Reportagem Juazeiro do Norte

Protagonistas escrevem o enredo da própria história

Os irmãos Ciço e Zizi e a sobrinha Iane (acima) se impõem diante das limitações físicas (Fotos: Helene Santos e Globo/ João Cotta)
00:00 · 09.12.2017

Na família Telécio, em Juazeiro do Norte, os irmãos Ciço Gnomo e Zizi, ambos com nanismo, são dois artistas. Ele canta e compõe, e ela, é atriz e exímia bordadeira. A sobrinha, Iane Telécio, 23 anos, é igualmente apaixonada pelas artes e pela psicologia. Tem o dom de falar e de se impor diante das limitações físicas e emocionais.

As irmãs Rosinha e Ceilda, de Várzea Alegre, são gigantes por natureza. Empreendedoras na área artesanal, orgulham-se de suas inúmeras conquistas: Rosinha representou o Brasil na sede da ONU, em Nova Iorque, e Ceilda tem carteira de habilitação e carro adaptado.

Essas e outras histórias têm enredos que lembram a personagem de Juliana Caldas, de 1,22 cm, a primeira atriz com nanismo a conquistar espaço nobre em uma novela das 21h, na Rede Globo. Vivendo a Estela em "O outro lado do paraíso", ela mostra o drama do preconceito dentro da própria família, ou melhor, de sua mãe Sophia (Marieta Severo), a qual não aceita e tenta esconder a filha por conta da deficiência.

A abordagem do tema, na avaliação de Michelle Sampaio, de Juazeiro do Norte, está sendo exagerada, pois ela não conhece nenhuma mãe com esse perfil. De qualquer forma, considera importante falar sobre o assunto num horário nobre, pois acredita que isso poderá ajudar a sociedade a entender e a respeitar mais as pessoas com nanismo.

nanismo
Acima, a atriz e modelo Juliana Caldas, a Estela, de "O outro lado do paraíso". Ela protagoniza a primeira personagem com nanismo no horário nobre da Rede Globo 

Michelle admite que na vida real também acontece de as pessoas de baixa estatura serem alvo de risos e comentários, o que pode acarretar em outros problemas, bem como tristeza, queda na autoestima e até depressão.

Na parte afetiva, o romance entre Estela e o lapidador Juvenal (vivido por Anderson Di Rizi) também faz parte da realidade. Michelle cita como exemplo a própria história de amor com o marido Tiago Moraes, que tem estatura normal. "Existem pessoas que não têm preconceito e se apaixonam por portadores de nanismo, sem se importar com a opinião da sociedade", destaca.

A bancária acompanha o folhetim com entusiasmo, afinal, há alguns meses foi contactada para fazer parte da seleção da personagem Estela. Descoberta por meio das redes sociais, participou de etapas com outras candidatas. Recebeu o texto, gravou em Juazeiro e enviou à produtora. Embora não tenha sido escolhida, ficou envaidecida de ser lembrada para atuar na telinha. Contudo, o papel principal de Michelle para 2017 já estava escrito: ser mãe de Maria Clara.

Time completo

Mas nem só na televisão e no universo das artes brilham os portadores de nanismo. No futebol tem um time em Fortaleza que está dando o que falar, e se diz pronto para encarar qualquer adversário, seja de baixa estatura ou não. Formado em 2009, inicialmente era denominado "Rapadura Cearense". Agora que eles "cresceram" chama-se "Gigantes do Cangaço".

Quem está à frente do time é Faltino Saraiva, que trabalha como auxiliar administrativo de uma empresa aérea no Aeroporto de Fortaleza. Conseguiu formar o time na época em que era cobrador de ônibus, pois tinha contato com muitas pessoas. "Quando eu via um, perguntava logo se gostava de jogar futebol e já anotava o telefone", recorda.

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O " Gigantes do Cangaço" é formado por Faltino, Artur e Evanildo (em pé) e Roberto, Lucas e José Alvim (agachados). O Ceará é um dos cinco estados brasileiros que possuem time de futebol com nanismo Foto: Ítalo Ribeiro Os irmãos Ciço e Zizi e a sobrinha Iane (acima) se impõem diante das limitações físicas. 

Ainda em 2009, o time disputou um duelo de gigantes no Rio de Janeiro, e voltou campeão brasileiro. Em 2010, foi vice em um campeonato em São Paulo. Hoje, segundo Faltino, cinco estados brasileiros possuem times formados por jogadores com nanismo: Ceará, Sergipe, Belém, Rio de Janeiro e São Paulo. Apesar disso, ainda não foi criada uma seleção brasileira composta por jogadores com nanismo.

Segundo Faltino, não é por falta de desejo de realizar um campeonato brasileiro e formar a seleção nacional, mas pela ausência de patrocínio e incentivo das federações e da CBF. "O Gigantes do Cangaço está aqui, forte e unido. Estamos quebrando mais essa barreira com relação ao preconceito às pessoas com nanismo e de baixa estatura".

Saúde e estatísticas

As características mais comuns do nanismo são a baixa estatura, pernas e braços pequenos e desproporcionais ao tamanho da cabeça e ao comprimento do tronco. O encurtamento ocorre, principalmente, na parte superior dos braços e nas coxas. A anomalia se divide em diferentes tipos, contudo, o mais comum é o nanismo acondroplásico ou desproporcional, também conhecido como acondroplasia.

"É uma doença genética que provoca um crescimento esquelético anormal, resultando num indivíduo cuja altura é muito inferior à altura média da população. As displasias esqueléticas (osteocondrodisplasia) englobam um grupo heterogêneo de doenças caracterizadas por anormalidades de cartilagens, ossos ou ambos", explica a endocrinologista pediátrica Ana Paula Montenegro, do Hospital Universitário Walter Cantídio (veja entrevista na página 4).

A acondroplasia, segundo a médica, pode afetar mulheres e homens indistintamente. Eles preservam a capacidade intelectual e costumam levar uma vida normal. "Em muitas situações, entretanto, essas pessoas terão que lidar com o preconceito e a discriminação social, além de contornar as dificuldades de acessibilidade nos ambientes públicos e privados", destaca.

No Ceará, a exemplo do Brasil, não há números específicos de pessoas com nanismo computados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estima-se, porém, que a cada 20 mil crianças nascidas vivas, uma apresentará a deficiência. O nanismo, vale salientar, só foi classificado como deficiência física no Brasil em 2004. Desde então, esses portadores passaram a receber o mesmo tratamento legal concedido às pessoas com necessidades especiais, inclusive cotas em concursos públicos.

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