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Sobreviver é "cultivar" a esperança em territórios violentos

00:00 · 07.04.2018

Em um dos bairros que concentra os maiores índices de homicídios de adolescentes e jovens da Capital, é preciso força para poder florir. No Bom Jardim, meninos e meninas pelejam para sobreviver. Eles ressignificam suas perdas em engajamento. Resistem ao medo ocupando os espaços públicos, fazendo da praça dança. O reggae reúne, o tiro dispersa. O medo enterra, o coletivo liberta.

Foi assim para Paulo (nome fictício), 17 anos, que aprendeu desde menino a dureza de enterrar afetos. "Fui criado com vários amigos lá na comunidade Marrocos. Dos 8 ou 9 amigos, quem se criou lá não existe mais. Tem alguns que chegaram em 2008, 2009, que hoje em dia ainda estão comigo. Da infância não tem nenhum. Desses amigos mais recentes, em setembro eu perdi 5 em menos de 15 dias", conta ele que não planeja levantar voo do ninho. O sonho do menino-sorriso é fazer do Bom Jardim um bom lugar para todos que moram lá.

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Paulo vai perdendo as pessoas, mas não a esperança. Mesmo muito novo, já viu e viveu muitas experiências. Chegou a se envolver com o tráfico, usou drogas, quase se perdeu. Mas foi quando encontrou um projeto social, em 2015, que a vida começou a se transformar. "Eu já cheguei a experimentar drogas por conta de não ter projeto perto da gente. Em algum momento a galera do projeto me encontrou ou eu encontrei eles(sic). A minha história foi seguindo outro rumo".

Antes, levava na mochila da escola a droga para outras comunidades. Fazia isso por dinheiro e "diversão". Queria ser "o cara". O resgate começou antes, ainda em casa. A mãe o tirou da droga. "Só experimentei três vezes. Não deu rock pra mim", justifica. Sair do "envolvimento" já foi depois quando o projeto social o alcançou.

À frente da coordenação colegiada de Direitos Humanos e Segurança Pública do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), o sociólogo Caio Feitosa vê rotineiramente a violência alterar as rotinas de quem mora no Grande Bom Jardim, sobretudo de adolescentes. O trabalho na ONG que atua há quase 25 anos na região é aglutinar a juventude e perceber saídas de superação.

"A violência é uma das grandes ameaças ao direito à vida plena. Não só a violência, mas um outro conjunto de violências que ampliam a exposição das pessoas à violência letal. Trabalho com adolescentes e jovens, com famílias muito vulneráveis, desde quando eles não tinham escola, até hoje com a violência letal. O trabalho continua em exigir políticas responsáveis que protejam, sobretudo, os adolescentes e jovens, negros, pobres e periféricos", aponta. O CDVHS é uma das várias organizações não governamentais que vem tentando oferecer a essa população o que o Estado não consegue. "Pra cá só chega Polícia e a gente precisa convencer a sociedade que a Polícia sozinha não dá conta", prega Caio.

Se a violência sufoca o Bom Jardim, os movimentos sociais por lá brotam. Viver com essas ausências é perceber-se só e, ao mesmo tempo, junto. Por isso, os coletivos são formas de existência mais forte. Paulo, que participa desse movimento, aponta essa característica como uma potencialidade do bairro mais conhecido pela violência que pela sua arte de resistir. "A comunidade Marrocos hoje em dia tem uma juventude centralizada que ajuda. Tenho amigos usuários que revitalizam espaço, capinam, montam campo e eles mesmos cuidam. Onde você vai encontrar num bairro 20 a 30 jovens cuidando de um espaço público? A culpa (dos homicídios) não é do Bom Jardim, é de quem não olha pra gente".

Mudanças de trajetórias

Paulo mudou sua história. Poderia ter morrido junto a outros amigos. Na roda de conversa com outros colegas de projeto, Pedro (nome fictício), 16 anos, também diz ter visto a morte de perto. O irmão foi assassinado. Ele fez do luto a luta. "A morte do meu irmão só fortaleceu minha vontade de ir para rua. Quanto mais eu puder brigar por direito eu vou. Se a gente não tiver voz e vez a gente não consegue". Medo? Ele garante que não tem. E afirma quase resignado: "Eu sou alvo de tiro", diz o menino preto, pobre e periférico.

Os dois jovens tentam - através de seus corpos e histórias- retirar outros meninos dessa zona ainda maior de vulnerabilidade. Às vezes, conseguem. Outras, não. "A gente vive em permissões. Quantas vezes, sei lá, eu escapei da morte? Passar os dias, não é nem ano, lutar por direitos, pela vida da juventude. São coisas assim que nos motivam. Se você quebrar o paradigma "cadeia ou cemitério", você diz que tem outras vertentes sim. Dizer que o jovem tem o direito e construir um caminho novo e reescrever uma história", diz Marcos (nome fictício), outro jovem do Bom Jardim. Aos 22 anos, celebra o fato de ultrapassar a adolescência vivo.

Caio Feitosa reconhece que a violência não é democrática. Afeta alguns grupos, setores e territórios de forma e intensidade diferentes. " Passar de uma determinada idade significa muita coisa, às vezes, "a grande coisa" na vida. A morte deixou de ser uma coisa excepcional e passou a ser uma rotina trágica ainda, mas que se pode esperar muito possivelmente por ela. E isso é muito grave. Não estamos falando de transpor barreiras, como chegar à universidade, que seria um marcado de ascensão. Estamos falando de permanecer vivo".

Mesmo com tanto esforço, cada um deles sabe que ainda falta muito. Em casa, por exemplo, Paulo se ressente de não "resgatar" o irmão caçula que é usuário. Ele não se inibe nessa tarefa de "promotor da paz". Apesar da atuação, ainda acha que o que é feito atinge pouca gente. " Enquanto eu estava lá sofrendo o que sofri, vivendo o que vivi e ninguém foi lá?. Não dá pra se limitar aqui. Por que em apenas oito ruas a gente concentra quase 50% dos nossos projetos sociais? As coisas não chegam onde têm que chegar".

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