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Quando a necessidade vira vício

00:00 · 12.08.2017 / atualizado às 08:42 por Textos: Lêda Gonçalves / Fotos: Nah Jereissati e Reinaldo Jorge

Subway Surfers, Candy Crush Saga, Cars, Slither.Io, Cops - Police Chase. A dicção de Andrew Miguel, 3, provavelmente ainda nem dá conta de listá-los, diante de uma língua que enrola até na tentativa de dizer o próprio nome. O estrangeirismo que batiza todos os aplicativos de jogos, porém, cabe nas diminutas palmas das mãos. O dia todo. Todo dia. Do celular ao tablet, do tablet ao celular, enquanto as baterias - dos dispositivos e a do próprio corpo - tiverem carga.

 
A idade é pouca, mas a destreza dos dedos de Miguel nos toques rápidos sobre as telas não segue a proporção do corpo - que paralisa, deitado no sofá, com olhos vidrados no vaivém dos elementos gráficos dos videogames. "Ele começou a gostar dessas coisas de tecnologia numa brincadeira. Quando ele adoecia, precisava tomar aerossol, e não gostava. Aí eu pegava o tablet e botava vídeos das crianças tomando. Ele ficava assistindo e achava interessante, se aquietava", relembra a mãe do pequeno, Sheila de Lima, 33.

Além dos jogos instalados no celular e no tablet, o passatempo de Miguel enquanto imerge nos aparelhos eletrônicos é navegar pelo Youtube em busca de assistir aos diversos desenhos animados disponíveis. E quando falta conexão à Internet em Horizonte, município cearense onde a família mora, a cerca de 40km da Capital, "é uma confusão, porque ele quer porque quer baixar alguma coisa no celular, e não dá. Eu tenho que baixar em Fortaleza e já levar pra lá com os jogos", conta Sheila, reconhecendo que o integrante mais novo da família é, paradoxalmente, o mais conectado. "Meu esposo só usa celular pra ligar e receber. E eu também não sou muito bitolada não. Quem mais usa é o neném", avalia.

"Ele tá muito viciado em tecnologia. Muitas vezes ele não quer sair de casa, é um sacrifício. Ele diz 'não, quero ficar em casa no tablet'. Hoje ainda não me preocupa, não sei depois", diz.

Para o presidente da União Cearense de Gamers (UCG), Izequiel Norões, a expansão dos aparelhos inteligentes relaciona-se diretamente com a ampliação do consumo dos games, que se tornam cada vez mais acessíveis. "Os smartphones são mais baratos, diferentemente de alguns aparelhos de videogame, que são bem caros. Isso favorece ainda mais o uso e o crescimento do mercado de jogos nesses dispositivos e nos tablets, que hoje é o que mais cresce", aponta, destacando, porém, a importância de dosar o uso das ferramentas. "É claro que a questão do uso vai muito do comportamento da pessoa. Eu não posso culpar um jogo, ele não faz nada sozinho, é um elemento interativo", frisa.

Limites

Segundo Norões, é necessário quebrar a "visão generalista" de que os jogos virtuais, por si, influenciam comportamentos negativos ou causam dependência, principalmente sobre crianças e adolescentes.

O presidente da UCG afirma ainda que, além de entreter e proporcionar conhecimento cultural, os videogames podem ser utilizados em tratamento de doenças como Parkinson e até recuperação de pessoas que tiveram problemas físicos, por meio da utilização de consoles com sensores que estimulam os movimentos corporais.

Apesar disso, a palavra-chave ainda é uma só: limite. "Existem jogadores profissionais, que treinam horas e horas porque têm de cumprir horário. Mas o jogador casual, que joga por entretenimento, precisa usar de forma ponderada, ter respeito por si e pelas atividades do dia a dia. Também é preciso cuidado dos pais na orientação dos filhos em relação ao uso de dispositivos eletrônicos desde a infância", pondera Izequiel Norões.

O estudante Hugo Pereira, 21, navega no universo de videogames desde os 12 anos, e já chegou a passar oito horas seguidas jogando com amigos. Entretanto, apesar de ter os jogos como principal forma de diversão, o jovem não adota os hábitos de colegas próximos, que abrem mão de tarefas importantes para permanecerem conectados. "Quando jogo, eu coloco na minha cabeça a questão das responsabilidades da faculdade, das coisas de casa, de tudo. Não deixo de fazer alguma coisa para jogar", afirma, reconhecendo que, muitas vezes, manter o uso moderado é um desafio.

"Existem jogos em que, se você quiser evoluir ou ter mais diversão, é preciso gastar bastante tempo. Então às vezes é complicado, porque você pensa: 'poxa, queria jogar mais...' Acho que daí surgem as dependências", opina o estudante, que encontra nos games Warframe, Overwatch e League of Legends muito além de entretenimento. "Os jogos trazem um passatempo, histórias, e em muitos deles você traça estratégias, arquiteta planos... É um treino mental. Isso já me ajudou em diversas coisas".

Conexão

"Acho que umas 15h, 14h? Enquanto eu estiver ligada, o celular também tá". O honesto cálculo resulta no tempo que a estudante Lígia Oliveira, 24, passa conectada. "Já fui advertida no trabalho e tive de apagar o aplicativo pra ver se eu parava de usar", afirma, relembrando que a ansiedade que toma o lugar do aparelho quando a bateria acaba já foi até assunto de terapia. "Minha psicóloga perguntou: 'Lígia, tu já esqueceu o celular em casa?' E isso nunca tinha acontecido. Já esqueci carteira, dinheiro, livro. Celular, não. Eu considero uma extensão de mim", conclui.

Em outro extremo, na contramão dos contemporâneos, vive o estudante Lucas Santos, 20, que não tem celular. O pai até insiste em presenteá-lo, os amigos zombam, mas a desconexão voluntária ainda é prioridade. "Eu encaro isso como um contracontrole, sabe? Eu gosto dessa liberdade de as pessoas não saberem onde eu estou", justifica.

Transitando, porém, em meio a uma sociedade que cobra conexão, o estudante até já se sentiu pressionado a mudar, e reconhece que, quando concluir o curso de Psicologia, precisará de uma forma mais imediata de contato. Mas, por enquanto, se mantém irredutível. "Eu tenho que me achar interessante. Ler um bom livro, valorizar as conversas face a face. Acho que a tendência é as pessoas estarem mais conectadas via Internet do que marcarem de se encontrar num café", lamenta Lucas.

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