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Seca da lagosta: trabalho, vida e morte em alto-mar

00:00 · 25.11.2017 / atualizado às 01:01 por Melquíades Júnior (textos) /Natinho Rodrigues (fotos)

Tem cada vez menos lagosta no mar. A que chega em terra não vale metade do que já rendeu em anos recentes. Mesmo assim, não cai o preço como iguaria nos menus dos restaurantes mais refinados de Fortaleza, Natal, São Paulo e tantas cidades de países como Estados Unidos e Canadá, para onde ainda são exportadas.

Falta comida no prato de quem pesca. Após dias no mar, voltar de mãos vazias virou rotina. Feito onda, o pescador insiste num vaivém de trazer água salgada e nada mais. Vai pela simples sina de ir, pois é o que sabe fazer, para o que foi parido e criado. E não é garantia voltar.

Porque o mar é estrada sem acostamento, não são raros naufrágios e problemas de saúde, seja infarto ou embolia causada pela pesca de mergulho. Nada disso é novidade, mas quando o esforço da captura não encontra lagosta, lutar em vão passou a ser uma agonia de que tentam se livrar. E encontra um desafio ainda maior como pescador: deixar de sê-lo.

A produção caiu 70% se comparada à de 15 anos atrás. Na prática, são centenas de manzuás vazios, as gaiolas artesanais que capturam os crustáceos no fundo do mar. A pesca predatória, indiscriminada e em larga escala, é apontada como a principal causa para a escassez.

"Pescaram tanto, e de tantas formas, inclusive pegando as fêmeas e os filhotes, que o resultado é esse. O próprio pescador se preocupando tanto só com o hoje que não garantiu o amanhã", reflete Tobias Soares, do Sindicato de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Município de Icapuí (Ceará), ele mesmo várias vezes ameaçado de morte devido aos confrontos entre os anos 1990 e 2000, conhecidos como II Guerra da Lagosta, que resultou em apreensões, linchamentos e mortes.

A primeira guerra, de 1961 a 1963, foi um embate diplomático entre os governos do Brasil e da França envolvendo suas marinhas. Os franceses insistiam em capturar lagosta no litoral nordestino, até que o Brasil enviou caças da força-aérea, navio e submarino, uma demonstração de força apenas simbólica, pois nunca protegeu a pesca.

Hoje, o Ibama não tem sequer um barco para fiscalizar a captura predatória nesse mesmo litoral. O descaso faz brecha para a ação de justiceiros, armados e encapuzados, que fiscalizam por conta própria. Um tempo de rixas e assassinatos que o litoral cearense tenta esquecer, mas a realidade de escassez em alto mar e ausência do poder público federal criam novamente as condições beligerantes de um passado recente.

Defeso

Daqui a uma semana, em 1º de dezembro, começa o período de defeso da lagosta. Para garantir a reprodução da espécie, é proibida a pesca nos próximos seis meses. Não indo ao mar, portanto, milhares de pescadores recebem um salário mínimo, durante cinco meses, de seguro-defeso. Nos 30 dias restantes, sem benefício nem lagosta, os trabalhadores do mar se tornam, na prática, compulsoriamente desempregados não-segurados por determinação do Governo Federal.

Neste DOC, a reportagem expõe a instável luta de pescadores pela sobrevivência em meio às diferenças culturais de captura nos mais de 300 km de litoral percorridos entre os municípios de Icapuí (CE) e Rio do Fogo (RN). Traz a história de quem teve o corpo paralisado ou mesmo engolido pelas águas, só restando suas 'viúvas do compressor', num mercado em que a fome compete com a ganância.

O mar sem lagosta é, nessa perspectiva, o sertão sem chuva nem plantio. Há, atualmente, seca dos dois lados no Nordeste brasileiro.

Webdoc - A seca da lagosta: trabalho, vida e morte em alto-mar:

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