Música

Resistência e história no compasso das fitas K7

Representativo e precioso dentro da cultura do "faça você mesmo", o K7 ganha uma nova chance no circuito mainstream da música

Exemplares do Canadá, como K7 do Blasphemy, e de grupos da Capital, caso do Zoia, integram acervo de colecionador
00:00 · 14.07.2018

Rebobinar com caneta esferográfica para economizar pilhas e ter uma caixa de sapato vazia para acomodar a coleção. Sem exageros, estas eram algumas das artimanhas mais comuns aos usuários da fita cassete. Diferente do Long Player (vinil), definitivo de fábrica quanto ao posicionamento e formatação das faixas, estes objetos ofereciam uma então incomparável experiência de edição. "Gravar por cima" do material originalmente registrado era uma realidade plausível para quem era durango, mas queria consumir os grupos ou artistas preferidos.

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A outrora autonomia do consumidor através dos K7s pode ser esmiuçada através dos dados apresentados pelo artigo "Indústria da música ou indústria do disco? A questão dos suportes e de sua desmaterialização no meio musical" (2012), de Eduardo Vicente, docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Ao investigar o desenvolvimento histórico da indústria fonográfica a partir da perspectiva dos suportes de distribuição, o pesquisador teceu apreciações sobre como o cassete acabou impulsionando a pirataria em terras brasileiras. Incorporadas pelos grandes estúdios desde o final dos anos 1940, as fitas magnéticas passaram a ser comercializadas para o grande público apenas em 1963.

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Três décadas de história da música extrema estão materializadas na coleção de João Felipe. Desde 2012, ele garimpa raridades e já contabiliza mais de 1 mil exemplares, aos quais dá a manutenção fundamental: a audição

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O item chegou no Brasil em 1970 e quatro anos depois, estimava-se que as gravadoras utilizavam apenas 4 das 11 milhões de unidades produzidas no País. Boa parte desse restante tinha como destino o uso ilegal, tanto no âmbito doméstico como em escala comercial. "Assim, se o fortalecimento do suporte, por um lado, aumentou o volume global de vendas da indústria, por outro, possibilitou também um rápido crescimento da atividade dos piratas", defende Vicente. A curva da história, entretanto cobrou o preço. Em 1986, o total de unidades de cassetes legais vendidas era equivalente a aproximadamente 50% do total de LPs. Dez anos depois, pontua, representava pouco mais de 5% do total de CDs vendidos pelas lojas tupiniquins.

Alternativas como o DCC (digital compact cassette), da Philips, e o minidisc (MD), da Sony, tentaram ocupar o trono dourado das fitas, porém a avalanche chamada CD-R foi literalmente a última pá de cal na popularidade das fitinhas. O lixo e o quase total esquecimento foram os únicos destinos destes objetos.

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Aventura cósmica

Respeitando a máxima comum à mítica figura do malandro brasileiro, o K7 está longe de se aposentar, parece ter dado apenas "um tempo". Sinais de uma volta por cima começam a ser perceptíveis, justamente no meio onde, anos antes, o suporte foi totalmente defenestrado: o circuito mainstream musical. Essa sobrevida envolve personagens totalmente díspares. Tem corporações como Disney, lista das mais vendidas e até mesmo fábricas (uma no Brasil, inclusive) dedicadas a resgatar estas peças do limbo.

A aquisição de K7 no mercado gringo disparou desde 2016, muito por conta do saudosismo puxado pela série da Netflix "Stranger Things" (2016) e pelo filme da Marvel/Disney "Guardiões da Galáxia" (2014). Ambas as trilhas foram lançadas em fita e injetaram outra perspectiva de contato com estes produtos. A estratégia, no caso do longa-metragem espacial, foi colocar este objeto como uma espécie de elemento da trama. Peter Quill (Chris Pratt) é um humano cujo a única lembrança da Terra são fitas com músicas dos anos 1970 gravadas por sua falecida mãe.

A escolhas musicais do diretor James Gunn são espertas e se encaixam naturalmente no ambiente cósmico dos heróis. Sob uma certa perspectiva, o diretor conseguiu imprimir nos espectadores a mesma devoção de Quill pelas "Awesome Mix Tape" 1 e 2 (seria uma referência a Rahad Jackson?). Estabelecer a fita como um MacGuffin (termo para descrever um objeto sem importância dentro da trama geral, mas que motiva o protagonista) repercutiu no aumento de 74% nas vendas de fitas no EUA, segundo dados divulgados pela Nielsen Media Research.

