Reportagem DOC

SuperAção: Desafios dos atletas paralímpicos no Ceará

00:00 · 08.10.2016 / atualizado às 02:08

Muito além de medalhas

A parte que falta no corpo deixou de ser ausência de capacidade. Pessoas redescobrem com o esporte a mobilidade e as evoluções física e psicológica.Textos: Cristina Pioner, Germana Cabral e Melquíades Júnior
Fotos: Fabiane de Paula e Kid Júnior

Há pessoas que praticam esporte para vencer o jogo, a competição, a luta; outras, têm o esporte para sobrevivência. Entendendo isso como meio de se permitir um outro olhar à vida pela manutenção de si mesma. Apresentamos pessoas com deficiências (assim dito de quem falta alguma parte do que os outros chamam de inteiro) cuja maior diferença em relação aos outros “normais” não é o que falta, mas o que sobra.

 

>Travessia de campeões

>Espaços abertos para oportunidades

>O Ceará muito bem representado

 

Com natação, futebol, basquete, canoagem, atletismo e uma ainda maior diversidade paradesportiva, (para)atletas cearenses ensinam a simbiose dos exercícios físicos com psicológicos. Com ou sem ‘para’, são todos atletas, uma vez que nos dicionários, a exemplo do Aurélio, não há especificação de significado para a “pessoa que pratica o atletismo”, “robusta ou muito valente” ou “lutador” ter braços, pernas ou qualquer outro membro que o valha.
 

 

Neste Doc “Super Ação”, trazemos histórias de mentes e corpos brilhantes que participam das Paralimpíadas Rio 2016, com início na quarta-feira, dia 7, mas, sobretudo, dos cearenses que sonham estrear nos jogos em Tóquio 2020. Não só sonham, como treinam sem limites e muitos ainda sem patrocínios.

Quando descobriu que se anda com a cabeça, e não as pernas, Elione Sousa, de 31 anos, pegou muletas e andou. Foi a uma maratona dos “normais” e correu, deixando muitos para trás ou fazendo que os ‘duas-pernas’ lhes acompanhassem só para cumprimentar com os olhos e o sorriso. 

Alguns ofegavam: “cara, eu estava exausto e ia desistir, mas quando vi você correndo percebi que sou capaz”. Não antes de o próprio Elione perceber que também era. Foram muitos passos até que o vigilante, alcoolizado, sofrer acidente e ter uma perna esmagada se transformasse no triatleta três vezes campeão pan-americano, duas brasileiro. Outra vitória é festejada pela namorada, Clariene Abreu, a Clara, 28 anos: “Foi ele que me incentivou a praticar esportes paralímpicos”, diz a campeã Norte-Nordeste de atletismo 400m em 2016. 

 

SuperAção: Desafios dos atletas paralímpicos no Ceará

 

Grandes passos

Se para uns é recomeço, para Samuel Diniz é começo mesmo. Uma paralisia infantil, aos oito meses, afetou-lhe o movimento das pernas. Sua vida era casa-escola-hospital. A mãe, enquanto tinha força, carregava-o no colo que já se tornara o corpo, dado o crescimento do menino. Hoje, com 18 anos, ele treina para chegar ao Japão em 2020.

O desejo de vencer está explícito também no olhar de Oara Uchoa, 21 anos. Seu corpo, mesmo com uma perna amputada, revela uma força indescritível. Sobre a cadeira de rodas adaptada, ela brinca com a bola e com as manobras radicais. Após um ano de treino, começou em 2014, conquistou, junto ao seu time, o título de vice no Campeonato Brasileiro Feminino de Basquete em Cadeira de Rodas, em Recife. Apaixonada por futebol, mas impedida de jogar, Oara precisou mudar o rumo do esporte, mas continua sendo a “dona da bola”.

Em comum a essas pessoas, as repetidas vezes proferidas (se não com os olhos a boca) a palavra coitado deu lugar à de campeão. “Eles estão reaprendendo a viver. Da mesma forma, as famílias. Elas chegam até nós com um receio de que o menino vá se afogar na piscina. Mas não dá cinco minutos para o espanto virar um sorriso, quando veem do que são capazes”, diz Vicente Cristino, idealizador do Projeto Remar e professor do curso de Educação Física da Universidade de Fortaleza (Unifor), da qual têm saído atletas paralímpicos representando o Ceará e o Brasil.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.