Reportagem Santa Cruz da Baixa Rasa

Romaria dedicada a um vaqueiro desconhecido na Chapada do Araripe

No dia 25 de janeiro, centenas de vaqueiros sobem a serra para pagar promessas, festejar e se confraternizar
00:00 · 19.05.2018

Um homem se perde na Chapada do Araripe, morre fome e sede e, tempos depois, é encontrado em estado de decomposição. Alguns dizem que, em sonho, ele agradeceu a quem o enterrou, podendo agora descansar. O chamam de Antônio, Francisco, Paulo, Pedro, mas não se sabe quem era ou se, de fato, está sepultado no local. Dizem que foi um vaqueiro que saiu à procura de uma boiada na mata e nunca mais voltou, outros falam que se desprendeu de seu comboio, que seguia até Pernambuco para trocar farinha e rapadura e nunca mais foi visto. Este episódio, provavelmente, aconteceu no fim do século XIX.

O certo é que foi edificada uma cruz na Baixa Rasa, local onde supostamente o homem foi enterrado, que fica a cerca de 20Km da sede do Município de Crato. Anualmente, no dia 25 de janeiro, centenas de pessoas sobem a serra para lembrar o martírio deste homem, pagar promessas, festejar e confraternizar. Neste ano, aproximadamente 2 mil pessoas participaram da 104ª edição da Romaria da Santa Cruz da Baixa Rasa. Dessas, 600 eram vaqueiros, de várias partes do Cariri e, também, do Estado vizinho de Pernambuco.

LEIA AINDA:

> Vaqueiro: tradição e modernidade no Interior do CE
> A vida inteira de dedicação à lida com o gado
> Tradições ainda resistem em meio às mudanças
> Do sonho de menino à realidade das pistas
> Mulheres conquistam, aos poucos, espaços na vaquejada
 
Mas tudo surge a partir de uma promessa de uma senhora conhecida como Dona Pretinha, que, sensibilizada com essa morte, faz uma promessa para salvar sua família de uma "peste" que acometeu o Cariri no início no século XX. Nenhum parente foi atingido pela doença. A partir do dia 25 de janeiro, começou a celebrar um terço, ao meio-dia, aos pés da Santa Cruz da Baixa Rasa. Após a sua morte, a família deu continuidade à devoção.

doc
Transformações

A partir da década de 1970, a Festa passa a ter uma missa celebrada às 11 da manhã e vai se fortalecendo, passando a receber zabumbeiros e vaqueiros para animar o evento. Com o passar dos anos, os vaqueiros começam a dar uma nova roupagem para a romaria, inclusive, ressignificando a história. Agora, o túmulo da Santa Cruz é tratado como de um profissional como eles, que morreu à procura da boiada, ao lado do cavalo e do cachorro. Aquela morte tão temida e dolorosa santifica o personagem que hoje, intercede por estes "trabalhadores livres".

"A morte, principalmente no século XIX, deveria ser acompanhada pela família. As pessoas tinham uma hora para morrer, e só estavam prontas para uma boa morte quando estavam velhos, no leito familiar. Então, essa morte foi sensibilizando a memória das pessoas aqui na região do Cariri", explica a professora e historiadora Ana Cristina de Sales, que pesquisou a festa no seu curso de mestrado.

O terço se mantém até hoje, organizado pelas bisnetas de Dona Pretinha. Ao redor da Santa Cruz, pelo menos 12 túmulos se formaram por pessoas que queriam ser enterradas próximas ao santo popular. O local se tornou um cemitério popular no meio da Floresta Nacional do Araripe. Em 2015, a Festa da Santa Cruz da Baixa Rasa foi tombada como Patrimônio Material e Imaterial do Município.

Em nenhum momento, no seu trabalho, Ana Cristina questiona se há ou não uma pessoa ali enterrada, porque, para as pessoas que cultuam, existe sim e este alguém está intercedendo junto a Deus para superar as barreiras e as enfermidades. "O fato de várias pessoas estarem enterradas ali deve ser por acharem que estavam mais perto da sua divindade, ou seja, mais próximo da sua salvação", explica a professora. Os enterros no local foram proibidos, pelo Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em 2002.