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A empresa carioca tem capacidade para fabricar 4 mil cassetes por mês. O pontapé inicial foi dado com edições de "Usuário" (1995), do Planet Hemp; "(Des)concerto ao vivo" (2007), de Pitty; e "Voz & violão - No recreio vol. 1" (2015), de Nando Reis.

A fábrica não detalha o potencial de vendas do produto. Sobre o resgate do formato, em nota, a Polysom avalia que, com o K7, "repetem-se aqui os exemplos de romance, tradição e saudosismo, que sempre fazem bem. Assim como o vinil, o cassete não irá substituir nada, mas será uma opção a mais para se reproduzir música".

Para se ter uma base do investimento, o número mínimo de produção da Polysom é de 50 unidades por título. O pacote de fitas, sem encarte e plastificação, sai por cerca de R$ 850 (sem frete) - mas a empresa tem opções mais completas de serviço.

Compromisso

Os recentes exemplos só riscam a superfície de um universo muito mais complexo. Em paralelo à realidade do mercado convencional, os K7s mantiveram profunda relevância no cenário do metal extremo mundial. Para compreender uma parte deste vasto território sonoro, o colecionador e ativista do meio underground João Felipe desvendou e traçou algumas pistas responsáveis pela manutenção do fascínio por esta mídia.

"Pô, cara. Tu sabe que aqui em casa não tem fita de Roberto Carlos, né?", adiantou num primeiro contato sobre a coleção composta por mais de 1 mil unidades. Do black metal ao death, cravando também as muitas ramificações do grind, noise, crust e gore, o acervo do colecionador estabelece uma teia viva do que a área andou produzido nas últimas três décadas. O serviço de garimpagem e retransmissão desse conteúdo transita sobre os muitos cenários geográficos onde a música obscura andou fincando raízes.

O interesse por respirar o mofo das fitas magnéticas está intimamente relacionado ao contato com os primeiros shows de grupos identificados com o som extremo. As diferenças entre os suportes, aqui, foram fundamentais. Em detrimento do CD-R, mídia considerada por Felipe mais descartável por conta do tempo de vida útil e do pouco valor afetivo associado a ela, as relações mediadas pelos K7s ajudam a manter as engrenagens do meio alternativo.

"A fita, por ser mais restrita, você passa para uma pessoa mais específica. Você sabe que ela vai ouvir e dar um valor. Vai colocar na prateleira e ter um cuidado a mais. Isso dificulta que aquele registro se perca. Quem recebe o K7 de uma banda amiga tem um apreço maior do que um CD-R, que pode mofar e se perder na gaveta. Além da durabilidade, tem um fetiche maior tanto para quem recebe como para quem passa para frente", analisa.

O compromisso de infectar cada vez mais a arte com a trilha ruidosa dos tapes iniciou em 2012. Nesse intervalo, reflete, o objeto teve a relevância ampliada seja pelos motivos estéticos inerentes ao som low-fi (baixa fidelidade) dos tapes, como também por todos os aspectos comunicacionais presentes nesse organizado e comprometido meio underground.

Por não ser escravizada pelas estratégias midiáticas e convencionais do mainstream, a expressão sonora extrema dialoga diretamente com um nicho bastante particular. Partindo desse princípio, orienta, apropriar-se de um formato pouco utilizado tem relação imediata com a transmissão de mensagens entre esses atores do subterrâneo. A fita se materializa como uma espécie de elo comunicativo, o que inclui também a circulação de fanzines, livros, camisas e o que mais couber nos pacotes enviados pelos correios.

"É um formato que tem a ver com nossa mensagem. Se você quiser lançar uma fita, tem dois caminhos: ou você tem muita grana pra contratar o serviço de uma fábrica ou você vai ter que se aventurar num sebo pra comprar uma fita, gravador e dedicar boas horas da sua vida a ficar gravando fita por fita, fazendo e xerocando encarte. É resistência", adverte Felipe.

O cuidado de manutenção é basicamente escutar as peças para evitar o acúmulo de poeira. Mesmo com todo o teor sentimental envolvido nesses seis anos de caça a artefatos considerados quase mortos, o colecionador aponta que a solução é separar aquilo que ele já deixou de escutar. As peças guardadas em caixas fatalmente podem se deteriorar.

Neste momento, Felipe esclarece que a internet também é uma ferramenta primordial na preservação destas obras. "O pessoal das antigas - aqueles que possuem, sei lá, 1 mil ou 2 mil fitas da época - está digitalizando e colocando estas música na internet. Tudo isso para a parada não morrer. Por conta da tiragem limitada, muitos cassetes acabaram ficando pelo caminho. É uma história que se não digitalizar ou relançar, morre", finaliza o aficionado.

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