Reportagem Viver do mar

Ser ou deixar: o conflito dos pescadores

Por saúde ou condição financeira, pescadores buscam outro jeito de convivência com o mar
00:00 · 25.11.2017 por Melquíades Júnior (textos) /Natinho Rodrigues (fotos)

Depois que nasce, filho de pescador já tem lugar no mar. Não há mais balanço do útero, somente do barco todos o dias lançando âncora para o conjunto da embarcação se fazer umbilical no oceano de pesca. Tem sido assim com muitas gerações de comunidades costeiras, mas o que já não era unanimidade está perdendo lugar. A escassez de peixe 'de valor' e frutos do mar faz esses trabalhadores das águas salgadas repensarem os dias que restam, enquanto vivem uma encruzilhada: o sertão sem água, o mar sem lagosta e a panela vazia.

De tanto sol e mar, José Antônio tem na pele uma couraça vermelha. São mais de 40 anos de pesca, partindo da Barrinha, em Icapuí, e desbravando o mar com que sustenta a esposa Vera Lúcia e os três filhos. A rotina do pescador, como a de milhares somente no litoral leste do Ceará, começa na madrugada. E se não for pesca de "ir e vir", para voltar no mesmo dia, aguenta até 20 sóis, quando são saídas em barcos maiores para longas distâncias, como faz a maioria dos que embarcam a partir do Cais da Barra Grande, no mesmo município. Nesse movimento pendular, muitas vezes o mar é sua terra, e a terra é onde passa pra rever a família e vender o apurado no mar.

Para José Antônio, entretanto, os tempos não são mais nem de peixe nem de pescador. "Eu não deixo meus filhos irem. Não é vantagem pra eles. Vi meu sofrimento e não quero o mesmo pra eles. Eu desejo é que tenham um futuro melhor". Com a chegada de uma empresa multinacional de produção de melão no extremo leste do litoral cearense, mais de dois mil retirantes do mar, entre ex-pescadores ou filhos, não seguiram o ofício dos pais.

Queda na produção

O esforço de pesca aumentou em mais de 30 vezes se comparado aos últimos 50 anos, de acordo com levantamento do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Em miúdos, aumentaram o número de embarcações e a produtividade, especialmente por meio das formas menos artesanais de captura, como a de mergulho com compressor e redes de arrasto, as caçoeiras. "O resultado é a queda na produção de peixes e frutos do mar, sendo o principal a lagosta na região", explica o biólogo marinho Ednardo Medeiros. A legislação ambiental só admite o manzuá como manejo sustentável, condenando o mergulho e a caçoeira. Mas enquanto o manzuá pega três quilos de lagosta, os outros métodos alcançam 20 kg para o mesmo período.

Para Francisco Silvério Filho, de 80 anos e um dos mais antigos pescadores ativos do Ceará, foi muito hoje para pouco amanhã. "Estamos todos com as mãos na cabeça. Tá de pior a pior". É do tempo em que a lagosta era pescada em jererés, quando fios de náilon formavam uma bacia e eram lançados ao mar.

Em Rio do Fogo, município do Rio Grande do Norte, 94 km distante de Natal, manzuá, lá chamado de covo, é peça rara. "A gente aprendeu a pescar de mergulho desde criança. Primeiro apneia, depois com o compressor. Só depois vieram dizer que isso não podia", afirma Valdimiro de Souza, de 52 anos, a maior parte dos quais no mar capturando lagosta.

Turismo e atum

Com o avanço da idade e dos embarques infrutíferos, o pescador passou meses reduzindo o contato do mar aos olhos. Em 2015, Valdimiro embrenhou-se entre mangue e sertão para plantar feijão, milho e caju, mas a seca, que já era prolongada, virou duradoura. "Bateu um desespero".

Mas em 2016 outro amigo pescador perguntou o que achava de comprar uma lancha e levar turistas para passear - em Rio do Fogo há um imenso recife de corais que se prolonga até a costa de outras duas cidades. Oficialmente uma Área de Proteção Ambiental (APA) desde 2011, era uma região pouco explorada. Valdimiro e Augusto venderam seus barcos e agora possuem uma lancha para passeio dos turistas.

Em Icapuí, o Governo Municipal tem discutido estratégias de alternativa pesqueira, com foco no atum, no mar e, o desenvolvimento da aquicultura, em terra. Ambas com foco na sustentabilidade, as ações já têm adesão do setor de pesca.

Desemprego e vicio

mar
Em Icapuí, Mizael Avelino largou o ofício do qual ganhou dinheiro suficiente para comprar barco e moto. Hoje, viciado em crack, sonha em voltar ao mar, enquanto faz biscates para sobreviver

Antes de deixar de ser do mar, Mizael Avelino deixou de ser dele mesmo. Pescou muito, ganhou dinheiro, comprou barco, carro, moto e vacas. Descendo na praia, o caminho de casa ficou mais distante. Passou a comemorar o desembarque das lagostas com a tripulação nos cabarés entre as praias de Redonda e Peroba, em Icapuí. Não tem lembrança de alguma vez ter ficado nauseado com as ondas, a "mareação", mas pensou que o cachimbo que lhe ofereceram para sugar teria uma sensação parecida, com náusea dando lugar à euforia.

Até hoje surfa numa onda chamada crack. Onda que levou o dinheiro, o barco, o carro, a moto e as vacas. Depois, os colegas tripulantes, exceto os também entorpecidos. Não é fácil a rotina de pesca no mar. Cada vez mais comum, as drogas são uma companhia, sobretudo, para os que passam mais dias longe de casa. Quem pratica a pesca com mergulho, em que levam horas num sobe e desce até 30 metros de profundidade, ficar 'chapado' é um querer aguentar-se. Mas se sair da água é difícil, o mergulho no vício é outro desafio social porque enfrentam comunidades pesqueiras.

Mizael passou a trocar lagosta por pedras de crack, até não poder mais. O crustáceo acabou nas suas mãos antes de faltar no mar. "Eu não queria mais pescar. Minha mãe vinha me dar conselho, dizendo que aquilo não ia dar certo, ia destruir minha vida". Sua esposa já não dizia mais. No começo, ia buscá-lo na porta do cabaré, depois pediu que não voltasse mais à porta de casa. Enquanto isso, Micael, Micaele e Davi foram crescendo. Os filhos hoje são adolescentes e moram com a mãe em Fortim, município 74km distante. Tem cinco anos que não veem o pai. "Da última vez que me viram, correram com medo. Nem me conhecem mais. Tenho saudades. A cabeça da gente é os filhos".

Quando esquece a droga, Mizael se lembra dele e do mar. Sente-se mais forte e sai pelas ruas perguntando quem tem um serviço em terra - para o mar não chamam mais. Quando nos encontramos, fazia manutenção da cerca em uma pousada na praia de Peroba, trabalha de manhã e tarde, sem direito a almoço, por R$ 30 ao final.

Tentando viver um dia de cada vez, faz dos dias "limpo" das drogas um fôlego nesse mergulho em que se tornou sua vida. Sonha em pescar como antes e, quando voltar, ter uma família esperando. Mas, quando chega o fim de semana, zera outra vez todos os planos.

LEIA AINDA:

> Seca da lagosta: trabalho, vida e morte em alto-mar
> Produção da lagosta tem queda livre
> Seguro-defeso compete com fome e ganância
> Sem fiscalização, "justiceiros" armados podem voltar ao mar
> Um mergulho para invalidez ou morte

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.