Centro de Fortaleza

Som, cerveja e solidão nos bares de sábado à noite

Bar no Centro de Fortaleza é cenário do ganha-pão de Simone, 56 anos, e de outras mulheres da sua faixa etária

00:00 · 30.06.2018

Sábado à tarde. Início de mês. Teoricamente, o calendário estava favorável. O presságio não passava de ilusão para as "profissionais do sexo" com mais de 40 anos. Num dos bares de prostituição no Centro de Fortaleza, mulheres solitárias permaneciam à espera de clientes, em geral, homens aposentados e com dinheirinho no bolso. Vez por outra, eles adentravam no bar, sentavam-se, pediam bebida, trocavam algumas palavras, acertavam o serviço ou iam embora.

O relógio já passava das 15 horas e, até então, Simone (nome fictício), 56 anos, não tinha faturado nada, mas restava a esperança de que, na segunda-feira, um cliente habitual estaria lá para desafogar suas contas. Longe dos atributos físicos e estéticos atribuídos a uma "prostituta", a mulher de corpo mediano, cabelos pretos e lisos, sobrancelhas finas e bem delineadas, vestia roupa discreta - calça jeans e blusa branca com estampa de uma revista de moda famosa.

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Sem curvas, sem viço e sem cliente, o que chamava mais a atenção em Simone era a sua inquietude. Tragava solitária alguns goles de cerveja numa das mesas do bar quase vazio. Ameaçava ir embora a todo instante. Neste ir e vir repetitivo, segurava firme no ombro a bolsa preta imitando couro e, nas mãos, uma sacolinha com pães.

Conversa informal

arteAntes de partir de vez, a mulher aceitou o convite para sentar à mesa vizinha, composta por quatro pessoas, três homens e uma mulher. Talvez, a presença dessa figura feminina, aparentemente despretensiosa, deixou-a mais à vontade para falar, sem constrangimentos, de sua vida, suas dores e seus sonhos.

 

Sabia que naquela mesa ninguém estava disposto a fazer programa e também que não ganharia dinheiro, porém aceitou a prosa regada a cerveja. A primeira fala é para justificar: "Eu não bebia assim, mas agora eu bebo. Há sete meses perdi um filho. Mataram ele em casa. Essa dor só sabe quem passa", revelava com angústia no olhar.

A conversa fluía com naturalidade, contudo as interferências externas atrapalhavam a "entrevista" com Simone. Vez por outra, uma das "colegas de bar" seguia até a máquina de som para selecionar a música.

De longe, uma das mulheres gritava: "coloca música internacional, que eu não gosto da nacional". No repertório, porém, vozes de Djavan e Belchior se diluíam em meio à narrativa dolorosa de Simone.

Família

Casada por duas vezes, ficou viúva do primeiro marido, e o segundo desapareceu. Teve três filhos, perdeu um ainda bebê e outro assassinado, aos 30 anos. Cheia de dor, a mãe tira da bolsa a lembrancinha de morte com a foto do caçula. O mais velho, 35, está cego de um olho e mora com ela, em um barraco próprio ("com chave e tudo", faz questão de dizer), localizado no Grande Bom Jardim.

Revela perfil contrário ao da maioria das profissionais do sexo. Ela só entrou na prostituição por volta dos 50 anos, alegando necessidade e falta de oportunidade de trabalho. Desde então, ficou no entorno do Passeio Público, local que por muitos anos serviu de reduto para essas mulheres em Fortaleza. "Quando cheguei aqui, me disseram que era proibido andar na praça".

Pelo programa de uma hora, cobra em média de R$ 40,00 a R$ 50,00, dependendo do cliente. Desse valor, desconta ainda o aluguel do quarto, de R$ 10 a 20,00, localizado no entorno da praça. O preço, segundo ela, é pouco, se comparado ao das mulheres da boate vizinha ao bar. "Lá elas andam todas maquiadas e no salto alto. Os programas são muito mais de R$ 100,00", compara com admiração.

Simone diz ter encontrado essa forma, considerada fácil, de ganhar dinheiro por meio de uma amiga, mas antes disso já trabalhou como arrumadeira, faxineira, cozinheira, porém nunca teve a carteira assinada.

Sonha em poder se aposentar (um dia, quem sabe?) e garantir o seu sustento. "Eu sei cozinhar, só não cozinho essas comidas de rico, sabe? Se a senhora souber de algum trabalho, me avisa?", fala em tom de clemência.

Tudo o que deseja, segundo ela, é deixar a prostituição: "Estou aqui não é por outra coisa não, é por precisão mesmo. Minha família toda sabe, eu não escondo nada dela. Minha mãe é evangélica e minha irmã também. Elas querem que eu deixe essa vida. Minha irmã quer me ajudar. Ela vai fazer umas trufas, e eu vou vender aqui no Centro. Aí nós vamos dividir o dinheiro. Se Deus quiser vai dar tudo certo".

(Cristina Pioner)

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