Reportagem Biodiversidade

Raízes fincadas no Semiárido brasileiro

Os carnaubais se desenvolvem em áreas alagáveis
00:00 · 28.10.2017 por Maristela Crispim - Editora

Da vida longa e múltiplas utilidades, ela ganhou o apelido "árvore da vida". Presente no brasão Ceará, tornou-se árvore-símbolo do Estado em 2004. Descrita pela primeira vez em 1648, os desbravadores europeus identificaram na Copernicia prunifera uma fonte de cera de grande utilidade para a fabricação de velas, a princípio. Mas os indígenas já a conheciam e, pelo tronco áspero e resistente, deram-lhe o nome pelo qual essa palmeira nativa do Bioma Caatinga ficou conhecida: carnaúba, do Tupi, "a árvore que arranha".

Seu produto mais nobre e rentável, a cera, faz parte do mecanismo natural de proteção e adaptação da planta ao clima Semiárido. Ela aumenta nos longos períodos de estiagem, para impedir a perda de água, exatamente quando o agricultor familiar deixa de produzir pela escassez de chuvas.

Se, no início, a cera servia para garantir a luz das noites escuras do sertão, com o passar dos anos, foi proporcionando o brilho do assoalho, os sapatos lustrosos, as frutas vistosas. Hoje, a sua utilização vai desde a indústria cosmética até a aeroespacial, com uma passagem relevante pela farmacêutica.

arte
Geografia

Os carnaubais desenvolvem-se às margens dos cursos d'água, em áreas inundadas periodicamente. A árvore suporta o alagamento prolongado, assim como elevados teores de salinidade. Assim, ocorre do litoral ao sertão, distribuída da Bahia ao Maranhão, com maior concentração nos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte.

Por muitos anos, seus troncos foram utilizados intensamente no madeiramento dos telhados das casas, assim como a palha serviu de cobertura às moradias.

A palha, depois de batida para a retirada do pó e a fabricação da cera, é utilizada na confecção de vassouras ou trançada na forma de chapéus, bolsas e nos objetos decorativos e utilitários que a imaginação das artesãs (maioria mulheres) mandar.

De crescimento lento e propagação fácil, é muito resistente e praticamente não é atacada por pragas e doenças. Mas, nos últimos tempos, cresce silenciosamente nos carnaubais uma ameaça importada da ilha de Madagascar, uma trepadeira de muitos nomes, como boca-de-leão e unha-do-diabo, que concorre com a carnaúba e, sem inimigos naturais, consegue matá-la em alguns anos.

Memorial

Apaixonado por toda essa história, em 2010, o publicitário mineiro de Juiz de Fora, radicado no Ceará há 35 anos, Afro Moura Negrão Júnior, criou o Memorial Carnaúba. Instalado no Sítio Volta, em Jaguaruana, o espaço, hoje um Ponto de Cultura, é dedicado a reunir tudo o que diz respeito à espécie, tanto em termos históricos, quanto industriais e artesanais, em meio a um vistoso carnaubal.

"Com esse trabalho dedicado à carnaúba no Estado do Ceará, nós conseguimos a doação deste prédio, de 124 anos, onde funcionará o Memorial Carnaúba definitivo, que vai abrigar toda cultura, trabalho do carnaubeiro, não só da região do Vale do Jaguaribe, mas de todo o Estado do Ceará", explica, acrescentando que mil mudas estão sendo produzidas, em parceria com a Enel Distribuidora, para o restabelecimento completo daquela reserva natural.

Na área externa, fotografias e alguns objetos, num espaço natural, rural, mostram, desde o corte até a produção do pó e da cera da carnaúba. Na parte interna, o visitante conhece objetos artesanais, amostras do pó, da cera, antiguidades. "Nós temos aqui a mostra real do que ainda sobrevive da carnaúba, apesar de todas as dificuldades em nível ambiental e econômico. Por ser a mais majestosa das palmeiras existentes no mundo, a nossa carnaúba (Copernicia prunifera) ainda produz o pó e a cera que todo mundo usa, em mais de cem produtos", ressalta.

Expedição e pesquisa

A Fazenda Raposa fica no Município de Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Pertenceu à Companhia Ceras Johnson, de 1937 a 1969, quando foi doada à Universidade Federal do Ceará (UFC). O mostruário vivo na época da doação à UFC era constituído por 50 mil carnaubeiras de grande porte, 50 mil de pequeno porte e oito campos plantados com Copernicia spp., perfazendo uma população de 1.672 exemplares de 14 espécies exóticas, além da nativa, Copernicia prunifera. As nativas foram plantadas de 1938 a 1950, totalizando 88.751 exemplares. A partir de 1940 iniciou-se o plantio das espécies exóticas, a maioria oriunda de Cuba. Elas estão alojadas em oito locais que foram plantados pela S.C. Johnson & Son, Inc. De 1947 a 1955.

"Ao longo dos anos, os recursos naturais da Fazenda Raposa estão sendo ameaçados pelos incêndios florestais, retirada de madeira, de arisco e, ultimamente, pelo processo acelerado de urbanização do seu entorno", explica o professor da Agronomia/Fitotecnia da Universidade Federal do Cará, Marcos Esmeraldo. Sua aluna, Erivanda de Oliveira é doutoranda, com pesquisa sobre reprodução de mudas de quatro espécies de copernicias cubanas introduzidas na Fazenda Raposa. "O objetivo é difundir um pouco dessas espécies introduzidas na Fazenda, mostrar que elas são adaptáveis e que podem ser produtivas, tanto quanto a nativa, e que os produtores de cera podem introduzir essas espécies em seus campos", afirma.

Símbolo Oficial

No ano de 2004, foi declarada árvore-símbolo do Ceará, pelo Decreto N° 27.413/04, do então governador Lúcio Alcântara, que condicionou a derrubada e corte à autorização dos órgãos estaduais competentes, o que, no entanto, até hoje carece de regulamentação e, portanto, não é cumprido.

Em termos da extração da cera, somente no Estado do Ceará, há sete polos produtivos. Hoje, são nove indústrias, sendo sete na Região Metropolitana de Fortaleza, uma em Itarema (Litoral Oeste) e outra em Russas, no Vale do Rio Jaguaribe.

LEIA AINDA:
 
> Carnaúba: árvore da vida símbolo do Ceará
> Artesãs: mãos ágeis que transformam a palha
> A cera só é produzida durante a estação seca
> Produto tem grande importância na economia regional
> Ameaça que vem crescendo silenciosamente

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.