Reportagem Bloco Damas Cortejam

Resistência: são meus o corpo, a rua e a percussão

Integrantes do Bloco Damas Cortejam
00:00 · 10.02.2018

"É no Carnaval que existe a objetificação do corpo da mulher e aumenta a quantidade de assédios. Então é principalmente no Carnaval que a gente precisa falar sobre isso". A afirmação-síntese de uma luta tão forte quanto incessante ganha tom ainda mais intenso quando a percussionista do bloco Damas Cortejam, Thais Costa, 30, define o ciclo carnavalesco como "espaço para falar de política, sim", e principalmente de feminismo. A cultura machista da "mulher-objeto", que se fortalece no contexto da festa e culmina em diversas situações de assédio moral, psicológico e sexual; é apenas uma das multiformes opressões à figura feminina - que segue na busca por legitimação e igualdade.

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"Ano passado, o técnico de som do nosso bloco no Mercado dos Pinhões ligou o equipamento e saiu. Eram mulheres, então ele se achou no direito de não dar apoio. Hoje, nós fazemos tudo, desde a produção até o som. Porque os caras querem mandar, acham que a gente não consegue. A mulher tem que dobrar esforços pra ser respeitada na música", relata a integrante da banda formada só por mulheres há cinco anos, e atração da programação carnavalesca da Capital há três.

Situações de desvalorização da mulher, aliadas a assédios de várias naturezas, integram apenas o topo da vasta lista de desrespeitos que tornam "fundamental falar sobre feminismo". "Já tivemos de parar o bloco pra falar de uma menina que estava sendo assediada. Quando você vir uma mulher sendo agredida, é preciso, sim, 'meter a colher', ajudar", alerta a percussionista, mencionando uma das situações de violência que pelo menos 4.081 mulheres conseguiram denunciar, somente no período de Carnaval do ano passado, à Central de Atendimento à Mulher (180).

Denúncias

Os dados nacionais, subestimados em relação às vítimas que não concretizam a denúncia, são da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres (SPM), e contrastam totalmente com os registros da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS): segundo a Pasta, em 2016, foram registrados 17 casos de crimes sexuais contra mulheres no Estado, no período de Carnaval; número superior aos 15 atentados violentos ao pudor, estupros e situações de exploração sexual de menores contabilizados no mesmo intervalo do ano passado.

A engenheira civil Clívia Almeida, 31, por exemplo, poderia ter inflado os números, mas o episódio em que teve o domingo de Carnaval de 2016 "acabado" antes mesmo de chegar ao Bloco Sanatório Geral, no bairro Benfica, não consta nas estatísticas oficiais. "Eu estava pedalando, a caminho da festa, quando um carro com cinco caras parou me trancando. Um deles disse 'ei, gatinha, me dá um beijo' 'não!' 'vai dar, sim!' e abriu a porta pra descer. Um amigo meu chegou na hora e impediu que aquilo se concretizasse", relembra Clívia, cujo ímpeto de denunciar foi amordaçado pelo medo.

Para a professora do Instituto de Cultura e Arte (ICA) da Universidade Federal do Ceará (UFC) Renata Kelly da Silva, esse comportamento opressor tende a ser enfraquecido pela luta feminina. "Os homens que habitualmente chegam para beijar sem pedir licença estão mais atentos. Nós já conseguimos dizer 'não' e encontrar no próprio espaço da festa uma coletividade, a ponto de constrangê-los", avalia, ressaltando, porém, a necessidade de mudança da figura masculina. "Precisamos atuar com o homem para uma nova masculinidade, baseada no respeito à diferença e até a si mesmo, para que ele se permita ser sensível, frágil. À medida que isso vai se transformando, aproximando do feminino, vem a possibilidade de transformação", pontua a professora.

Fortalecimento

Outro problema latente na cultura carnavalesca, conforme destaca Silva, diz respeito à mulher negra, "ainda mais vulnerável e objetificada". "A mídia apresenta a mulher negra como a mulata desejada, e no Carnaval isso se exacerba. É preciso um processo de desconstrução, inclusive das mulheres não-negras, para entender e contribuir nessa luta".

Esse fortalecimento mútuo entre a classe feminina - definição do termo "sororidade" -, como afirma a titular da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres do Ceará, Camila Silveira, "é imprescindível para encorajar denúncias". "Podemos até ter política pública, mas se não houver apoio, não tem sucesso. Além de campanhas contra o assédio, nós dialogamos com a segurança sobre problemas, porque ser vítima e não ter assistência adequada é inadmissível", frisa a titular, sob concordância da integrante do Damas Cortejam.

"Quem faz isso funcionar somos nós, com apoio, mas o poder público não está presente. Vejo muitas ações e campanhas em redes sociais, mas não vejo na prática", critica Thais Costa, ao que alerta para a necessidade de pautar o respeito ao feminino em todos os espaços. "Falta também os blocos falarem sobre isso, e não só os feministas, não só os compostos por mulheres. Todos precisam debater mais sobre assédio e violência. Isso é da conta de todo mundo".

Serviço:

Canais para denúncias
 
CIOPS–190
Central de Atendimento à Mulher–180

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