais, a feira de Cascavel vai se modernizando. Entre os feirantes, a jovem Amanda Soares expõe coleções de vestidos, macaquinhos e bodys (espécie de maiô) com estampas contemporâneas, que também são comercializadas pelas redes sociais. Com fabricação própria, consegue vender o produto por um preço justo e conectado com a moda. São estes vieses que tornam a feira de Cascavel tão singular e tão popular ao mesmo tempo.

A feira de São Bento, localizada em Cascavel, fica distante cerca de 60km de Fortaleza, no Litoral Leste do Ceará. Tem aproximadamente 70 mil habitantes
 
Considerada a maior do Ceará, a Feira de São Bento é também a segunda do Brasil, só perdendo para a de Caruaru (PE) 
 
Em torno de 1.100 feirantes estão cadastrados para comercializar produtos que vão dos regionais aos importados
 
Todos os sábados, das 5 horas da manhã ao meio-dia, acontece a feira na avenida Padre Valdevino Nogueira
 
Atualmente, a feira tem área de 2.000 m². Segundo historiadores, foi criada no início do século passado,por volta do ano de 1909

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