Reportagem Praia de Melancias,

Raimunda da Silva: uma casa, muitos saberes

00:00 · 30.09.2017 / atualizado às 13:30 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral / Fotos: Cid Barbosa e Helene Santos

Logo na sala da casa, localizada na Praia de Melancias, em Icapuí, a tela de labirinto indica que ali mora uma artesã. O tecido bem branquinho revela o capricho de dona Mundinha, mulher de corpo miúdo e disposição de sobra. Em poucos minutos de prosa dispara: "não gosto de ficar parada, nem de perder tempo". Com essa determinação, ela aprendeu, ainda criança, a fazer renda de bilro, de labirinto e a tecer com a palha de carnaúba.

Na infância, sua família vivia basicamente da pesca, da agricultura e do artesanato feito em casa. Produziam chapéus de palha, urus (bolsas de pescador), esteiras e as urupemas, também chamadas de peneira. "Agora tem muito produto de plástico, aí as pessoas não se interessam mais, nem de fazer, nem de comprar". Toda a matéria-prima era extraída do mato e o ofício exigia habilidade, mas isso nunca faltou para Francisca Raimunda da Silva de Oliveira, 57 anos.

A técnica dos trançados foi repassada por sua mãe, dona Luzia, que ficou cega precocemente, aos 42 anos. Após sentir uma forte dor de cabeça, veio o diagnóstico: perda completa da visão. Mundinha, à época com 9 anos, tinha medo que a matriarca pudesse morrer. Superado o trauma, a criança passou a ser os "olhos da mãe" e, assim, dona Luzia continuou trançando.

"Naquela época, a gente não tinha nada, muito menos aposentadoria. Precisava mesmo continuar trabalhando", recorda Mundinha ao se referir à perda da visão de sua mãe, hoje com 90 anos. Por conta das responsabilidades assumidas, a menina deixou a escola, porém nunca abandonou o artesanato: "Pra mim, isso aqui (o artesanato) é uma terapia para não pensar besteira".

A vida de Mundinha sempre foi de luta. Antes do casamento, costumava sair para oferecer os trançados e as rendas nas praias do estado vizinho, no Rio Grande do Norte. Hoje, dedica-se somente à feitura do labirinto e das rendas de bilros. Vende na própria casa ou repassa para outros comercializarem. "Eu só sei que eu não fico parada esperando uma encomenda, estou sempre fazendo um trabalho novo", diz.

A sábia senhora, entretanto, lamenta a falta de interesse dos jovens em aprender. "Eles só querem saber do celular e dessa internet", dispara. Em casa convive com esta realidade, dos três filhos, duas são mulheres, mas nenhuma se interessou em seguir os passos da mãe e da avó.

Ciente dos problemas atuais, sente saudade do tempo em que os homens garantiam ao menos a pesca. "A esta hora (aponta para eles), estavam todos no mar, mas agora estão todos aí parados. Não temos mais peixe nem lagosta como tinha antes", fala criticando as grandes embarcações que invadiram o mar de Icapuí.

Como consequência desse declínio, os produtos artesanais, em especial os de palha de carnaúba, ficaram esquecidos. Contudo, a forma de tecer continua viva na memória da artesã. Com habilidade, ela demonstra o passo a passo. Vai à carnaubeira, extrai a folha com facão, prepara o talo e começa a trançar. Com o cipó do mato, monta a borda da urupema e junta as tramas, entrelaçando histórias e revivendo o seu valioso saber.

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