O dia

Logo cedo, centenas de vaqueiros se concentram no Bar do Wilson, no bairro Lameiro, por volta de 5h30. Muitos chegam usando trajes tradicionais, como chapéu de coro e gibão. Grupos políticos também se unem para subir a serra. O dono do estabelecimento serve um caldo por contra própria para as pessoas subirem fortalecidas. O alimento virou uma tradição da romaria.

Às 8h, o grupo parte depois de rezar um "Pai Nosso" e uma "Ave Maria" antes de subir a ladeira, portando imagem de Nossa Senhora Aparecida, protetora de todos os pobres e oprimidos, além de padroeira do Brasil. Outro santo cultuado é São Jorge, santo dos cavaleiros.

Boa parte dos vaqueiros de Crato participam ou já participaram da celebração e tratam a festa como um momento de fé e reencontros. Às 11 horas, eles participam da missa, horário que chega um andor de São Sebastião, trazido pela família remanescente da criadora da romaria. Uma queima de fogos acontece após a liturgia.

Grupos culturais, como a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto e o Reisado do Mestre Aldernir animam o evento, que também conta com dezenas de barracas de comidas. "A festa começa e termina no bar, porque, quando está voltando todo mundo, os paredões de som já esperam lá em baixo", descreve a professora.

"Não faço distinção entre uma festa sagrada e uma profana. O sagrado está junto com o profano, porque a mesma pessoa que vai materializar uma graça alcançada, vai ver amigos, conhecer pessoas, se alimentar, porque lá tem também as barracas, vai ter um espaço de socialização. Não tem só um lado profano e sagrado, existe essa mistura", enfatiza Ana Cristina.

Devoção

Há diversos relatos de milagres atribuídos à Santa Cruz da Baixa Rasa, além do fundador. Algumas pessoas, inclusive, levam alimento para os vaqueiros, cumprindo sua promessa. Em alguns anos, a comida é distribuída de graça. Além disso, outros fiéis deixam garrafa de água ao lado do túmulo, lembrando a morte de sede do personagem. "Segundo elas, no dia seguinte, a água não está mais lá", conta a pesquisadora. Tudo isso é uma representação simbólica para curar a fome a sede do homem que morreu ali.

No caso dos vaqueiros, é comum pedidos ligado às coisas do campo e ao cuidado do seu cavalo. Alguns fazem promessa para vencer uma vaquejada, curar o casco do animal ou uma mordida de cobra. "A romaria da Baixa Rasa é muito particular. Grande parte vai para conhecer ou celebrar junto de alguns vaqueiros. Alguns vão para a celebração do terço. Uma parte tem promessa, chora, agradece os milagres, outros vão apenas para diversão. Tem aqueles que só vão para o bar, no fim, mas não quer dizer que perde caráter de romaria", completa Ana Cristina.

Entre os vaqueiros, se repete muito a história de lembrar o vaqueiro "morto de fome e sede" como representante da lamúria do sertanejo. De certa forma, se assemelha à injustiça sofrida por Raimundo Jacó, assassinado "pela inveja", com afirmava seu primo, Luiz Gonzaga. No entanto, para o vaqueiro Antônio Ferreira, por exemplo, representa um encontro entre os colegas de cela. "A gente se encontra com uns vaqueiros que não vemos há muito tempo. Daí vai conversar, relembrar as coisas do passado", explica.

Os chapéus de couro se confundem com as diversas camisas de equipes, que destacam seus grupos pela cor entre a multidão. "Acredito que o público vem se repetindo", conta Ana Cristina. Organizada pelo Ibama; pela família Firmino, remanescente da criadora; e pelos vaqueiros, o público que participa da Festa da Santa Cruz da Baixa Rasa sente falta de mais participação do Poder Público para aumentar o alcance da romaria ainda mais. Neste ano, vaqueiros de Exu (PE) e de cidades vizinhas, como Nova Olinda e Juazeiro do Norte, estiveram presentes.

Para a professora, a ida até a cavalgada, até a Baixa Rasa, é uma forma de reforçar a identidade do "ser vaqueiro". É mais que cuidar do cavalo, a lida com o campo, o aboio, a paisagem e o ambiente. Por eles estarem ali vestidos na roupa de couro, é muito significativo. Ele remete ao Nordeste no século XVII. Faz parte da identidade. É o trabalhador livre que cuidava da fazenda, ordenhar, curar, buscar na mata animais "encantados", que eles faziam algum tipo de fala pelos aboios, finaliza.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.